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Correio Braziliense

Jornais americanos respondem aos ataques de Donald Trump

Após os ataques do presidente contra os meios de comunicação, jornais americanos responderam publicando editoriais para insistir na importância da liberdade de imprensa


postado em 16/08/2018 15:10

"Os jornalistas não são o inimigo", capa do jornal Boston Globe desta quinta (foto: AFP)
 
Washington, Estados Unidos - "Os jornalistas não são o inimigo": revoltados com Donald Trump, muitos jornais americanos responderam nesta quinta-feira (16) publicando coordenadamente editoriais para insistir na importância da liberdade de imprensa.

Liderados pelo Boston Globe, que lançou um chamado acompanhado pela hashtag #EnemyofNone (Inimigo de ninguém), mais de 200 jornais em todo o país se juntaram à campanha.

"Hoje nos Estados Unidos temos um presidente que criou um mantra de que os membros dos meios de comunicação que não apoiam flagrantemente as políticas da atual administração americana são o 'inimigo do povo'", assinalou o editorial do Globe.

"Esta é uma das muitas mentiras que este presidente lançou, assim como um charlatão de outrora que jogou um pó 'mágico na água' sobre uma multidão esperançosa", acrescentou em um artigo intitulado "Os jornalistas não são o inimigo".

As ações de Trump também estão estimulando fortes líderes como Vladimir Putin, na Rússia, e Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, a tratar os jornalistas como inimigos, argumentou o Globe.

O New York Times, um dos alvos mais frequentes da crítica de Trump, publicou um editorial de sete parágrafos sob um título enorme, com todas as letras maiúsculas, que diz "UMA IMPRENSA LIVRE PRECISA DE VOCÊ" e com a declaração de que só é justo que as pessoas critiquem a imprensa quando esta fizer algo ruim.

"Mas insistir que as verdades que não te agradam são 'notícias falsas' é perigoso para o sangue da democracia. E chamar os jornalistas de 'inimigos do povo' é perigoso e ponto", escreveu o Times.

A iniciativa é tomada em um momento particular: Trump multiplica os ataques contra os meios de comunicação, qualificando-os regularmente de "Fake News" ante qualquer informação que possa desagradá-lo.

Para os defensores da liberdade de imprensa, essa retórica ameaça a Primeira Emenda à Constituição americana, que protege a sacrossanta liberdade de expressão e imprensa.

Alguns acreditam que os comentários de Trump desencadearam ameaças contra jornalistas que cobriam seus eventos e também poderiam criar um clima de hostilidade que abriu as portas a ataques violentos, como o ocorrido no Capital Gazette de Annapolis, em Maryland, no fim de junho, quando cinco pessoas foram assassinadas por um pistoleiro que tinha uma relação conflituosa com o veículo.

Outros meios de comunicação defenderam seu papel ressaltando que é um trabalho que economiza tempo ao contribuinte americano.

"Os jornalistas cobrem tediosas reuniões do governo e decifram fórmulas de financiamento de escolas públicas para que isso não tenha que ser feito" pelo leitor, diz o Arizona Daily Star. "Não é tão básico como a Primeira Emenda, mas pode ser útil".

Iniciativa limitada
Nesta quinta-feira, Trump fez um novo ataque por meio de sua rede favorita, o Twitter: "A IMPRENSA FAKE NEWS É O PARTIDO DE OPOSIÇÃO. Isto é muito ruim para o nosso Grande País... MAS ESTAMOS GANHANDO!" escreveu em sua conta.

Os partidários do presidente viram na iniciativa outra razão para fazer críticas.

"Os meios de comunicação sustentam um ataque deliberado, público e principalmente contra @realDonaldTrump" e contra a "metade do país que o apoia. E os meios se perguntam o motivo pelo qual achamos que são notícias falsas", havia escrito Mike Huckabee, ex-governador republicano e colunista do canal conservador Fox News.

"Não acho que a imprensa deva ficar de braços cruzados e sofrer, tem que se defender quando o homem mais poderoso do mundo tenta socavar a Primeira Emenda", afirmou, por sua vez, Ken Paulson, ex-editor do USA Today e líder do "First Amendment Center", no Newseum, o museu do Jornalismo em Washington.

Contudo, atenua o alcance da iniciativa: "As pessoas que leem editoriais não precisam ser convencidas".

Paulson opinou que, no atual contexto conflituoso, o mais adequado para os meios de comunicação é desenvolver uma campanha de mercado mais ampla na qual enfatizem a importância da liberdade de imprensa como valor central.

Para James Freeman, colunista do Wall Street Journal - jornal econômico propriedade do magnata Rupert Murdoch, aliado do presidente -, esta iniciativa "provavelmente não é a melhor maneira de ampliar o número de leitores entre os votantes de direita".

Dan Kennedy, professor de Jornalismo na Northeastern University, não tem dúvidas de que os partidários de Trump verão nesta "mais uma prova de que a imprensa age como um membro da Resistência".

Inclusive críticos de Trump têm dúvidas dos benefícios da campanha. Como Jack Shafer, da especializada Politico, que acredita que o esforço coordenado "com certeza terá um efeito contraproducente".

Segundo uma pesquisa recente da consultora Ipsos, 43% dos cidadãos republicanos acham que o presidente deveria ter a autoridade de fechar meios de comunicação que apresentarem uma "má conduta".

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