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Correio Braziliense

Denis Mukwege ficou sabendo durante cirurgia que venceu Nobel da Paz

Em um vídeo publicado na página do Facebook do hospital que ele criou em 1999 na região leste da República Democrática do Congo, várias pessoas cumprimentam Mukwege quando ele sai do local


postado em 05/10/2018 10:29 / atualizado em 05/10/2018 10:35

(foto: Marc Jourdier/AFP)
(foto: Marc Jourdier/AFP)

 
Bukavu, RD Congo - O congolês Denis Mukwege, premiado nesta sexta-feira (5/10) com o Nobel da Paz por seus esforços na luta contra a violência sexual como arma de guerra, recebeu a notícia de sua vitória quando estava na sala de operações de seu hospital, durante uma cirurgia.

Em um vídeo publicado na página do Facebook do hospital que ele criou em 1999 na região leste da República Democrática do Congo, várias pessoas cumprimentam Mukwege quando ele sai do local.

"Estava na sala de operações (...) de repente entraram algumas pessoas e me deram a notícia", disse Mukwege ao jornal norueguês VG.

"O doutor Mukwege estava no meio de uma operação quando ficou sabendo. Mas já saiu e está muito feliz. As pessoas comemoram e expressam sua alegria", afirmou a pneumologista sueca Ellinor Ädelroth, que estava no hospital de Panzi, à agência sueca TT.

Denis Mukwege, ginecologista de 63 anos, e Nadia Murad, de 25, ex-escrava sexual do grupo Estado Islâmico (EI), venceram o Nobel da Paz "por seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra".

"Denis Mukwege dedicou toda sua vida à defensa das vítimas de violência sexual cometida em tempos de guerra", anunciou o Comitê Nobel.

Em 1999 o doutor Mukwege criou o hospital de Panzi. Ele o concebeu para permitir o parto das mulheres em excelentes condições. Em pouco tempo, o local se tornou uma clínica de tratamento dos estupros sofridos durante a segunda guerra do Congo (1998-2003), quando foram registrados muitos casos de violência contra as mulheres. Denis Mukwege já tratou 50 mil vítimas de estupros.
 

Ginecologista congolês estimula yazidis a vencerem estigma do estupro


Em um templo sagrado da minoria yazidi do Iraque, o conhecido ginecologista congolês Denis Mukwege elogia o chefe religioso desta comunidade, perseguido pelos extremistas por ter proibido estigmatizar as mulheres usadas como escravas sexuais pelo grupo Estado Islâmico (EI).

Os yazidis, uma minoria de fala curda adepta de uma religião esotérica monoteísta, foram alvo no Iraque do ódio dos jihadistas que travaram contra eles uma campanha classificada de "genocídio" pela ONU.

Em 2014, o Estado Islâmico matou milhares de yazidis em seu bastião do monte Sinjar e sequestrou milhares de mulheres e adolescentes para convertê-las em escravas sexuais.

O doutor Mukwege viajou ao Iraque convidado pela Yazda, uma ONG criada em 2014 para ajudar as yazidis traumatizadas.

No pátio do templo de Lalish, cerca de 60 quilômetros ao norte da cidade de Mossul (norte), Denis Mukwege aperta a mão do xeque Baba.

"Vim aqui para conhecê-lo, porque, em muitas comunidades, as mulheres são excluídas, estigmatizadas após terem sido violentadas", explica à AFP este ginecologista conhecido "o homem que 'conserta' as mulheres".

Denis Mukwege luta para devolver a dignidade às mulheres vítimas de estupro nas guerras, sobretudo, na República Democrática do Congo (RDC). Denuncia o estupro como "arma barata e eficaz" que destrói as mulheres e mergulha a sociedade na indiferença.

"O xeque Baba disse que (...) as mulheres não deveriam ser estigmatizadas depois do que aconteceu com elas" e, graças à sua tomada de posição, "as yazidis podem testemunhar (...) e, como mulheres, romper o silêncio".

Unir forças

Segundo o Ministério de Assuntos Religiosos da região autônoma do Curdistão iraquiano, mais de 6.400 yazidis foram sequestradas em 2014 pelo EI. Cerca de 3.200 foram resgatadas, ou conseguiram fugir.

Ainda que o EI tenha perdido quase todo o território conquistado no país, é desconhecido o paradeiro das demais yazidis, muitas delas reduzidas a escravas sexuais.

"Venho compartilhar nossas experiências. Há muitas coisas que podemos aprender, e o mundo deve conhecer os estupros que sofreram, porque o que aconteceu é um genocídio", explica o doutor Mukwege.

Na RDC, o ginecologista congolês fundou um hospital e uma fundação para atender às vítimas do estupro como arma de guerra.

"Somos uma pequena organização, mas, na minha clínica, tratamos 50.000 mulheres, e também vim somar forças para lutar contra o estupro como arma de guerra. Quando acontece algo assim não há outra coisa a dizer - seja Iraque, Congo, Colômbia, ou Coreia -, a não ser que a Humanidade foi maltratada", insiste o médico.

Na última segunda-feira, o ginecologista participou de uma workshop em Dohuk, no Curdistão, para transmitir seu saber àqueles que trabalham na reabilitação das yazidis violentadas. 

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