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Correio Braziliense

Ativista desvenda adoções ilegais de crianças nascidas em abrigos católicos

Ativista relata a própria história e desvenda a trama das adoções ilegais de crianças nascidas em instituições católicas e traficadas para os Estados Unidos, um escândalo que abalou o governo e levou o líder da Igreja a pedir perdão


postado em 10/09/2018 06:00

Manifestante vestida com hábito de freira segura boneca
Manifestante vestida com hábito de freira segura boneca "Censanguentada", durante ato contra a descoberta de corpos na Casa da Mãe e do Bebê (foto: Paul Faith/AFP)
“Eu ficaria feliz em responder a suas perguntas sobre o tráfico de crianças da Irlanda para os Estados Unidos. Na verdade, eu mesma sou uma dessas crianças, nascida em Cork, em 1960, e adotada por uma família americana em 1961.” Assim, com uma espontânea e surpreendente revelação sobre a própria vida, a ativista Mari Steed, 58 anos, dirigente de duas organizações internacionais de combate a adoções ilegais, concordou em falar ao Correio a respeito de um escândalo conhecido na Irlanda como “vergonha nacional”: as descobertas de uma comissão de inquérito sobre adoções ilegais, abusos, negligência e mortes de milhares de mulheres e crianças em instituições mantidas por congregações católicas. Essas tristes revelações balançaram os alicerces do governo irlandês e levaram o papa Francisco, durante recente viagem ao país, a pedir “perdão por aqueles membros da hierarquia que não se responsabilizaram por essa dolorosa situação e permaneceram em silêncio”.

Steed é coordenadora, nos EUA, da organização não governamental (ONG) Adoption Rights Alliance (Aliança dos Direitos de Adoção) e diretora e cofundadora da Justice for Magdalenes Research (“Pesquisa pela Justiça para as Madalenas”). A primeira, segundo o site, tem o objetivo de “defender direitos humanos e civis iguais” das vítimas do “sistema secreto de adoção da Irlanda”. A outra trabalha pelo avanço das pesquisas sobre atrocidades cometidas em instituições mantidas até o fim do século passado por congregações católicas.

Mari Steed nasceu em 1960, quando sua mãe biológica, Josie, era uma das internas da Casa da Mãe e do Bebê de Bessborough, na cidade irlandesa de Cork. Para várias instituições como essa eram levadas gestantes solteiras, prostitutas e de outros perfis, rejeitadas pelas famílias e por uma sociedade altamente influenciada pelos dogmas católicos. Em troca do abrigo e da assistência durante a gravidez, as mães eram obrigadas a assinar um termo se comprometendo a entregar os filhos para adoção.

%u201CAs freiras disseram que tentariam rastrear minha mãe, mas não estavam chegando a lugar algum. Então, eu mesma assumi o rastreamento e consegui encontrá-la%u201D - Mari Steed, coordenadora de ONGs que pesquisam a adoção ilegal e apoiam as vítimas, como ela própria(foto: Arquivo pessoal)
%u201CAs freiras disseram que tentariam rastrear minha mãe, mas não estavam chegando a lugar algum. Então, eu mesma assumi o rastreamento e consegui encontrá-la%u201D - Mari Steed, coordenadora de ONGs que pesquisam a adoção ilegal e apoiam as vítimas, como ela própria (foto: Arquivo pessoal)
A ativista conta que foi adotada por um casal norte-americano, quando tinha apenas 1 ano de idade. Embora considere que não houve ilegalidade no processo, à luz da Lei de Adoção irlandesa de 1952, Steed condena o fato de sua mãe não ter tido qualquer apoio ou alternativa além de entregá-la para a família americana.

“Minha mãe natural assinou a renúncia com o pleno conhecimento de que estava entregando todos os direitos sobre mim e de que eu estava indo para os EUA”, relata Steed. “No entanto, enquanto as leis domésticas foram seguidas, houve abusos, tanto dela quanto de meus direitos humanos. Porque, toda vez que uma criança é removida do país de origem sem alternativas ou sistema de apoio dado aos pais naturais para criá-la, está caracterizado o tráfico humano. É uma violação dos direitos humanos e civis”, critica.

Certidões de óbito

A comissão de inquérito que investiga os registros de adoção foi criada pelo governo em 2014, depois que a historiadora irlandesa Catherine Corless anunciou ter descoberto as certidões de óbito de 800 crianças abrigadas pela Casa da Mãe e do Bebê, na cidade de Tuam. As mortes ocorreram entre 1925 e 1961. Durante as investigações, foram encontrados, em um tanque de esgoto desativado, os restos mortais de 796 crianças com idades entre 35 semanas fetais e 3 anos. Ficou comprovado que eram as crianças de Tuam. Steed pode se considerar uma sobrevivente: na casa de Bessborough, onde nasceu, os registros detalham 470 mortes infantis. A maioria dos casos tem como causa a negligência nos cuidados. Todos os bebês foram sepultados como indigentes.

Segundo Steed, por trás dessa tragédia, havia um lucrativo negócio. “Não tenho dúvidas de que o dinheiro mudou de mãos em troca de silêncio ou omissão, mas os maiores beneficiários teriam sido as ordens religiosas que permitiram e facilitaram essas adoções ilegais, ao lado de outros corretores privados e igualmente inescrupulosos, com padres e outros muitos atores envolvidos no histórico de adoção da Irlanda”, afirma.

A ativista conta que foi em 1996, aos 36 anos de idade, que passou a aprender a extensão de como milhares de adoções de crianças irlandesas por famílias americanas ocorreram. “Eu pesquisei e li o máximo possível. Solicitei registros da ordem religiosa que, à época, guardava nossos arquivos. Inicialmente, as freiras disseram que tentariam rastrear minha mãe, mas elas não estavam chegando a lugar algum. Então, eu mesma assumi o rastreamento, com a ajuda de um amigo no Reino Unido, e consegui localizar minha mãe”, lembra Steed, sobre um dos momentos mais felizes de sua vida.

“Encontrei minha mãe natural em 2001, vivendo no Reino Unido. Tivemos um relacionamento próximo e caloroso até que ela faleceu, em 2013”, lembra. “Depois que ela confirmou quem era meu pai, eu consegui identificar o endereço, mas ele havia falecido em 2001”, acrescenta Steed, que agora busca encontrar cinco meios-irmãos.

Entrevista Paul Redmond


“O papa ficou em choque” 

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

O ativista Paul Redmond é um dos responsáveis pela ONG Coalition of Mother And Baby Home Survivors (Coalizão dos sobreviventes das Casas de Mãe e Bebê). O irlandês foi o articulador do encontro entre o papa Francisco e vítimas de abusos sexuais e de adoções ilegais, durante a recente viagem do pontífice ao país. Ao falar sobre o encontro (foto), ele revelou que o líder religioso “tinha uma compreensão muito limitada” sobre o envolvimento de ordens católicas nas atrocidades na Irlanda.

No encontro com o papa Francisco, o que o senhor revelou a ele?
Relatei que o sistema de adoção na Irlanda, no passado, era dominado pela Igreja Católica, e os religiosos não tinham respeito pela lei, a menos que isso lhes conviesse. Milhares de bebês inocentes foram registrados e adotados ilegalmente e nunca conheceram a verdadeira herança. O sistema era criminoso e imoral.

O que mais o senhor contou ao papa?
Que mais de 6 mil bebês morreram. Três mil foram traficados para a América, vendidos para famílias ricas. Quase 500 corpos foram “doados” para a ciência médica, para poupar o custo com as sepulturas. Milhares de bebês foram utilizados para testes de vacinas. Eu escrevi um livro com detalhes completos, intitulado The adoption machine.

O esquema de adoções ilegais ainda está em operação?
Não há provas de adoção ilegal na Irlanda hoje. Há alguma evidência de que a prática começou a desaparecer na década de 1970, e houve algumas adoções suspeitas na década de 1990, mas não houve casos conhecidos publicamente desde então.

Como foi o encontro com o papa Francisco?
Quando nos encontramos, o papa tinha uma compreensão muito limitada do tamanho e da escala das instituições irlandesas. Passei alguns minutos explicando. Pedimos que ele esclarecesse publicamente aos sobreviventes idosos que aquela reunião não era um pecado ou um crime. O papa fez isso por nós na missa dominical na Irlanda. Foi um momento brilhante para a nossa comunidade.

Qual foi a reação  do papa ao ouvir o seu relato e o das vítimas?
Foi um choque genuíno. Ele ergueu as mãos para a cabeça algumas vezes. Ele não tinha conhecimento do pior das instituições católicas, as adoções ilegais e o abuso sexual clerical. Mais de 150 mil mulheres e crianças passa ram pela rede de instituições desde a independência da Irlanda, em 1922. (JV)

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