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Correio Braziliense

Em divergência com Trump, secretário da Defesa deixa o cargo

A renúncia de Mattis, homem respeitado na cena internacional e que encarnava, de certa forma, a estabilidade em um governo bastante turbulento, é um golpe para o presidente Trump, que parece cada vez mais isolado


postado em 21/12/2018 12:45

(foto: Saul Loeb / AFP)
(foto: Saul Loeb / AFP)
 
Washington, Estados Unidos - O secretário americano da Defesa, Jim Mattis, anunciou, na quinta-feira (21/12), sua saída do governo dos Estados Unidos, em meio ao coro de protestos contra a decisão do presidente Donald Trump de retirar as tropas da Síria e reduzir o contingente estacionado no Afeganistão.

A renúncia de Mattis, homem respeitado na cena internacional e que encarnava, de certa forma, a estabilidade em um governo bastante turbulento, é um golpe para o presidente Trump, que parece cada vez mais isolado.

Em uma carta a Trump, o ex-general de 68 anos, que tinha uma relação complicada com o presidente há vários meses, insistiu na necessidade de os Estados Unidos "tratarem os aliados com respeito". "Você tem o direito de ter um secretário da Defesa, cujos pontos de vista estejam mais bem alinhados com os seus... Acho que o correto, para mim, é renunciar ao meu cargo", afirmou Mattis, marcando sua divergência com um Trump que, nos últimos meses, enfrentou as lideranças das principais potências ocidentais.

Retirada 'importante' do Afeganistão

Em sua carta, o secretário fala do tema sírio apenas para citar a coalizão internacional contra o grupo Estado Islâmico (EI) como exemplo de utilidade das alianças - sem se referir ao assunto como estopim para sua decisão.

Sua saída é claramente interpretada, porém, como uma marcada divergência com Trump. Na quarta-feira, o presidente anunciou a retirada, no menor tempo possível, de cerca de 2.000 soldados americanos estacionados na Síria.

Segundo o jornal turco "Hürriyet", Trump tomou essa decisão após uma conversa por telefone com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Nela, este último se comprometeu a lutar contra os extremistas.

O governo Trump também prepara uma retirada "importante" de tropas do Afeganistão, disse à AFP na quinta à noite uma autoridade americana, que pediu para não ser identificada.

Mattis teria pedido - e obtido - um aumento das unidades estacionadas neste país no ano passado.

O "Wall Street Journal" e o "New York Times" falam da retirada da metade dos 14.000 militares americanos em solo afegão, no âmbito de um conflito de 17 anos de duração, iniciado após os atentados do 11 de setembro de 2001.

A retirada de "milhares de militares estrangeiros" do Afeganistão "não impactará a segurança nacional", garantiu a presidência desse país nesta sexta, buscando minimizar o impacto do anúncio de Washington.

Em coro, legisladores democratas e republicanos manifestaram sua decepção e preocupação com a saída de Mattis.

"É um dia triste para o nosso país", disse a líder democrata na Câmara de Representantes, Nancy Pelosi.

O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, lamentou a saída de um dos "incomuns símbolos de força e estabilidade" na atual equipe presidencial.

Líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell repetiu, de certo modo, as palavras de Mattis: os Estados Unidos devem "compreender claramente quem são nossos amigos e nossos inimigos e reconhecer que nações como a Rússia estão entre os últimos".

No Twitter, Trump não falou de renúncia e disse apenas que Mattis deixará o cargo no final de fevereiro e que nomeará um sucessor em breve.
 
Para Putin, uma decisão correta
 
Destacando que os Estados Unidos não querem ser a "polícia do Oriente Médio", ontem Trump defendeu a retirada das forças da Síria, uma decisão tomada apesar das advertências de vários integrantes de seu gabinete.

Embora falte definir o futuro dos ataques aéreos americanos contra o EI, a política de Washington na região - seja em relação ao Irã, seja sobre a decisão de deixar o caminho livre para a Rússia -, o presidente republicano pode se orgulhar de ter cumprido uma velha promessa. "É hora de outros enfim lutarem" contra o EI, disse ele no Twitter, convidando Rússia, Irã, Síria e outros, a liderar essa ofensiva.

O presidente russo, Vladimir Putin, que apoia o governo sírio de Bashar al-Assad, considerou "correta" a decisão de Trump. "Donald tem razão", afirmou, acrescentando que "nós demos golpes importantes no EI na Síria".

Aliados dos Estados Unidos na luta contra o EI e alvos regulares desses ataques, França, Reino Unido e Alemanha manifestaram sua preocupação, após o anúncio de Trump.

A coalizão antijihadista "tem um trabalho para concluir", apesar da "grave decisão" do presidente Trump de retirar seus soldados da Síria, considerou a ministra francesa da Defesa, Florence Parly, nesta sexta-feira.

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