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Correio Braziliense

Brasileira morta na Nicarágua teria sofrido emboscada de paramilitares

Fuzilamento da estudante de medicina Raynéia Lima provoca indignação do Ministério das Relações Exteriores, que chama de volta para consultas o embaixador em Manágua. Pernambucana teria sofrido emboscada de paramilitares em Manágua


postado em 25/07/2018 06:00

As imagens da convulsão que atinge o país desde abril e deixou mais de 300 mortos: manifestantes disparam morteiro artesanal (foto: AFP / INTI OCON )
As imagens da convulsão que atinge o país desde abril e deixou mais de 300 mortos: manifestantes disparam morteiro artesanal (foto: AFP / INTI OCON )


A mensagem deixada no perfil do Facebook estampava o momento especial na vida de Raynéia Gabrielle da Costa Lima Rocha, 31 anos: “Nascida no Brasil, renascida na Nicarágua! Liberdade, luz, paz e amor”. Nos últimos meses, a pernambucana que cursava o quinto e último ano de medicina da Universidade Americana (UAM) socorreu vítimas da repressão exercida pelas forças do governo de Daniel Ortega. Ela se preparava para retornar à terra natal, Vitória de Santo Antão, a 52km de Recife. Por volta das 23h de segunda-feira (2h de ontem em Brasília), Raynéia foi fuzilada, supostamente por paramilitares, quando dirigia seu carro pela região sudoeste de Manágua, a cerca de 3km do câmpus da UAM.

De acordo com  o site 100% Noticias, a brasileira foi atingida no tórax e, antes do ataque, o noivo da jovem levantou os braços para sinalizar que ambos não estavam armados. Uma das balas perfurou  o fígado da jovem, que sofreu parada cardíaca ao ser atendida no hospital. O governo brasileiro exigiu a punição dos assassinos. Também convocou a embaixadora da Nicarágua no Brasil, Lorena Martinez, para prestar esclarecimentos, e chamou de volta, para consultas, o representante brasileiro em Manágua, Luís Cláudio Villafañe.

Marcas de bala em imagem de Cristo na igreja (foto: AFP / MARVIN RECINOS )
Marcas de bala em imagem de Cristo na igreja (foto: AFP / MARVIN RECINOS )
Por sua  vez, a Polícia Nacional da Nicarágua atribuiu a responsabilidade a um guarda de vigilância privada (veja foto). Até as 18h30 de ontem, o corpo de Raynéia estava no Instituto Médico Legal de Manágua. Colegas da UAM realizaram, à noite, uma homenagem à brasileira. “Vigília ‘Não ao perdão, não ao esquecimento!’, anunciava um cartaz publicado nas redes sociais. “Levar velas, flores e cartazes”, pedia o aviso. Pelo Twitter, fotos e ilustrações do rosto da pernambucana eram acompanhados do texto “Doutora Raynéia Lima. Assassinada pelo regime de Ortega. Presente! Presente! Presente!”.

Natural de Anápolis (GO), o motorista Ridevando Pereira, 57 anos, pai de Raynéia, contou ao Correio que soube da morte da filha por intermédio da ex-mulher. “Ela vivia na Nicarágua desde 2013. Era uma menina muito boa, estudiosa. Nós conversávamos mais quando Raynéia vinha para Vitória de Santontão. Ninguém do governo brasileiro me procurou.”

A jornalista Karla Costa, 36, trocou Manaus por Manágua, onde viveu de outubro de 2014 a junho deste ano, e se tornou amiga de Rayneia. “A ‘Ray’ não tinha posição política, nada contra o governo. Ela não participava das manifestações e dava plantões em hospitais. Tanto que atendeu vários feridos nos protestos durante esses plantões”, afirmou à reportagem. “Ela saía da casa de uma amiga, que fica a menos de 2km de sua residência. O namorado a acompanhava em carro próprio, atrás. Quando a Ray parou no semáforo, passou um veículo com paramilitares atirando. É assim: eles matam quem está na rua à noite. Terra sem lei e sem controle”, relatou. Segundo Karla, Raynéia se divorciou do marido, em 2016, e decidiu permanecer na Nicarágua para concluir os estudos. “Para se sustentar, ela fazia fotos para comerciais e vendia brigadeiros e produtos de cosméticos. Era muito esforçada.”

Estudante mascarado em marcha (foto: AFP / MARVIN RECINOS )
Estudante mascarado em marcha (foto: AFP / MARVIN RECINOS )
O modelo nicaraguense Andreu Lorio Cuevas, 25, posou para algumas peças publicitárias ao lado de Raynéia — a última delas em  2016. Na manhã de ontem, depois de ser avisado da morte pela reportagem do Correio, ficou em choque. Minutos depois, admitiu que “ela foi fuzilada por paramilitares deste governo assassino”. “Ela era uma pessoa muito boa, inteligente e amava a Nicarágua. Com o sonho de se tornar médica, deixou o Brasil. Sempre amável, era  muito sorridente”, acrescentou. De acordo com Cuevas, Raynéia demonstrava um amor genuíno pelos próprios sonhos. “Essa parte dela me inspirava a buscar os meus sonhos.”

Raynéia nasceu em Vitória de Santo Antão, a 52km de Recife, e vivia em Manágua desde 2011: sonho da formatura em medicina interrompido a bala (foto: Facebook/Reprodução )
Raynéia nasceu em Vitória de Santo Antão, a 52km de Recife, e vivia em Manágua desde 2011: sonho da formatura em medicina interrompido a bala (foto: Facebook/Reprodução )


Condenação

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro afirma que recebeu “com profunda indignação e condena a trágica morte” de Raynéia. Também sustenta  que  busca esclarecimentos junto ao governo nicaraguense. “Neste momento difícil, (o governo brasileiro) estende sua solidariedade e expressa as mais sentidas  condolências à família da jovem.” De acordo com o comunicado, o Brasil “torna a condenar o aprofundamento da repressão, o uso desproporcional e letal da força e o emprego de grupos paramilitares em operações coordenadas pelas equipes de segurança”.

“Ao repudiar a perseguição de manifestantes, estudantes e defensores dos direitos humanos, o governo brasileiro volta a instar o governo da Nicarágua a garantir o exercício dos direitos individuais e das liberdades públicas”, acrescenta o texto, segundo o qual o Brasil exorta Manágua a envidar todos os esforços necessários para identificar e punir os responsáveis pelo ato criminoso.

Trump denuncia violência patrocinada pelo Estado

O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, denunciou a violência “patrocinada pelo Estado” na Nicarágua e pediu ao presidente, Daniel Ortega, a antecipação das eleições, a fim de superar a crise no país. “A violência patrocinada pelo Estado da Nicarágua é inegável. A propaganda de Ortega não engana ninguém e não muda nada. Mais de 350 mortos pelas mãos do regime. Os Estados Unidos pedem ao governo de Ortega que ponha fim à violência AGORA e celebre eleições antecipadas: o mundo está de olho!”, escreveu Pence no Twitter. O tuíte de Pence se refere à entrevista de Ortega, realizada pela emissora americana Fox News e transmitida na noite de segunda-feira nos Estados Unidos. No trecho da entrevista retuitado por Pence, Ortega rejeita as acusações de que seu governo controla grupos pró-governamentais, que foram vistos agindo em acordo com a Polícia.

Polícia culpa guarda privado

Por meio da nota de imprensa nº 91 de 2018, a Polícia Nacional da República da Nicarágua informou a morte de Raynéia Gabrielle da Costa Lima Rocha, médica residente do Hospital Carlos Roberto Huembes. “Ela se deslocava sozinha, a bordo do veículo placa M170620, pelo setor de Llomas de Montserrat, na cidade de Manágua. Um guarda de vigilância privada, em circunstâncias ainda não determinadas, realizou disparos com armas de fogo, um dos quais a impactou, provocando-lhe lesões”, afirma. Segundo a nota, Raynéia foi transportada para o Hospital Militar Escuela Alejandro Dávilo Bolaños, onde faleceu. “O guarda de vigilância privada está sendo investigado para o esclarecimento do fato. Nossa instituição policial lamenta o falecimento da médica interna Rayneia Gabrielle da Costa Lima Rocha e reitera seu compromisso de continuar trabalhando para fortalecer a paz, a segurança das pessoa, famílias e comunidades nicaraguenses”, conclui o texto, assinado pela Divisão de Relações Públicas.

(foto: Oscar Navarrete/Divulgação )
(foto: Oscar Navarrete/Divulgação )


Duas perguntas para

Ernesto Medina, reitor da Universidade Americana (UAM)

A quem o senhor atribui a responsabilidade pelo assassinato de Raynéia?

As testemunhas afirmam que três homens encapuzados, usando armas de guerra, fizeram os disparos. Os colegas dela — que falaram com pessoas que estavam no local e que foram ao hospital — fizeram um pronunciamento desmentindo o comunicado da polícia, que culpou um vigilante particular, apesar de não identificá-lo. Os estudantes dizem que isso não é verdade. Esta é uma prática comum, desde que a crise começou. A polícia sempre quis justificar o injustificável, depositando a culpa nos cidadãos que participam dos protestos ou em pessoas inocentes. Existem documentos que mostram imagens de viaturas da polícia acompanhando carros transportando esses encapuzados.

Que impacto a morte da brasileira causou na comunidade acadêmica da UAM?

Eu estive reunido com colegas de classe dela. Estão destroçados. Nunca estiveram em uma situação tão plena de emoção como esta. Todos estão chorando. Estamos coordenando com a embaixada e com os alunos uma homenagem a Raynéia. Com certeza, teremos algo, pois ela era muito querida. Para nós, da América Central, o Brasil é considerado um país muito exótico e especial. Os colegas a consideravam uma mulher muito simpática e alegre. Os depoimentos enfatizam a alegria e o amor que ela sentia pela Nicarágua, o que nos emocionou muito. O fato de priorizarem uma mentira para acobertar um ato tão odioso nos ofende. Pedimos pela verdade. Queremos que  haja justiça e se investigue a fundo. Pode parecer absurdo, mas a única coisa que os colegas de Raynéia puderam lhe perguntar durante o atendimento no hospital foi por seus documentos. De madrugada, foram ao local para buscar os documentos, e o carro não estava lá mais. Quando o encontraram, ele tinha sido lavado. Raynéia chegou ao hospital coberta com muito sangue.

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