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Correio Braziliense

Theresa May sobrevive, mas Brexit afunda em meio a caos político

Se May continuar a insistir em defender seu acordo, é possível que pró-europeus e eurocéticos também se afinquem em suas respectivas posições


postado em 16/01/2019 18:25 / atualizado em 16/01/2019 19:38

(foto: Agência France Presse)
(foto: Agência France Presse)
 
Londres, Reino Unido - O governo de Theresa May ganhou com vantagem estreita uma moção de censura nesta quarta-feira (16), após a derrota retumbante na véspera de seu acordo do Brexit - mas o caos político está instaurado a apenas 72 dias da saída prevista da União Europeia (UE).

A moção de desconfiança, como também é chamada, foi apresentada na véspera pelo líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, e rejeitada por 325 deputados, contra 306.

Na terça, May tinha sofrido a pior derrota imposta pelo parlamento a um governo britânico na história recente do país: 432 deputados - entre eles, 118 de seu próprio Partido Conservador - votaram contra seu acordo de Brexit, que conseguiu apenas 202 apoios.

Contudo, no dia seguinte, tanto os rebeldes conservadores como o pequeno partido unionista norte-irlandês DUP - do qual depende a maioria parlamente dos Tories - deixaram claro que não querem deixar o governo e a negociação do Brexit na mão dos trabalhistas. 

'Westminster está um caos'

Reforçada, pelo menos por ora, pela evidência de que seus próprios deputados rebeldes querem que fique à frente da árdua tarefa de tirar o país da UE, May voltará na segunda-feira ao Parlamento com um plano B. 

Antes, afirmou, abrirá um diálogo com os líderes da oposição. "Gostaria de convidar os líderes de partidos parlamentares para me encontrarem individualmente e gostaria de começar essas reuniões nesta noite", disse May ao Parlamento.

"Vou escutar os pontos de vista da câmara, entender os pontos de vista dos parlamentares para identificar o que poderia ter o apoio da câmara e cumprir o referendo", que em 2016 decidiu pelo Brexit, tinha dito May antes do início dos debates. 

Andrea Leadsome, representante do governo no Parlamento, defendeu na BBC que "o acordo da primeira-ministra é bom". "Temos que encontrar a forma deste acordo, ou parte dele, ou um acordo alternativo, isso é negociável, possa ser apresentado à UE para concretizar o Brexit em 29 de março", acrescentou. 

Mas se May continuar a insistir em defender seu acordo, é possível que pró-europeus e eurocéticos também se afinquem em suas respectivas posições.

"Westminster está um caos", afirmou o deputado nacionalista escocês Ian Blackford. "O plano B será o plano A, mas servido com um molho diferente", disse, sugerindo a May pedir para Bruxelas adiar a data do Brexit e consultar os britânicos em um segundo referendo.

Em carta publicada nesta quarta, mais de 70 deputados trabalhistas também defenderam a organização desta segunda consulta popular, rejeitada pela chefe de governo, mas que Corbyn deve respaldar se não conseguir provocar eleições legislativas antecipadas.

'Obstinada'

"A bola agora está no campo de Westminster. Este problema começou em Westminter com o referendo do Brexit, nós encontramos uma solução, eles rejeitaram essa solução", criticou o primeiro-ministro da Irlanda, Leo Varadkar.

"Agora, têm que encontrar algo que possam conseguir aprovar no Parlamento, mas também tem que ser algo que a UE e a Irlanda possam aceitar", acrescentou.

Cada vez mais preocupada com as catastróficas consequências econômicas de um Brexit sem acordo, a principal patronal britânica, a Confederação da Indústria Britânica (CBI), pediu que se encontre um novo plano "imediatamente".

Na opinião de Anand Menon, professor de Política Europeia n King’s College London, a primeira-ministra, "que é obstinada, voltará ao Parlamento e tentará de novo".

"Acho, porém, que a magnitude dessa derrota fará a UE se questionar se vale a pena fazer concessões, dado o número de deputados, os quais a primeira-ministra tem de convencer", acrescentou Menon.

Hoje, a chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que "ainda temos tempo para negociar" um acordo sobre o Brexit, e o presidente francês Emmanuel Macron admitiu que "talvez possam melhorar um ou dois pontos" do texto.

Apenas o presidente da UE, Donald Tusk, ousou sugerir, porém, que Londres pode simplesmente dar marcha a ré. 

"Se um acordo é impossível, e ninguém quer um Brexit sem acordo, quem terá, enfim, o valor de dizer qual é a única solução positiva?", tuitou.

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