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Correio Braziliense

Há 100 anos, 1ª Guerra chegava ao fim e redesenhava o mapa da Europa

O confronto levou impérios ao colapso


postado em 11/11/2018 08:00

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Um "boche" (prisioneiro alemão) escoltado por britânico, em 1916 (foto: National Library of Scotland/Colorida por Tom Marshall)
Depois de 1.567 dias de bombardeios, milhares de clarins ecoaram pela Europa, exatamente às 11h de 11 de novembro de 1918. Era o fim de um conflito que matou 17 milhões de pessoas, entre civis e militares, e transformou para sempre a geopolítica do Velho Mundo e do Oriente Médio. Há 100 anos, dentro de um vagão de trem no bosque de Compiègne, 60km ao norte de Paris, a Alemanha e os  representantes dos Aliados (Impérios Britânico e Russo, França e Itália) assinaram o armistício de 34 pontos às 5h20. Às margens do Rio Meuse, o francês Augustin Trébuchon, do 415º Regimento de Infantaria, tornou-se o último soldado a tombar morto, às 10h55. Cinco minutos depois, o cessar-fogo entrou em vigor. No começo daquele mês, as tropas alemãs, do imperador Guilherme II, tinham recuado em todos os fronts ocidentais, e o Império Austro-Húngaro acabou por se desintegrar.

“A Primeira Guerra Mundial mudou tudo. Ela redesenhou o mapa da Europa e provocou o colapso de quatro grandes impérios: Alemão, Austro-Húngaro, Russo e Otomano. Também deixou um continente em ruínas e destruiu, para sempre, a autoconfiança e o poder europeu no cenário internacional. Nunca mais a Europa seria o centro dos assuntos mundiais”, admitiu ao Correio Nick Lloyd, especialista em história militar e imperial do Departamento de Estudos de Defesa do King’s College London, uma das  25 mais conceituadas universidades do mundo. “O conflito permanece como o maior cataclismo da história moderna e o momento que definiu o século 20 em todo o seu horror.”

Professor de história das guerras pela mesma instituição, William Philpott lembrou que a Primeira Guerra Mundial criou vários estados na Europa (Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Áustria, Iugoslávia, Letônia, Lituânia, Estônia, Finlândia e Estado Livre Irlandês) e proto-estados no Oriente Médio (Síria, Iraque, Jordânia, Palestina/Israel e Líbano), com fronteiras artificiais que não se conformavam com as populações étnicas. “Por esse motivo, esses países se tornaram focos de futuras batalhas, como a Tchecoslováquia e Palestina/Israel. Os Estados Unidos ingressaram na política mundial depois de 1917, e a Rússia se tornou comunista”, explicou.

Responsabilidade


Apesar da assinatura do armistício em 11 de novembro, a guerra somente foi encerrada oficialmente em 28 de junho de 1919, com o Tratado de Versalhes. O documento responsabilizou completamente a Alemanha pelo conflito, determinou a perda de 13% do território alemão e ordenou a Berlim o pagamento do equivalente a US$ 33 bilhões em indenização por danos civis. “A culpa pela guerra teria de ser compartilhada — a Europa mergulhou nas hostilidades. Mais recentemente, a política de poder do Leste Europeu e o expansionismo sérvio foram acusados de deflagrar  a guerra”, sublinhou Philpott. No entanto, ele crê que jamais haverá consenso sobre responsabilidades em um tema tão complexo e disputado. O assassinato do arquiduque Ferdinando, da Áustria, em  28 de junho de 1914, levou o Império Austro-Húngaro a declarar guerra à Sérvia,  iniciando o conflito.

Para Lloyd, a Primeira Guerra Mundial foi causada por uma complexa mistura de fatores: o expansionismo sérvio; o medo do Império Austro-Húngaro; o desenho russo sobre Constantinopla; os temores da Alemanha de um possível cerco; e o desejo da França de confrontar a supremacia alemã e recuperar as ‘províncias perdidas’ de Alsácia-Lorena. “A culpa recaiu sobre os Poderes Centrais da Alemanha e do Império Austro-Húngaro por pressionarem um conflito com a Sérvia, em 1914, e por buscarem transformar uma briga nos Bálcãs em oportunidade para acertar contas antigas”, comentou.

Hoje, o presidente francês, Emmanuel Macron, receberá, em Paris, 70 chefes de Estado e de governo para marcar o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial e participar de um fórum internacional concebido como uma demonstração de força do multilateralismo ante o avanço nacionalista. O auge da cerimônia será no emblemático Arco do Triunfo, na Avenida Champs Elysées, em ato que contará com os presidentes Donald Trump (EUA) e Vladimir Putin (Rússia) e da chanceler alemã, Angela Merkel.

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