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Correio Braziliense

Escândalo dos cadernos' sacode o mundo empresarial na Argentina

Do lado político, o caso atinge a ex-presidente Cristina Kirchner e uma dezena de seu ex-funcionários


postado em 13/08/2018 12:17 / atualizado em 13/08/2018 12:43

Buenos Aires, Argentina - O "escândalo dos cadernos", um caso judicial envolvendo milhões de dólares em propinas, abalou o meio empresarial como nunca antes na Argentina. Do lado político, o caso atinge a ex-presidente Cristina Kirchner e uma dezena de ex-funcionários além de atinge também atingir homens de negócios, amigos e parentes do presidente Mauricio Macri.

O que surpreende é que jamais houve tantos e tão poderosos empresários envolvidos. São ao menos 20. E a cada dia surge um novo nome de peso. O empresário e primo de Macri, Angelo Calcaterra, se declarou vítima de pedidos de dinheiro do kirchnerismo para financiar campanhas eleitorais. Sentou no banco dos réus o número dois da multinacional Techint, Luis Betnaza. Desfilam grandes empresários como o construtor Carlos Wagner e Juan Carlos De Goycochea, da espanhola Isolux.

"Não é a primeira vez que importantes empresários vão para a prisão, mas é inédito o número e o motivo", disse à AFP Sergio Morresi, cientista político da Universidade Nacional de San Martín. São investigados milhões de dólares em supostas propinas saídos dos cofres patronais como contribuição à política por baixo dos panos.

"O setor empresarial tem um papel relevante neste caso, incluindo a Techint", declarou à AFP o cientista político Rosendo Fraga sobre a companhia ítalo-argentina com investimentos em 100 países. Esta seria a versão argentina do caso Odebrecht? Existiria no país uma espécie de Operação Lava Jato portenha?

"O processamento e a prisão de empresários é um fato novo e, considerando a impopularidade e a impunidade que gozam os grandes empresários, é provável que seja bem recebido pela opinião pública", assinalou à AFP o sociólogo Ricardo Rouvier. Morresi acredita que "um resultado possível é um verdadeiro avanço na transparência, com condenações judiciais".
 
Ver galeria . 5 Fotos A ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner deixa um Tribunal Federal em Buenos Aires, onde compareceu perante o juiz depor sobre o caso dos
A ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner deixa um Tribunal Federal em Buenos Aires, onde compareceu perante o juiz depor sobre o caso dos "cadernos de corrupção". (foto: Eitan Abramovich / AFP )

Os cadernos 

O caso se popularizou como o "escândalo dos cadernos". Envolve um motorista arrependido que levava ex-funcionários kirchneristas e anotava detalhadamente movimentos com supostas bolsas de dinheiro: este é Oscar Centeno, expulso do Exército por má conduta.

"Não há dúvida de que os cadernos descrevem com precisão o modo como o kirchnerismo arrecadou ilegalmente fundos durante sete anos sem que levantasse suspeita de nenhum órgão de controle", disse à AFP Nicolás Solari, da consultora Poliarquía.

As anotações de Centeno vão de 2005 a 2015, períodos de governo do falecido ex-presidente Néstor Kirchner e de sua esposa e sucessora, Cristina Kirchner. "E agora quem vai colocar dinheiro nas obras públicas? Com a Lava Jato viemos suportando três anos de queda da atividade no Brasil", advertiu Miguel Acevedo, chefe da poderosa União Industrial, que não está envolvido.

Os mercados reagiram com quedas da Bolsa e da moeda. O risco-país subiu a 704 pontos, o maior período de Macri. Caíram ações de empresas argentinas em Wall Street. "Temos visto como podem escalar esses casos", disse a consultora Capital Economics em referência ao Peru e Brasil. "Se o governo de Macri se vir envolvido será mais difícil que as agressivas reformas econômicas pactuadas com o FMI passem no Congresso", acrescentou.

Interrogatório a Kirchner 

A ex-presidente e senadora Cristina Kirchner, a política opositora de melhor imagem, declara nesta segunda-feira ante Claudio Bonadio, polêmico juiz investigador. Bonadio disse a pessoas próximas que quer levá-la à prisão. Ela se declara como "perseguida política".

No desfile de empresários entraram os da chamada "Pátria Contratista", como são conhecidos os que enriqueceram com obras e serviços públicos na ditadura e em governos democráticos.

O ex-chefe de gabinete Alberto Fernández denunciou que os empresários próximos ao poder saíram livres e que os que ficaram atrás das grades, por enquanto, são kirchneristas. "Alguém pode me explicar como o primo (de Macri) Calcaterra sendo membro da associação criminosa está livre e todos os outros presos?", questionou.

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