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Correio Braziliense

Moradores de Idlib temem que regime de Bashar Al-Assad lance ataque químico

Em meio à ameaça de massacre, Damasco planeja nova Constituição para refundar o país


postado em 16/09/2018 08:00

Em Maar Shurin, na província de Idlib, criança testa máscara antigás improvisada pelo pai: medo constante(foto: Omar Haj Kadour/AFP)
Em Maar Shurin, na província de Idlib, criança testa máscara antigás improvisada pelo pai: medo constante (foto: Omar Haj Kadour/AFP)
Fayyad Zakaria Akoush, 27 anos, vive à espera da morte, em Al-Atareeb, cidade de 50 mil habitantes situada na província de Idlib, a 25km da capital de mesmo nome. Ele admitiu ao Correio que sente pavor ante a possibilidade de um ataque químico perpetrado pelo regime do presidente sírio, Bashar Al-Assad, com o apoio das forças da Rússia. Já se passaram 2.742 dias desde que a guerra civil eclodiu na Síria. Mais de 600 mil pessoas morreram — cerca de 218 a cada 24 horas. “Eu me importo com a minha esposa e com a minha filha, mas não comigo mesmo. As pessoas daqui somente se importam com elas mesmas. Nós lutaremos e não nos preocupamos se morreremos”, comentou. Com 3 milhões de habitantes, a cidade de Idlib é o último grande bastião dos rebeldes que se opõem a Damasco. Os moradores esperam a ofensiva final contra focos da resistência na província, controlada em 60% pelo Hayat Tahrir Al-Sham (HTS), um grupo extremista formado por ex-jihadistas da rede Al-Qaeda na Síria. Moscou apoia uma “ofensiva total”, sob o argumento de que Idlib se tornou um “abscesso infeccionado” repleto de militantes, que deve ser “liquidado”.

No início do mês, o presidente norte-americano, Donald Trump, advertiu Al-Assad sobre as consequências de um bombardeio químico. “O mundo está observando, e os Estados Unidos estão observando. Estou acompanhando de muito perto”, assegurou. A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou para o risco de Idlib “se tornar a pior catástrofe humanitária, com a maior perda de vidas humanas no século 21”. Em meio às ameaças da batalha final, a própria ONU, a Turquia, o Irã e a Rússia negociam com a Síria a formação de um comitê para redigir uma nova Constituição do país, manobra vista com desconfiança pela população de Idlib. Divergências entre os turcos, que apoiam os rebeldes sírios, e os russos atrasam o início da campanha militar considerada decisiva para as pretensões do regime de Damasco.

Sem a insurgência pela frente e com uma Carta Magna reformulada, Al-Assad espera refundar a Síria e se perpetuar no poder. “As mudanças na Constituição não são uma forma de reconciliação com os sírios. Al-Assad deve partir, em primeiro lugar, ou as sanções de segurança têm de ser dissolvidas. Depois disso, poderemos falar sobre uma nova Síria. Mais de 10 milhões de pessoas ficarão em perigo, caso a Síria prossiga nas mãos de Al-Assad. Elas perderão todos os seus direitos”, disse à reportagem Abdulkafi Alhamdo, um professor de 31 anos que vivia em Aleppo e buscou refúgio em Idlib, depois que os confrontos em sua terra natal recrudesceram. “A nossa escolha é desafiar a morte ou morrer sem lutar. Estamos com medo de nossas crianças morrerem em bombardeios, sob os escombros ou sufocadas por gases. Temos certeza de que o regime usará essas armas, pois ele pretende destruir nossa  mentalidade, nossa disposição em lutar e em resistir. Matar nossas crianças faz com que nossa alma morra antes do corpo”, acrescentou.

Poderes

O estudante Ali Fateh, 23 anos, morador de Marret Al Noman, a 33km de Idlib, crê que a refundação da Síria somente será pacífica se atender a algumas premissas. “Será preciso formar uma nova Constituição que dê poderes ao primeiro-ministro e ao Parlamento e que reduza a autoridade presidencial. A Carta Magna deve contemplar anistia aos prisioneiros e convocar eleições para a escola do sucessor de Al-Assad”, declarou. Ele teme que, quando a ofensiva final ocorrer, as forças pró-regime utilizem todas as armas possíveis para aniquilar a resistência. “Os soldados prenderão todos os homens. Estamos esperando as decisões das potências para impedir o ataque. Muitos de nós morreremos ou migraremos para a Turquia ou a Europa. Não sabemos o que fazer.” Na sexta-feira passada, o chanceler russo, Serguei Lavrov, negou os preparativos de uma incursão militar decisiva em Idlib. “O que se nos apresenta atualmente como o início de uma ofensiva das forças sírias com o apoio russo é uma representação dos fatos de má-fé. As forças sírias e nós apenas reagimos aos ataques da zona de Idlib”, disse.

No entanto, a norte-americana Shanna Kirschner, especialista em Síria pela Allegheny College (na Pensilvânia), classificou de “medida sensata” a justaposição do início de uma ofensiva contra Idlib, enquanto se abre oportunidade de negociações políticas. “Al-Assad é muito forte agora, se comparado com a oposição, e entrará nas negociações com a capacidade de definir os termos para quem participa das conversas e quais provisões estarão sobre a mesa”, analisa. Para ela, uma vitória em Idlib dará ao presidente sírio o poder de estabelecer sua própria agenda — a capacidade de controlar o que está sendo discutido e por quem. “Acordos negociados em guerras civis são mais comuns quando os rebeldes ainda detêm algum poder. Isso não ocorrerá quando o regime retormar Idlib”, previu. Kirschner explicou que um triunfo retumbante em Idlib marcará o fim de uma resistência significativa. “Há todas as razões para esperar que o regime de Al-Assad fará o que for preciso para derrotar os rebeldes. Como Damasco quebrou o tabu do uso de armas químicas em outras ocasiões, é muito mais provável que o faça novamente.”

"O que se nos apresenta atualmente como o início de uma ofensiva das forças sírias com o apoio russo é uma representação dos fatos de má-fé. As forças sírias e nós apenas reagimos aos ataques da zona de Idlib”
Serguei Lavrov, chanceler da Rússia

Eu acho

Shanna Kirschner(foto: Divulgação)
Shanna Kirschner (foto: Divulgação)

“Há muito poucos precedentes de líderes autoritários esmagando brutalmente uma insurreição dessa escala e, depois, promovendo um futuro estável e pacífico. A Síria tem uma história muito longa de instabilidade política e de repressão brutal e, infelizmente, as estruturas e instituições que impulsionaram esses padrões não serão facilmente substituídas.”

Shanna Kirschner, especialista em Síria pela Allegheny College, na Pensilvânia

Vozes sírias

Abdulkafi Alhamdo, 
31 anos, professor, morador de Aleppo refugiado em Idlib

“O pior de nossos sonhos se tornou verdade, depois de eu e minha família sermos expulsos de Aleppo. Não posso esconder que espero a chegada do dia da última batalha e que o medo se torna real. Muitas pessoas estão apavoradas. O regime sírio usará todos os tipos de armas contra nós. Somos mais de 1 milhão de pessoas que não escolheram vir para Idlib.

Sari Haj Jneid, (foto: Divulgação)
Sari Haj Jneid, (foto: Divulgação)

Sari Haj Jneid, 
30 anos, professor, morador de Armanaz, a 30km de Idlib

“Desde o início deste mês, temos visto muitos ataques aéreos russos e sírios, ofensivas com barris-bomba e disparos de morteiros contra o sul de Idlib e o norte de Hama. No último dia 8, o Centro de Defesa Civil de Kahn Sheikhoun foi danificado em bombardeios, e um hospital sofreu avarias no vilarjeo de Haas. Dois dias depois, foguetes impactaram uma escola na cidade de Jarjanaz.”

Fayyad Zakaria Akoush, 
27 anos, ativista político, morador de Al-Atareeb, a 25km de Idlib

“O regime de Al-Assad e a Rússia farão com que nos movamos para campos de refugiados ou nos matarão. Esta é nossa Pátria e nós a amamos. Não nos mudaremos daqui. Se o regime de Al-Assad usar armas químicas, morreremos. Isso não significa nada. Eu sei que algumas pessoas estão fabricando armas artesanais. Eu espero que esta guerra pare. Só desejo isso.”

Ali Fateh, 
23 anos, estudante, morador de Marret Al Noman, a 33km de Idlib

“Várias pessoas foram expulsas do norte da província de Hama e do sul e do oeste de Idlib. A Força Aérea russa e as tropas de Bashar Al-Assad usam todas as armas para assassinar as pessoas. Nós precisamos de liberdade, e temos expressado nossa opinião ao mundo, por meio de manifestações. Nós precisamos de paz, não necessitamos de uma guerra.”

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