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Correio Braziliense

Maduro recebe apoio de militares ante respaldo internacional a Guaidó

Maduro agradeceu aos militares o apoio contra o que ele denunciou como "um golpe de Estado em curso" liderado por Washington


postado em 24/01/2019 20:48

(foto: Luis Robayo / AFP)
(foto: Luis Robayo / AFP)
Caracas, Venezuela - O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, recebeu nesta quinta-feira (24/1) o apoio da Força Armada, pilar de seu governo, tentando responder ao apoio internacional à autoproclamação do líder parlamentar opositor, Juan Guaidó, como presidente interino.

Em sessão especial no Tribunal Supremo de Justiça (TSJ, de linha governista), Maduro agradeceu aos militares o apoio contra o que ele denunciou como "um golpe de Estado em curso" liderado por Washington. 

"A pátria militar tem voz firme e clara (...) Não há dúvidas de que é o próprio Donald Trump quem quer impor um governo de fato", disse o presidente socialista.

Ladeado pela cúpula militar, o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino, havia reconhecido pouco antes Maduro como presidente "legítimo", garantindo que a autoproclamação de Guaidó faz parte desse "plano criminoso".

Ao apoio se somaram o TSJ, o Conselho Eleitoral e o Ministério Público, que anunciou estar preparando "ações" depois que a Justiça lhe ordenou investigar criminalmente o Parlamento - de maioria opositora -, acusando-o de usurpar as funções Maduro.

Guaidó, que segundo uma fonte opositora "está abrigado" em um local não especificado, oferece anistia aos militares que não reconheçam Maduro. "O maior impedimento para assumir na prática é o alto comando militar", disse à AFP o analista Diego Moya-Ocampos.

Embora a Força Armada afirme estar unida, mostrou fissuras. Na segunda-feira, 27 soldados foram presos após se revoltarem contra Maduro.

A tensão é sentida nas ruas. Revoltas no contexto de protestos contra o governo deixaram 26 mortos desde segunda-feira.
 

'Nunca renunciarei'

Invocando o artigo 233 da Constituição, Guaidó, de 35 anos, se autoproclamou na quarta-feira "presidente encarregado" de "alcançar o fim da usurpação, um governo de transição e eleições livres".

Esse artigo assinala que haverá vazio de poder com a renúncia, incapacidade mental, morte do presidente ou abandono de cargo, o ponto polêmico, pois o Parlamento já o declarou em 2017, embora as suas decisões sejam consideradas nulas pelo TSJ.

"Graças a Deus, à Virgem e a todos os santos, anjos e arcanjos, estou bem do 'coco' (cabeça), da saúde vou muito bem e (...) nunca renunciarei", assegurou Maduro, que disse ter notado Guaidó "hesitando" e "assustado". 

Guaidó foi reconhecido por Estados Unidos, Canadá e uma dezena de países da América Latina, enquanto Maduro obteve o apoio de seus aliados Rússia, China, Cuba, Bolívia, Nicarágua e Turquia. Inclusive, o presidente russo, Vladimir Putin, ligou para ele.

Mas o reconhecimento de Guaidó não gerou consenso na Organização dos Estados Americanos (OEA) nesta quinta-feira, apesar de o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, ter pressionado.

Washington solicitou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a Venezuela no sábado. A União Europeia limitou-se a pedir "eleições livres" sem reconhecer Guaidó, o que foi feito pelo presidente do Eurocâmara, Antonio Tajani. 

De visita ao Panamá, o papa Francisco disse, por meio de seu porta-voz Alessandro Gisotti, que apoia "todos os esforços para aplacar o sofrimento dos venezuelanos".

Cinquenta países consideram "ilegítimo" o segundo mandato de Maduro, iniciado em 10 de janeiro, por considerar que as eleições nas quais foi reeleito - boicotadas pela oposição - foram fraudulentas.

"A chave sempre esteve dentro, na articulação da oposição (avançando) e o apoio militar (incerto). Mas agora Maduro, por erro, coloca a comunidade internacional no mais alto nível de protagonismo. Ali há muito mais a perder", opinou o analista Luis Vicente León.

Para além da diplomacia

Em resposta ao firme apoio dos Estados Unidos a Guaidó, Maduro rompeu relações e deu 72 horas para que os diplomatas deixem o país, mas Washington não reconheceu essa decisão e ameaçou tomar medidas se a sua equipe for colocada em "perigo".

"Se ainda houver algo de sensatez e racionalidade, digo ao Departamento de Estado (...) que eles têm que cumprir a ordem", advertiu Maduro, após anunciar o fechamento da embaixada e de todos os consulados nos Estados Unidos.

Em um comunicado a todas as embaixadas, Guaidó pediu na véspera que fiquem na Venezuela.

"O que realmente afeta ou põe em questão a capacidade de Maduro para governar são medidas econômicas ou financeiras", advertiu à AFP o internacionalista Mariano de Alba.

Os Estados Unidos compram da Venezuela um terço de sua fraca produção de 1,4 milhão de barris por dia - fonte de 96% das divisas. Segundo Maduro, seus inimigos querem se apropriar das maiores reservas de petróleo do planeta que a nação sul-americana possui.

"Trump provavelmente exploraria a possibilidade de congelamento de ativos (da Venezuela) (...) podendo agregar sanções petroleiras", opinou o Eurasia Group. 

O agravamento da crise ocorre no meio do pior desastre econômico da história moderna do país petroleiro.


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