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Correio Braziliense

Faltam enfermeiras na Suécia, país com um dos melhores sistema de saúde

Para alguns, a chegada de 400.000 solicitantes de refúgio desde 2012 agravaram os problemas dos hospitais, vinculados à escassez de enfermeiras e especialistas


postado em 07/09/2018 14:04

Placa falsa de mulher grávida para protestar contra fechamento de ala de maternidade de hospital em Solleftea, no norte da Suécia, em 2017(foto: TT News Agency/AFP / Izabelle Nodfjell)
Placa falsa de mulher grávida para protestar contra fechamento de ala de maternidade de hospital em Solleftea, no norte da Suécia, em 2017 (foto: TT News Agency/AFP / Izabelle Nodfjell)


A Suécia tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo, mas às vezes é preciso esperar meses, inclusive anos, para ter consulta com um especialista, e a rede de hospitais sofre com a falta de enfermeiras.

Os 10 milhões de suecos estão entre os mais bem cuidados do mundo, e no país escandinavo a taxa de sobrevivência dos doentes de câncer está entre as mais altas da Europa, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Mas a piora da rede de atenção primária e de hospitais incomoda a população e se converteu em sua maior preocupação, segundo pesquisas realizadas a poucos dias das legislativas de 9 de setembro.

Para os suecos, que pagam em média um imposto sobre a renda de 50%, "existe um risco real de que percam pouco a pouco a sua confiança no Estado do bem-estar social", avisa Lisa Pelling, do gabinete de estudos Arena Idé.

Algumas pesquisas situam a imigração como a maior preocupação dos habitantes, mas essas duas questões estão relacionadas.

Para alguns, a chegada de 400.000 solicitantes de refúgio desde 2012 agravaram os problemas dos hospitais, vinculados à escassez de enfermeiras e especialistas. Para outros, responde ao desafio demográfico de um país cuja população envelhece e que, portanto, necessitará de mais pessoas para se encarregarem de seus idosos.

"Em apenas cinco anos, a população com mais de 75 anos aumentará em 70.000 pessoas (...), o que também implica mais doenças", adverte o primeiro-ministro em fim de mandato, o social-democrata Stefan Löfven. Na Suécia, a lei prevê um prazo máximo de 90 dias para uma operação ou consulta com um especialista. Apesar disso, um terço dos pacientes espera mais tempo.

Dar à luz em um carro

A lei garante também que se possa consultar um médico de família em sete dias, o prazo legal mais longo da Europa depois de Portugal (15 dias), indica um relatório do gabinete de estudos Health Consumer Powerhouse. Em uma região de baixa densidade demográfica como a de Jämtland, no noroeste, mais da metade dos pacientes deve esperar mais de 90 dias para ser operada, frente os 17% em Estocolmo.

Embora o acesso a um médico de família esteja garantido quase em qualquer lugar, é complicado ver sempre o mesmo já que, para ter uma renda maior, os residentes e as enfermeiras preferem recorrer a empresas de trabalho temporário que vendem os seus serviços.

"Isso nos faz perder muito tempo em matéria de diagnóstico e acompanhamento", lamenta Heidi Stenmyren, presidente da associação de médicos suecos.

Para compensar a falta de profissionais, prosperam os serviços de consultas à distância, pela Internet. Faltam enfermeiras em cerca de 80% das estruturas de saúde na Suécia, segundo o instituto sueco de estatísticas.

Cansadas de fazer horas extras em troca de salários medíocres, milhares de enfermeiras deixaram seus postos de trabalho ao longo do ano, indica Sineva Ribeiro, chefe da associação sueca de profissionais de saúde. E, assim como em outros países da Europa, aumentou o número de regiões com escassez de equipes médicas por motivos orçamentários.

Em Solleftea, a cidade natal do primeiro-ministro, a única maternidade fechou suas portas em 2017. A maternidade mais próxima está agora a 200 quilômetros e as parteiras ensinam às futuras mães a dar à luz em um carro, o que várias delas tiveram que fazer desde então.

O debate não se centra tanto na falta de recursos financeiros como em sua má utilização. Apesar das críticas, o primeiro-ministro lembrou que a Suécia tem o "quarto melhor sistema de saúde do mundo".

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