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Correio Braziliense

Autoridades indonésias admitem falhas no sistema de alerta de tsunamis

Tsunami vulcânico que causou a morte de ao menos 373 pessoas não é detectado pelo sistema de alerta e autoridades não descartam a ocorrência de novas ondas gigantes


postado em 24/12/2018 15:00 / atualizado em 24/12/2018 14:47

Presidente da Indonésia, Joko Widodo, em Carita, na província de Banten, uma das regiões devastadas pelo tsunami (foto: Handout/AFP)
Presidente da Indonésia, Joko Widodo, em Carita, na província de Banten, uma das regiões devastadas pelo tsunami (foto: Handout/AFP)

Desde o catastrófico terremoto de dezembro de 2004, responsável pela morte de mais de 220 mil pessoas, a Indonésia tem um sistema de boias marinhas que avisa sobre a chegada de ondas gigantes provocadas por fortes abalos sísmicos. Praticamente 14 anos depois, moradores e turistas de uma região turística do país foram surpreendidos por um tsunami não detectado pelo mecanismo de alerta. Tratava-se de um tsunami vulcânico. No último sábado, um mar de destruição chegou às ilhas de Java e Sumatra, causando ao menos 373 óbitos e, segundo especialistas, revelando a necessidade de repensar o monitoramento em uma região tão vulnerável a esse tipo de fenômeno.

Às 21h30 de sábado (14h30, em Brasília), um flanco de 0,64 quilômetro quadrado do vulcão Anak Krakatoa, que expele cinzas e lava há meses, entrou em colapso e caiu no oceano. “Isso causou um deslizamento submarino e acabou gerando o tsunami”, explicou Dwikorita Karnawati, chefe da agência de meteorologia. Ondas com até três metros de altura chegaram à costa 24 minutos depois.  Moradores da costa dizem não ter visto ou sentido qualquer sinal de alerta, como um terremoto ou a diminuição da água ao longo da orla.

“A falta de um sistema de alerta prévio foi a causa de o tsunami não ser detectado (…) As pessoas não tiveram tempo de evacuar (as casas)”, reconheceu o porta-voz da agência de desastres, Sutopo Purwo Nugroho. Enquanto as ondas irrompiam as partes do sul de Sumara e a extremidade ocidental de Java, tuítes da agência nacional de desastres — que depois foram apagados e trocados por um pedido de desculpas — afirmavam que não havia “ameaça de tsunami”.

Imagens captadas pelo satélite Sentinel-1, da Agência Espacial Europeia, confirmam que uma grande porção do flanco do vulcão deslizou para o oceano. O presidente Joko Widodo visitou zonas devastadas e foi mais cauteloso quanto às razões do tsunami. “Sabemos que não foi de um terremoto, mas a fonte exata não foi confirmada. Portanto, não vamos tirar conclusões precipitadas”, disse. Widodo também elogiou os militares e a polícia pela resposta rápida.

 

Foto aérea registra a erupção do vulcão Anak Krakatoa: atividade ameaçadora(foto: Nurul Hidayat/AFP)
Foto aérea registra a erupção do vulcão Anak Krakatoa: atividade ameaçadora (foto: Nurul Hidayat/AFP)

 

Escombros

Na busca por sobreviventes, brigadas de socorristas recorriam a equipamentos pesados e as mãos para levantar destroços de prédios e casas. A onda deixou um acúmulo gigantesco de escombros, com fragmentos de telhados, pedaços de madeira e árvores arrastadas. “O número de vítimas e de danos continuará aumentando”, afirmou Sutopo Purwo Nugroho. 

Moradores e turistas, levados para partes mais altas das ilhas, passaram o sábado lembrando dos momentos de pânico com a chegada repentina de ondas gigantes e revivendo as memórias de estragos causados por fenômenos anteriores, principalmente o megaterremoto de 2004.  (Leia quadro).

“Não consegui ligar a moto. Então, saí correndo. Rezei e corri o mais rápido que consegui”, contou Lutfi al Rasyid, 23 anos, que estava na praia de Kalianda, na província de Lampung. Em Carita, Muhammad Bintang, 15 anos, viu a aproximação da onda, pouco tempo depois de ter feito o check in em um hotel. “Chegamos às 21h para as férias e logo a água chegou. Tudo ficou escuro. Não havia energia elétrica”, disse.

Segundo Richard Teeuw, especialista da Universidade de Portsmouth, o risco de tsunami no estreito de Sunda prosseguirá alto enquanto o vulcão continuar em sua fase de atividade. “Isso pode provocar novos deslizamentos de terra submarinos”, explicou. Como há a possibilidade de novas ondas gigantes, regiões costeiras ao longo do estreito seguem evacuadas pelo menos até o fim do dia de hoje. A Organização das Nações Unidas (ONU) se mostrou disposta a apoiar os esforços do governo, indicou o porta-voz de Antonio Guterres, secretário-geral da entidade.

 

 

“Sabemos que não foi de um terremoto, mas a fonte exata não foi confirmada. Portanto, não vamos tirar conclusões precipitadas” 
Joko Widodo, presidente da Indonésia

 

Três perguntas para

Dr. Syamsidik, pesquisador do Centro de Pesquisa sobre Mitigação de Desastre e Tsunami da Universidade Syiah Kuala, em Banda Aceh (Indonésia)

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

 

O que explica o tsunami que atingiu o Estreito de Sunda no último sábado?
A principal fonte do tsunami veio da erupção do Krakatoa. Ele entrou em erupção vários dias antes e houve duas probabilidades para os mecanismos que causaram o tsunami: a primeira foi o fluxo piroclástico com importante volume descendo para o oceano em alta velocidade. A segunda probabilidade foi o deslizamento de material vulcânico ao redor do Krakatoa. Ainda que a “Maré da Primavera” (máximo nível da maré) ocorria naquele dia, creio que a contribuição foi menor.

Tsunamis formados por erupções vulcânicas são muito mais difíceis de se prever e ativar o alarme para que os moradores fujam para regiões mais elevadas?
Sim, esse cenário tornaria muito mais difícil a fuga, especialmente se ocorrer à noite (como o último caso). O monitoramento próximo e contínuo poderia ajudar a fornecer alerta suficiente para a comunidade nas proximidades. A melhor forma, nesse caso, é instalar sensores de cabos submarinos que poderiam detectar a flutuação de água em torno do vulcão. Além disso, as pessoas ao redor do Krakatoa deveriam ser alertadas a evitarem ficar próximas da costa, se isso colocá-las em risco.

A Indonésia tem registro histórico de outros tsunamis causados por vulcões?
Há outro vulcão que também poderia iniciar um tsunami. Trata-se do Rokatenda, em Sikka. Alguns séculos atrás, o vulcão Tambora também causou um grande tsunami na região.

 

Devastadores

Desde 2004, ao menos 243 mil pessoas perderam a vida em decorrência de tsunamis

 

26 de dezembro de 2004 
sudeste da Ásia

 

» Um grande terremoto, de 9,3 graus de magnitude, atingiu Aceh, ao norte da ilha indonésia de Sumatra. O fenômeno mais intenso dos últimos 40 anos provocou ondas que atingiram vários países do Oceano Índico e provocaram a morte de 220 mil pessoas — a maioria delas na Indonésia e no  Sri Lanka. A energia liberada foi equivalente a de 23 mil bombas como a lançada sobre Hiroshima.

17 de julho de 2006 
Indonésia
 
» Um terremoto submarino de magnitude 7,7 provocou um tsunami na costa sul da ilha de Java, deixando 654 mortos.

2 de abril de 2007 

Ilhas Salomão

» Um tsunami nas Ilhas Salomão provocou um terremoto de 8 graus de magnitude que matou 52 pessoas.

29 de setembro de 2009 

Samoa

» Mais de 190 pessoas morreram nas ilhas Samoa e Tonga após um tremor de 8 de graus que desencadeou um tsunami.

27 de fevereiro de 2010
Chile

» Um terremoto seguido por um tsunami afetou a região central do país, provocando 520 mortes.

25 de outubro de 2010

Indonésia

» Mais de 400 mortos em um tsunami causado por um terremoto de 7,7 graus no arquipélago de Mentawai, na costa de Sumatra.

11 de março de 2011
Japão


» O país foi abalado por um terremoto de 9 graus de magnitude, seguido de um tsunami que causou a morte ou desaparecimento de quase 19 mil pessoas. A massa de água também inundou a central nuclear de Fukushima, danificando os reatores, no pior acidente nuclear desde o registrado na central soviética de Chernobyl em 1986.

28 de setembro de 2018

Indonésia

» Um terremoto de 7,5 graus seguido de um tsunami deixou pelo menos 2.200 mortos e milhares de desaparecidos em Palu, 
na Ilha Célebes.

22 de dezembro de 2018
Indonésia

» Um tsunami provocado pelo vulcão Anak Krakatoa no estreito de Sunda deixou ao menos 373 mortos. 

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