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Correio Braziliense

Quarenta anos da insurreição que destronou a monarquia do xá Reza Pahlevi

Revolução da meia-idade chega aos 40 anos às portas de uma sucessão que se anuncia turbulenta e em meio a tensões crescentes com os Estados Unidos, que romperam o acordo nuclear e retomaram sanções


postado em 28/01/2019 06:00

O líder religioso supremo, o aiatolá Ali Khamenei, lado a lado com o antecessor e inspirador da revolução de 1979: transição à vista em período de desafios na frente externa(foto: Atta Kenare/AFP - 1/2/15)
O líder religioso supremo, o aiatolá Ali Khamenei, lado a lado com o antecessor e inspirador da revolução de 1979: transição à vista em período de desafios na frente externa (foto: Atta Kenare/AFP - 1/2/15)

As barbas brancas e o semblante pesado dos líderes religiosos sugerem uma imagem mais vetusta, mas a República Islâmica do Irã comemora nas próximas semanas os 40 anos da revolução surpreendente que destronou, em 1979, o xá Reza Pahlevi e uma monarquia milenar, e inaugurou um período de sobressaltos e reacomodações políticas e geopolíticas no Oriente Médio. O regime de Teerã, que desde então confronta a hegemonia dos Estados Unidos na região, chega à meia-idade cercado pelas incertezas de uma sucessão que se insinua no horizonte próximo. O líder religioso supremo, o aiatolá Ali Khamenei, completa 80 anos, e a aproximação do processo sucessório acrescenta mais uma variável a uma equação na qual não faltam incógnitas, em meio a um cenário de instabilidade em múltiplas frentes — da guerra civil na Síria à frágil paz no Iraque, passando pela rivalidade crescente com Israel e a Arábia Saudita.

“Embora Khamenei possa viver ainda por muitos anos, as disputas políticas tendem a se intensificar à medida que ele envelhece”, adverte um relatório divulgado há 15 dias pela agência de risco Fitch Solutions para os seus clientes. “Essa competição reflete rivalidades pessoais, de grupos e ideológicas”, avaliam os analistas da consultoria. A despeito da imagem externa de um sistema fechado e quase monolítico, e embora distante dos parâmetros ocidentais de uma democracia, o regime islâmico iraniano comporta nuances. Grosso modo, o establishment político-religioso se divide em três correntes: a conservadora, a moderada e a reformista.

“O sucessor de Khamenei tende a sair da linha-dura, como ele próprio, mas precisará de tempo para se consolidar no poder. É de esperar que seja desafiado politicamente pelos concorrentes”, diz o relatório. A Fitch identifica, a princípio, três candidatos principais. O aiatolá Sadegh Amoli Larijani, 57 anos, responde pelo estratégico Conselho de Expedientes, organismo instituído para arbitrar discordâncias entre os três poderes republicanos tradicionais — Executivo, Legislativo e Judiciário —, que operam à sombra do líder supremo, uma espécie de Poder Moderador. Próximo a Khamenei, Larijani pertence à facção conservadora, assim como Ibrahim Raisi, 59, que o sucedeu no comando da Justiça. Como contraponto emerge o atual presidente, Hassan Rohani, 70, religioso moderado eleito em 2013 e reeleito em 2017 com a plataforma de recolocar o país no cenário global.

A linha de fratura, na corrida pela sucessão de Khamenei, tende a se desenhar justamente na combinação entre o apelo doméstico, condicionado ao impacto de uma situação econômica delicada, e a política externa. “Será uma disputa entre os que preferem o Irã como um Estado islâmico em confronto com o Ocidente liderado pelos EUA e os que defendem um país mais liberal, política e socialmente, integrado à economia global e menos hostil a Washington e seus aliados”, resumem os estudiosos da Fitch.


Acordo nuclear


Naysan Rafati, analista do instituto International Crisis Group, com base em Bruxelas, situa no centro dos próximos movimentos das facções religiosas no Irã o futuro do acordo nuclear firmado em 2015 com os EUA e mais cinco potências (Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha). Costurado no governo de Rohani, o tratado resultou na suspensão de sanções econômicas e diplomáticas internacionais, em troca do congelamento de atividades consideradas suspeitas de configurar a busca de armas atômicas. Em maio de 2018, Donald Trump retirou-se do acordo e, nos meses posteriores, retomou as sanções que tinham sido suspensas pelo antecessor, Barack Obama.

“A retirada (dos EUA) foi o ponto de partida para uma campanha agressiva, com o objetivo declarado de levar o Irã a renegociar os termos (do acordo), mas cujo objetivo real mais provável é forçar Teerã a novas concessões, sob a pressão de uma crescente inquietação interna”, escreveu Rafati, em relatório compilado no fim de 2018. O especialista lembra a temporada de manifestações contra a crise econômica, no segundo semestre do ano passado, que produziu confrontos violentos em importantes cidades iranianas.

Rafati relaciona a pressão exercida pelo governo Trump com a meta de conter a influência conquistada por Teerã, nas últimas décadas, em um arco que se estende do Iraque ao Líbano, passando pela Síria e se desdobrando para a Palestina, onde o regime islâmico tem um aliado no movimento islâmico Hamas. O analista do International Crisis Group vê nesse terreno o risco de mais fricções entre Washington e Teerã, com potencial de risco em um momento no qual a República Islâmica se avizinha de instabilidade interna — seja pela expectativa de renovar o posto de líder supremo, seja pela inevitável substituição do presidente, dentro de dois anos. “A análise dos últimos 40 anos não mostra correlação entre pressões econômicas e a ação externa do Irã. Uma escalada no regime de sanções, além de não favorecer a segurança regional, pode desembocar em uma guerra”, alerta.

O último imperador

Mohammed Reza Pahlevi celebrou os 2.500 anos do império persa, em 1967, coroando a si mesmo, como Napoleão Bonaparte, e à terceira mulher, a imperatriz Farah Diba. O sonho do xá era reinar até o fim da vida, por “direito divino”, mas teve fim 12 anos mais tarde — por ironia, na esteira de uma insurreição popular comandada pelo líder religioso dos muçulmanos xiitas, que formam mais de 80% da população do Irã. Coroado em 1941, Pahlevi tomou de fato as rédeas do país em 1953, quando um golpe apoiado pelos EUA depôs o premiê nacionalista Mohammed Mossadegh. Aliado a Washington, o xá promoveu no início dos anos 1960 um ensaio de modernização, a “revolução branca”, rejeitada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, que por fim o destronaria. Pahlevi e a família deixaram o Irã em janeiro de 1979. Após turbulenta estada nos EUA, morreu de câncer, em 1980, aos 60 anos.

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