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Correio Braziliense

Dinamarca decide segregar imigrantes com antecedente criminal em ilha

A partir de 2021, pelo menos 125 migrantes que tiveram o pedido de asilo recusado e que têm antecedentes criminais serão confinados no local


postado em 31/12/2018 06:00 / atualizado em 30/12/2018 22:00

(foto: Mads Claus Rasmussen/AFP)
(foto: Mads Claus Rasmussen/AFP)
 
Dos 5,8 milhões de habitantes, 493 mil têm origem não ocidental. Muitos dos migrantes escolhem o país por seus indicadores socioeconômicos: IDH (índice que mede a qualidade de vida) de 0,929 (o 11º melhor do mundo); expectativa de vida de 80,9 anos; Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 287,8 bilhões. Um dos símbolos do Estado de bem-estar social, a Dinamarca tomou uma decisão polêmica: ante a suposta incapacidade de acomodar mais estrangeiros, o governo da coalizão de centro-direita — apoiado pelo Partido Popular Dinamarquês (DF), populista e anti-imigração — enviará os “indesejáveis” à Ilha de Lindholm. A partir de 2021, pelo menos 125  migrantes que tiveram o pedido de asilo recusado e que têm antecedentes criminais serão confinados no local, onde funcionava um centro de pesquisa sobre doenças animais contagiosas.

“Se alguém é indesejável na sociedade dinamarquesa, não deve incomodar o dinamarquês comum”, declarou Inger Støjberg, a popular e controversa ministra da Imigração. A medida se soma a uma série de ações anunciadas por líderes europeus para impedir a entrada de ilegais. A Hungria, do primeiro-ministro Viktor Orbán, ergueu uma cerca fronteiriça com arame farpado e defendeu o bloqueio de verbas da União Europeia (UE) para atender a crise migratória. O ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, fechou os portos do país para refugiados e prometeu acelerar as deportações. Na Alemanha, o movimento Pegida (Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente) e outras facções de extrema-direita ganham força.

Em entrevista ao Correio, a parlamentar Carolina Magdalene Maier, porta-voz para Integração do partido político A Alternativa, admitiu estar “muito preocupada” com os planos de isolar os migrantes em Lindholm. “Toda a experiência nos diz que confinar pessoas é contraproducente para a participação positiva deles na sociedade civil. Estou muito triste com o fato de o governo ter escolhido esse método”, alertou. “Os migrantes que serão enviados à ilha tinham cometido um crime, mas cumpriram a sentença na prisão. Então, deixá-los em uma ilha é uma punição extra. Estamos criando um proletariado étnico em um Estado de bem-estar social moderno, o que é muito preocupante.”

Maier afirmou que vê sinais de xenofobia crescente na Europa. “Isso ocorre principalmente na retórica, na maneira com que os políticos europeus discursam sobre os migrantes. Agora, é comum ouvir políticos reconhecerem o desejo de que migrantes expulsos da Dinamarca e impossibilitados de serem deportados, sob o risco de serem processados criminalmente, vivam da maneira “mais intolerável possível”. “É um fenômeno novo na Dinamarca.”
 
(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 
 
Vice-diretora de programas internacionais do Migration Policy Institute, em Londres, Natalia Banulescu-Bogdan afirmou à reportagem que seria um erro considerar que a aversão à imigração esteja inteiramente enraizada no racismo. Segundo ela, algumas das relações anti-imigração vistas em contextos nacionais —  o fortalecimento de fronteiras externas ou a adoção de uma postura hostil para com solicitantes de asilo — têm motivação nos fracassos percebidos na incapacidade da comunidade internacional de administrar a migração e no senso de que o problema “saiu do controle”.

O risco, de acordo com Natalia, é o de que o discurso xenofóbico se espalhe como um rastilho de pólvora. “Ainda que os ganhos eleitorais dos partidos populistas de direita tenham sido desiguais, eles conseguiram êxito na mudança da retórica sobre a imigração. Um ceticismo evidente em relação aos benefícios da imigração se infiltrou no discurso político dominante”, comentou. A especialista explica que as plataformas anti-imigração de muitos partidos populistas nativistas da direita radical encorajam outras legendas, retirando a retórica xenofóbica do isolamento e tornando-a parte da corrente principal.

Para Maryam Al-Khawaja, ex-diretora e conselheira especial do Centro para os Direitos Humanos do Golfo (em Copenhague), as decisões do governo da Dinamarca se baseiam na xenofobia e são um “flagrante desrespeito às responsabilidades perante as convenções internacionais e os direitos humanos”. “Parte do aumento da xenofobia e do racismo está ligada à supremacia branca e à crença de que as pessoas de cor são inferiores. A outra parte do problema é que os partidos de direita ganharam tanto terreno que, em alguns casos, os partidos que deveriam estar à esquerda se tornam mais direitistas para tentar obter votos.”

70%
Índice de queda no número de pedidos de refúgio de migrantes na Dinamarca, entre 2015 e 2017

8,5%
Parcela dos cidadãos na Dinamarca de origem “não ocidental”, segundo instituto de estatísticas nacional


Pontos de vista


Por Natalia Banulescu-Bogdan

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Entre o medo e a ansiedade “A xenofobia e o racismo sempre existiram em nossas sociedades. Em alguns casos, a ansiedade em relação aos recém-chegados tem aumentado — particularmente em países onde a velocidade de chegada dos estrangeiros superou a capacidade das comunidades de se prepararem. Em outros casos, esses sentimentos têm permanecido sob a superfície e foram ‘ativados’ por políticos que deliberadamente tentam incutir o medo para 
obterem ganhos eleitorais.”
Vice-diretora de Programas Internacionais do Migration Policy Institute, em Londres


Por Maryam Al-Khawaja

 Das armas ao terrorismo “Os europeus ajudaram a criar as situações que fazem com que os refugiados abandonem suas nações. Os países da Europa vendem armas e fazem negócios com regimes autoritários, alguns dos quais criam e fomentam o terrorismo. Por sua vez, o terrorismo é usado para impulsionar a xenofobia. Depois, os dois fenômenos são usados na tentativa de justificar a venda de mais armas àqueles mesmos regimes autoritários, em nome da segurança e do antiterrorismo.”
Ex-presidente do Centro para Direitos Humanos no Golfo, com sede em Copenhague



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