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Correio Braziliense

Militares na Venezuela são detidos por motim contra o presidente Maduro

Essa ação ocorreu às vésperas das manifestações convocadas pela oposição e pelo governo, que se anunciam como o primeiro grande ato nas ruas desde os protestos de 2017 que deixaram 125 mortos


postado em 21/01/2019 19:16 / atualizado em 21/01/2019 19:28

(foto: Yuri Cortez/AFP)
(foto: Yuri Cortez/AFP)
Caracas, Venezuela - Autoridades venezuelanas detiveram 27 militares que realizaram um motim contra o presidente Nicolás Maduro nesta segunda-feira (21/1), dois dias antes de manifestações opositoras para exigir um governo de transição e a realização de eleições.

À agitação provocada pela rápida insurgência se somou uma sentença do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ, de linha governista), que declarou nula a junta diretiva parlamentar presidida pelo jovem opositor Juan Guaidó.

Sob a liderança de Guaidó, o Congresso - de maioria opositora - declarou Maduro "usurpador" após a sua posse em 10 de janeiro para um segundo mandato, considerado ilegítimo por vários governos, e acordou uma anistia para os militares que não o reconheceram.

"Fazemos um chamado à Força Armada para restabelecer a ordem. Família militar, ali estão os que querem perseguir", disse Guaidó à imprensa, após a decisão que reiterou a decisão do TSJ de declarar o Parlamento em desacato em 2016.

De madrugada, 27 membros da Guarda Nacional (GNB) subtraíram armas de guerra de um posto militar em Petare (leste) e se entrincheiraram em seguida no quartel do bairro Cotiza (norte), onde foram detidos, segundo um informe oficial, que reportou o controle da situação. "Aqui está a tropa profissional da GNB contra este regime que não reconhecemos completamente. Preciso do apoio de vocês, saiam às ruas", disse um militar que as autoridades identificaram com Bandres Figueroa, em um dos vários vídeos que circularam nas redes sociais.

À agitação provocada pelo rápido levante se somou uma sentença do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ, situação), que declarou nula a junta diretora parlamentar presidida pelo jovem opositor Juan Guaidó. O número dois do chavismo, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Constituinte, disse à imprensa que foi Figueroa quem liderou o levante e que 25 das detenções ocorreram no quartel.

Essa ação ocorreu às vésperas das manifestações convocadas pela oposição e pelo governo, que se anunciam como o primeiro grande ato nas ruas desde os protestos de 2017 que deixaram 125 mortos.

"Este Parlamento se mantém firme com as decisões tomadas. Temos um foco muito claro: em 23 de janeiro todos esses venezuelanos estejam muito atentos", sustentou Guaidó nos jardins do Palácio Legislativo.

'Queremos que Maduro vá embora!'

Segundo a Força Armada, os "atacantes" também sequestraram quatro militares. "Durante a prisão conseguiram recuperar o armamento roubado e, no momento atual, estão dando informações de interesse aos organismos de Inteligência e ao sistema de Justiça militar. A esses sujeitos será aplicado todo o peso da lei", advertiu.

Após saberem do caso por meio dos vídeos, um grupo de moradores de Cotiza chegou às proximidades do quartel para apoiar os rebeldes, bater panelas e fizeram barricadas em uma rua com lixo, mas foram dispersados por efetivos policiais e militares com bombas de gás lacrimogêneo.

"Estamos com eles. Se eles se unem com nosso país, estamos com eles. Vamos estar nas ruas. Liberdade!", gritou uma mulher. "Queremos que Maduro vá embora, estamos cansados!", alfinetou um homem. Vários sofreram ferimentos de balas de borracha e foram afetados pela inalação de gás lacrimogêneo, lançado pela tropa de choque. A situação tendia à normalidade à tarde.

"Querem criar agitação (...) Checamos e não há nenhuma réplica", disse Cabello. Cabello advertiu que o ocorrido "gera decisões fortes". "A força deve ser aplicada quando corresponder. O Estado vai se impor, venha a violência de onde vier, de dentro ou de fora, nossa mão não irá tremer", ameaçou.

Descontentamento militar 

Guaidó, que se declarou disposto a presidir o governo de transição, assegurou que a mensagem do Parlamento está tendo "eco" na Força Armada, considerada o apoio do governo.

Defendendo a quebra do apoio decisivo da Força Armada que Maduro tem, o Parlamento se comprometeu há uma semana a "decretar uma lei de anistia" para "funcionários civis ou militares" que não o reconhecem e cooperam com o "governo de transição".

Maduro considera essa proposta como parte de um "golpe de Estado" em curso, por trás do qual, segundo diz, estão a Casa Branca e vários governos latino-americanos que também sustentam que a sua reeleição em maio de 2018 foi fruto de eleições ilegítimas.

Rocío San Miguel, especialista em assuntos militares e presidente da ONG Controle Cidadão, assegurou à AFP que o fato "pode ser descrito como uma expressão de descontentamento, que não encontrou resposta em outras unidades militares".

A Força Armada, integrada por 365.000 mil soldados e 1,6 milhão de milicianos civis, reafirmou a sua lealdade "absoluta" a Maduro após a posse.

Apesar do esforço para ser monolítica, dois generais estão entre os presos por um suposto ataque contra o presidente em 4 de agosto, quando dois drones explodiram perto de um palanque onde liderava um ato militar. 

A Controle Cidadão estima que 180 soldados tenham sido detidos em 2018 acusados de conspiração e dez mil membros da Força Armada tenham pedido baixa desde 2015. 

Em um contexto em que poucos escapam da escassez de alimentos e remédios e da hiperinflação, 4.309 soldados desertaram da Guarda Nacional em 2018, segundo uma lista vazada do organismo e citada pela Controle Cidadão.

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