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Correio Braziliense

Eleições da Flórida são a síntese da polarização política atual nos EUA

Um democrata negro, afinado com a ala esquerda do partido, luta pelo governo do estado contra um republicano que se espelha em Donald Trump


postado em 03/11/2018 08:00

"Temos a oportunidade de enviar uma mensagem a todo o país, e penso que ela vai reverberar nos 50 estados, em toda a nação, em todo o mundo", Andrew Gillum, candidato do Partido Democrata ao governo estadual (foto: Joe Raedle/Getty Images/AFP)

Os dois são da mesma geração e compartilham a capacidade de eletrizar os próprios eleitores, justamente por estarem cada qual no extremo do respectivo campo político. Nas eleições desta terça-feira, marco da metade do mandato de Donald Trump, a disputa pelo governo da Flórida parece resumir a polarização que se aprofunda nos Estados Unidos ano após ano, em especial desde a eleição do novo presidente. Andrew Gillum, 39 anos, do Partido Democrata, é prefeito da capital, Tallahassee, e quer fazer história como o primeiro governador negro do estado. Ron DeSantis, 40, é ex-deputado pelo Partido Republicano e encarna o estilo populista de direita que levou o bilionário à Casa Branca, em 2016.

Quem segue a campanha na Flórida, desde as primárias dos partidos, está convencido de que assiste à disputa que não houve, há dois anos, entre Trump e o senador Bernie Sanders, autoproclamado socialista, que perdeu para Hillary Clinton a corrida pela candidatura presidencial democrata. Outros veem em Gillum uma reedição de Barack Obama, o primeiro afroamericano a se eleger presidente. Seu programa prevê aumento dos impostos sobre as grandes empresas, restrições ao comércio de armas e investimentos em educação e saúde públicas. DeSantis inspira o eleitorado republicano com a promessa de tolerância zero para a imigração ilegal e de limites mais rígidos para o aborto, além da defesa incondicional do direito à posse de armas de fogo.

O empate captado nas pesquisas de intenção de voto, às vésperas da eleição, mobiliza as atenções pelo país afora, também pelas implicações para 2020, quando Trump tentará emplacar o segundo mandato. Com 21 milhões de habitantes e 13 milhões de eleitores, a Flórida é um dos estados com maior peso no Colégio Eleitoral que define a sucessão presidencial — foi decisiva para a vitória dos republicanos George W. Bush, em 2000, e Trump. O sucesso de Gillum, além do precedente histórico no campo racial, pode alimentar, entre os democratas, a inclinação por indicar um nome da ala esquerda para disputar a Casa Branca dentro de dois anos.

 

"Nenhuma das ideias socialistas de Gillum funcionou nos países que conhecemos. A agenda dele traria o mesmo resultado: miséria", Ron DeSantis, candidato do Partido Republicano ao governo estadual (foto: Jeff J Mitchell/Getty Images/AFP)
 


“Temos a oportunidade de enviar uma mensagem a todo o país, e penso que ela vai reverberar nos 50 estados, em toda a nação, em todo o mundo”, discursou Gillum durante evento recente em Miami. “Nem tudo está perdido e ainda há esperança”, proclamou. “É incrivelmente inspirador”, reagiu Donald Shockey, planejador urbano de 60 anos, emocionado depois de ouvir o democrata. “Ele é um ser humano maravilhoso.” O prefeito de Tallahassee, porém, enfrenta na campanha o obstáculo de uma investigação do FBI (polícia federal dos EUA) sobre irregularidadaes na sua administração.

De Santis, que se beneficiou nas primárias republicanas da identificação com Trump, ensaia com acenos ao eleitorado de centro, cuja dimensão faz com que a Flórida seja classificada como um swing state: a cada eleição, pende para um ou outro dos grandes partidos, dependendo da capacidade que tenham de ir além das próprias fileiras. Nos últimos comícios, passou a falar em educação e meio ambiente. “O fator de atração de Trump não vai muito além da base republicana”, observa Michael McDonald, especialista em eleições da Universidade da Flórida.

O candidato, porém, não subestima o papel do eleitorado de origem cubana, cujo peso foi vital para que o atual presidente conquistasse os delegados do estado ao Colégio Eleitoral, em 2016. Em seus últimos anúncios pela tevê, DeSantis aparece dublado em espanhol fazendo um ataque diretamente ideológico ao adversário. “Nenhuma das ideias socialistas de Gillum funcionou nos países que conhecemos”, diz a voz ao fundo de imagens que mostram uma área de Havana. “A agenda de Gillum traria o mesmo resultado: miséria.”

DeSantis tem como contrapeso aos cubano-americanos a disposição de 50 mil porto-riquenhos, recém-instalados na Flórida depois da passagem do furacão Maria, para punir Trump pela demora em responder à calamidade, que deixou 3 mil mortos em Porto Rico, no ano passado. Como a ilha é estado-livre associado, os cidadãos têm direito de voto nos EUA. Somados, cubanos (28%) e porto-riquenhos (22%) representam metade do eleitorado do estado. “Ambos os partidos estão buscando agressivamente esses votos”, analisa Susan McManus, professora da Universidade do Sul da Flórida (USF). “Mas penso que eles terão maior impacto na disputa presidencial de 2020.”

13 milhões
Total aproximado de eleitores registrados na Flórida

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