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Correio Braziliense

Os embates entre o governo Ortega e a Igreja Católica na Nicarágua

A Igreja teve o papel de mediadora entre o governo sandinista de Ortega e os manifestantes, que pedem sua renúncia e eleições antecipadas


postado em 27/07/2018 17:32

(foto: Marvin Recinos/AFP)
(foto: Marvin Recinos/AFP)

 
O cardeal Leopoldo Brenes, de 69 anos, foi atacado quando tentava entrar na Basílica de San Sebastián por partidários do governo da Nicarágua. Ele e outros líderes católicos foram empurrados, espancados e arranhados. Um dos bispos foi esfaqueado. 

A cena ocorreu na cidade normalmente tranquila de Diriamba, ao sul de Manágua, e foi um exemplo de como a crise no país deteriorou rapidamente a relação entre a Igreja Católica e o presidente Daniel Ortega.

A Igreja teve o papel de mediadora entre o governo sandinista de Ortega e os manifestantes, que pedem sua renúncia e eleições antecipadas. Os protestos começaram no dia 18 de abril e já resultaram em 450 mortes, cuja maioria é de civis, segundo ONGs.

Apesar da mediação, a instituição é cada vez mais atacada pelo presidente e seus aliados, revivendo as hostilidades da década de 1980. 

Brenes, arcebispo de Manágua, foi a Diriamba em 9 de julho, um dia depois de falar com padres da cidade pelo telefone e ouvir tiros e sirenes de ambulâncias. Ele se encontrou com médicos e enfermeiros que costumavam atender os manifestantes feridos e se refugiaram dentro da basílica, cercada por forças pró-governo. "Havia o temor de que (as forças pró-governo) entrariam para tirar as pessoas de lá", explicou o padre da paróquia, César Alberto Rodríguez.

Apesar dos distúrbios na entrada na basílica, a delegação de Brenes, que corresponde à mais alta representação do Vaticano na Nicarágua, conseguiu tirar as pessoas do templo. 

Duas semanas depois do ocorrido e apesar da presença policial em massa na região, a igreja está coberta de pichações em apoio ao governo de Ortega. "Meu comandante fica", dizia uma das frases. As mensagens foram assinadas com a sigla "JS", da Juventude Sandinista, organização pró-governo que atuou como tropa de choque contra manifestantes.

Depois disso, a basílica retomou seus serviços, mas como ocorre em muitas outras paróquias na Nicarágua, não está realizando missas à noite, quando polícia e milícias armadas tomam as ruas. "Nos demos conta de que as pessoas não estavam vindo", disse Brenes.


Relação 


A Igreja é basicamente a última instituição independente na qual grande parte da população ainda confia e é testemunha do governo de Ortega e suas ações. Em abril, o presidente pediu à Igreja para mediar as negociações de paz. Mas o diálogo rapidamente implodiu quando ficou claro que as eleições de 2021 não seriam antecipadas para 2019, proposta apresentada pela Conferência Episcopal.

A tensão piorou na semana passada, quando Ortega acusou os bispos de estarem aliados com "golpistas" e permitirem o armazenamento de armas nas igrejas - sem apresentar provas -, acrescentando que as autoridades religiosas estavam "desqualificadas" como mediadoras. 

Dias depois, o presidente recuou, dizendo esperar que a Igreja continuasse mediando e insistindo que não existe perseguição do governo.

"A estratégia de Ortega com a Igreja sempre foi de encantar ou intimidar", disse o antropólogo Henri Gooren, da Universidade de Oakland, em Michigan, e editor da Enciclopédia de Religiões Latino-americanas. "Creio que ele percebeu que o encanto não está funcionando, então tudo o que pode fazer agora é tentar intimidá-los, tentar diminuir sua credibilidade".

Por meio de ataques verbais, Ortega está "dizendo a seus seguidores 'podem seguir em frente e espancar sacerdotes e bispos e destruir os edifícios da Igreja, sem punição'", acrescentou Gooren. Nesta semana, Brenes e seus bispos se reuniram e concordaram em seguir defendendo o diálogo, a única opção que o cardeal vê para dar fim à violência.

Embora a discussão sobre "democratizar" a Nicarágua não tenha terminado bem, já que Ortega se negou a abandonar o cargo, o arcebispo disse que os negociadores conseguiram alguma ajuda para os manifestantes detidos, a retirada pacífica de algumas barricadas e o acesso de observadores internacionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA). 

Em sua opinião, sem diálogo haveria ainda mais mortes. O cardeal tem uma perspectiva ampla sobre o assunto, porque já passou pela mesma situação anteriormente.

Experiência


Entrevistado no pátio de sua casa em Manágua, Brenes lembrou que décadas atrás, quando era um jovem padre, abrigava partidários da Frente Sandinista de Ortega quando eram perseguidos pela guarda nacional da ditadura de Somoza. 

Em 1979, depois de ser transferido para uma paróquia em Jinotepe, os combatentes sandinistas armados tomaram sua igreja. Certa vez, um franco-atirador de elite o encurralou em paróquia com uma mulher e uma criança que ele havia abrigado. Durante três dias, eles se esconderam embaixo de uma pia e sobreviveram com biscoitos e pinol.

Mais tarde, em 1991, Brenes ajudou na mediação entre o Exército sandinista e os rebeldes Contra, respaldados pelos Estados Unidos, e viajou para as montanhas de Matagalpa, atuando como emissário entre representantes dos dois lados, que se recusavam até mesmo em se encontrar.

Agora, em 2018, depois do discurso de Ortega classificando os bispos como conspiradores, Brenes disse que procurou a palavra "golpe" no dicionário, mas encontrou um significado diferente do que tenta fazer. "Eu li lá: 'alguém que realiza uma ação para tomar o poder'. Bom, não é o que estou fazendo. Não é o que estamos fazendo", explicou.

Ortega se chocou com autoridades eclesiásticas em várias ocasiões quando os sandinistas, de tendência socialista, governaram na década de 1980, época em que muitos sacerdotes jovens apoiaram abertamente o ex-guerrilheiro, enfurecendo o papa João Paulo II. Mas Ortega trabalhou para consertar sua relação com a Igreja depois de perder eleições na década de 1990

Quando recuperou o poder, em 2006, fazia demonstrações públicas frequentes de piedade e forjou uma amizade com o líder da instituição no país, o falecido arcebispo Miguel Obando y Bravo

Quando a nova onda de protestos eclodiu em abril, as forças governamentais e a Juventude Sandinista responderam com força. Em 20 de abril, centenas de estudantes se refugiaram na Catedral de Manágua, onde a Igreja coletava doações para ajudar os manifestantes. Quando a polícia e o grupo sandinista se aproximaram, os jovens ocuparam o templo e não saíram até que o clero obtivesse garantias de segurança.

Brenes e vários outros bispos se pronunciaram publicamente contra a violência e a favor do diálogo. A Conferência Episcopal emitiu, em seguida, uma condenação mais severa à repressão e instou as autoridades a "escutar o grito dos jovens nicaraguenses". 

O Vaticano tem se mantido em silêncio, fazendo diplomacia nos bastidores, enquanto a igreja local administra a situação no terreno. O embaixador do papa Francisco no país divulgou um comunicado na semana passada, expressando a "profunda preocupação (do pontífice) pela grave situação".

No mesmo dia do ataque em Diriamba, partidários de Ortega saquearam a paróquia de Santiago Apostol em Jinotepe, jogando os bancos pelas escadas, enquanto gritavam que a instituição estava dando cobertura a terroristas. O caso mais grave aconteceu na Igreja de Jesus da Divina Misericórdia, em Manágua.

Na madrugada entre 13 de julho e 14 de julho, partidários armados do governo dispararam por quase 15 horas contra o templo onde 155 estudantes desalojados de uma universidade próxima se abrigavam. Um deles, baleado na cabeça em uma barricada do lado de fora, morreu no chão da casa paroquial. 

Brenes garantiu que o grupo chegasse em segurança à catedral da capital. E a fachada da Divina Misericórdia continua marcada pelas centenas de impactos de bala.

Uma pequena capela atrás do santuário principal sofreu o maior dano: as balas perfuraram uma pintura de Jesus Cristo e ricochetearam em uma urna de ouro e prata que guarda o sacramento.

Em um domingo recente, a paroquiana Nelly Harding, de 56 anos, enxugava as lágrimas ao sair da igreja. "Se eles não respeitam a casa de Deus, eles não respeitam a vida das pessoas que estão desamparadas, o que podemos esperar?"

O padre da paróquia, Erick Alvarado Cole, apontou que a polícia não foi investigar o ocorrido e as marcas no prédio continuarão como estão. "Estes buracos na parede, o Cristo, o tabernáculo e as janelas permanecerão como testemunho da dor do povo nicaraguense", disse o sacerdote. "Se for consertado, é como se nada acontecesse."

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