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Correio Braziliense

Vítimas de padres pedófilos falam ao Correio e cobram ações do Vaticano

Papa Francisco admite 'vergonha e arrependimento' por escândalo de pedofilia na Pensilvânia e qualifica crimes de "atrocidades"


postado em 21/08/2018 06:00 / atualizado em 20/08/2018 22:15

(foto: Alberto Pizzoli/AFP)
(foto: Alberto Pizzoli/AFP)
Em rara carta a 1,2 bilhão de católicos, o papa Francisco reconheceu, “com vergonha e arrependimento”, as décadas de fracasso do Vaticano em lidar com as “atrocidades” cometidas por padres pedófilos no estado americano da Pensilvânia. “Nos últimos dias, foi publicado um relatório que detalha a experiência de pelo menos mil pessoas que foram vítimas de abusos sexuais, de abusos de poder e de consciência, cometidos por padres durante quase 70 anos”, escreveu o pontífice. “Olhando para o passado, nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado. (…) A dor das vítimas e de suas famílias é também a nossa dor”, comentou. “Com vergonha e arrependimento, como comunidade eclesial, assumimos que não soubemos estar onde deveríamos estar, que não agimos a tempo para reconhecer a dimensão e a gravidade do dano que estava sendo causado em tantas vidas. Nós negligenciamos e abandonamos os pequenos.” A resposta do papa veio seis dias depois de o Grande Júri da Pensilvânia revelar abusos sexuais praticados por mais de 300 padres contra pelo menos mil crianças e jovens, e detalhar o acobertamento dos crimes pela Igreja Católica.

Hoje adultos, os pequenos de quem Francisco falava acumularam trauma, dor, depressão, tentativas de suicídio e conflitos internos ao longo de décadas. Em entrevista ao Correio, três deles cobraram uma postura decisiva do papa e acusaram o Vaticano de se restringir a palavras de condenação, sem efeito prático. Abusado pelos padres John P. Schmeer e Francis X. Trauger dos 11 aos 13 anos, na Filadélfia, Mike McDonnell, 49, considera a carta do líder católico como “um passo na direção correta”. No entanto, lamenta o fato de a mensagem não representar uma “ação concreta”. “Quantas vezes um sobrevivente pode escutar as palavras ‘Sinto muito’? Quantas vezes pode escutar um ‘Eu rezarei por você’? O pontífice tem autoridade para expulsar cardeais, arcebispos e bispos”, lembra.

Segundo McDonnell, os bispos sabiam da existência de padres predadores e, ao transferi-los entre paróquias, expuseram mais crianças ao perigo. “Os acobertamentos eram sistemáticos, como se existisse um protocolo de proteção aos religiosos. Acho que os abusos ainda ocorrem, e os clérigos tentam encontrar formas de a opinião pública não olhar para aquele elefante sentado sobre o banco da Igreja”, ironiza. “Nada muda se nada mudar. A Pensilvânia comanda uma acusação para fazer diferença na vida das vítimas. Os padres predadores precisam ser responsabilizados, assim como as instituições que os protegem.”

Missa pela assunção da Virgem Maria, na Catedral de São Paulo, em Pittsburgh, na Pensilvânia: 300 padres abusaram de mil crianças em 70 anos(foto: Jeff Swensen/Getty Images/AFP)
Missa pela assunção da Virgem Maria, na Catedral de São Paulo, em Pittsburgh, na Pensilvânia: 300 padres abusaram de mil crianças em 70 anos (foto: Jeff Swensen/Getty Images/AFP)

Basta!”
Moradora de Reading (Pensilvânia), a fisioterapeuta Mary McHale, 46, foi abusada pelo professor e padre James Gaffney durante o verão de 1989. “Eu e muitas outras vítimas e sobreviventes não ficaremos satisfeitos com a resposta do papa até vermos ação”, destacou. Ela defende que o plano de ação delineado pela Procuradoria-Geral da Pensilvânia seja posto em prática. “Em primeiro lugar, qualquer pessoa direta ou indiretamente envolvida em parte dos acobertamentos ou mentiras deve ser removida imediatamente da  Igreja, sem desculpas. Não precisamos de orações, mas de ação! Basta!”, comentou. “Minha mensagem para elas (autoridades eclesiásticas) é: ‘Façam a coisa certa, livrem-se do clero e de qualquer pessoa ligada a essa farsa’”, desabafou. Mary pretendia nunca falar sobre a violência sofrida até ler em um jornal que o abusador tinha sido denunciado por outra mulher. “Agora, vejo que preciso transformar algo que não foi bom no poder de ajudar outros. Acho que ainda acobertam os crimes e continuam a fazer o oposto do que pregam. Deveriam ter vergonha.”

Shaun Dougherty, 48, empresário em Johnstown (Pensilvânia) — onde foi abusado pelo padre George Koharchik dos 10 aos 13 anos —, disse nada ter visto de novo na carta. “Já escutamos da Igreja a promessa de tolerância zero em Boston, na Filadélfia, na Austrália e no Chile. Nós queremos ação, e a hora de agir passou há tempos.” Na mensagem, Francisco atesta que “a consciência do pecado nos ajuda a reconhecer os erros, delitos e feridas geradas no passado, e permite nos abrir e nos comprometer mais com o presidente, num caminho de conversão renovada”. 

Shaun preferia que o pontífice tivesse dito “Eu sinto muito; por causa das coisas que fizemos, estou pedindo ao Congresso da Pensilvânia que implemente as recomendações do Grande Júri”. A vítima de Koharchik relatou que o passado deixou muitas sequelas. “Não sou uma pessoa normal. Sofri depressão e ansiedade, além de vício em cocaína e álcool. Isso custou a minha fé. Não creio em esperança”, disse. Em 1994, ele tentou o suicídio ingerindo cerca de 300 pílulas.



Depoimento
(foto: Shelly Campbell/studioat220.com)
(foto: Shelly Campbell/studioat220.com)

“Tudo o que ele defende 
é penitência e jejum”


“Eu fiquei chocado, atordoado mesmo , com a carta do papa. Francisco não apela por ações concretas, não cita nem sequer uma mudança construtiva que o Vaticano esteja disposto a implementar. O que recebemos do pontífice é o chamado para que o povo de Deus se envolva em ‘um exercício penitencial de oração e jejum’. Ele dedicou quase metade de sua carta a esse conceito de penitência. A questão é uma agressão sexual contra crianças, perpetrada por muitas centenas de padres contra milhares de menores. O apelo do papa à ação é para que todo nós oremos, jejuemos e façamos penitência. É um completo fracasso de liderança do papa.

Eu fui abusado pelo padre David Holley, da diocese de Worcester (Massachusetts). Tudo ocorreu pouco antes de minha puberdade, dos 11 aos 12 anos. Além de viver no bairro da residência paroquial, eu entregava jornal no local seis dias por semana. Ele me abusou de março de 1964 a setembro de 1965; forçava os garotos a masturbá-lo e a fazer sexo oral nele. Tornei pública a violência com a ajuda do The Boston Globe, em 1992. Descobri que, em 30 anos, seis bispos de quatro estados sabiam que ele era molestador de crianças. O padre Holley acabou condenado a 275 anos de prisão por abuso sexual contra oito garotos do Novo México. Morreu na cadeia, em 2008.

Como consequência dos abusos, tive dificuldades em lidar com emoções, e experimentava grande ansiedade sobre sexo e sexualidade. Eventualmente, percebi que eu era  gay, mas fui incapaz de explorar tal possibilidade sem sentir ansiedade de que algo horrível ocorreria se eu tivesse ligação com outro homem. Tive poucos parceiros, sem conexão emocional. Infelizmente, contraí HIV. Em novembro de 1991, a Aids fez com que meu sistema imunológico entrasse em colapso. No ano seguinte, tornei público o abuso.”


Phil Saviano, 66 anos, morador de Boston. Sua história foi citada no filme Spotlight: Segredos revelados


Trechos

“Com vergonha e arrependimento, como comunidade eclesial, assumimos que não soubemos estar onde deveríamos estar, que não agimos a tempo para reconhecer a dimensão e a gravidade do dano que estava sendo causado em tantas vidas. Nós negligenciamos e abandonamos os pequenos.”

“É imperativo que nós, como Igreja, possamos reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades cometidas por pessoas consagradas, clérigos, e inclusive por todos aqueles que tinham a missão de assistir e cuidar dos mais vulneráveis. Peçamos perdão pelos pecados, nossos e dos outros.”

“Que o jejum e a oração despertem os nossos ouvidos para a dor silenciada em crianças, jovens e pessoas com necessidades especiais.”



Sobreviventes
(foto: Fotos: Arquivo pessoal)
(foto: Fotos: Arquivo pessoal)

Mary McHale, 46 anos, fisioterapeuta. Abusada aos 17 por James Gaffney, padre e professor de uma escola secundária católica em Reading (Pensilvânia)

“Os abusos que sofri me tiraram a alma e o espírito. Eu estava lutando com minha sexualidade e levei isso para o meu confessionário, o que me ensinaram a fazer. Foi lá que os abusos começaram. O padre James Gaffney pegou uma adolescente que estava se afogando na culpa da vergonha e na autoestima baixa e agravou a questão. Eu tinha um segredo, que se transformou em um segredo maior. Entrei no álcool na tentativa de me curar, mas tive ajuda em 2004.”

(foto: Fotos: Arquivo pessoal)
(foto: Fotos: Arquivo pessoal)

Shaun Dougherty, 48 anos, empresário. Abusado pelo padre George Koharchik dos 10 aos 13 anos, em Johnstown (Pensilvânia)


“Cresci em uma família de nove irmãos, devota do catolicismo. Morava a uma quadra da igreja e da escola. No primeiro grau, meu professor de ensino religioso, que era padre e técnico de raquetebol, começou a abusar de mim. Primeiro, dentro de seu carro, colocando-me para sentar em seu colo. Uma vez, depois de uma partida de raquetebol, ele usou o dedo para penetrar-me o ânus. Fui abusado por centenas de vezes no carro. Se havia um funeral no horário de aula, ao retornar do cemitério, ele me levava para lanchar e me atacava.”

(foto: Fotos: Arquivo pessoal)
(foto: Fotos: Arquivo pessoal)

Mike McDonnell, 49 anos, funcionário de centro de reabilitação de toxicômanos. Abusado pelos padres John P. Schmeer e Francis X. Trauger, dos 11 aos 13 anos, em Filadélfia (Pensilvânia)

“Eu  sofri abuso das mãos de dois padres. Eu era muito devotado à Igreja, ativo na paróquia, gostava de ir à missa e de ajudar no altar. Depois do primeiro abuso, fiquei chocado e descrente. Após a segunda vez, decidi lutar ou fugir. Escolhi a primeira opção. Eu não poderia contar a uma única alma sobre aquela noite horrível. Os padres eram representantes de Nosso Senhor na Terra. E foi o que fiz.”

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