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Correio Braziliense

ARTIGO: As complexidades e divisões no Chavismo

O ex-presidente Hugo Chavéz possuía o apoio dos militares de altas patentes por convicção dos seus subalternos em segui-lo. Com Maduro, a situação é bastante diferente.


postado em 02/02/2019 13:05

ministro da Defesa da Venezuela, General Vladimir Padrino Lopez(foto: Luis Robayo/AFP)
ministro da Defesa da Venezuela, General Vladimir Padrino Lopez (foto: Luis Robayo/AFP)
 
 
O ministro da Defesa, General Vladimir Padrino Lopez, é hoje o ponto central na definição do futuro da Venezuela. O governo de Nicolás Maduro não tem uma situação de alta complexidade apenas nas ruas, mas também internamente. As Forças Armadas vêm sendo, ao longo dos anos, as guardiãs do chavismo e da tentativa de organização interna do regime.

O ex-presidente Hugo Chavéz possuía o apoio dos militares de altas patentes por convicção dos seus subalternos em segui-lo. Com Maduro, a situação é bastante diferente. Hoje, temos inúmeros membros das Forças Armadas que são chavistas e, no entanto, não são maduristas.

Com a onda internacional de reconhecimento de Juan Guaidó como presidente venezuelano, Maduro vê o apoio da Rússia como sendo mais importante do que o apoio da China, de Cuba e do Irã. O alto-comando venezuelano encontra-se dividido entre o apoio a Maduro e o apoio ao chavismo sem Maduro. O General Padrino Lopez, que é o principal ponto de contato na relação Venezuela–Rússia, mantém alguma unidade no alto-comando, aguardando o desenrolar dos fatos para tomar uma decisão de posicionamento.

A divisão de influência nas Forças Armadas se encontra na seguinte forma: o alto-comando ainda apoia Maduro e mesmo aqueles que estão contra ele mantendo a lealdade por conta da liderança de Padrino Lopez; os níveis intermediários,    divididos de forma mais acentuada entre maduristas, chavistas “puros” e pequenos focos crescentes de apoio à oposição.

Nesse nível intermediário, a influência cubana sempre foi maior do que a russa. A linha de apoio e influência cubana na Venezuela se concentra nos níveis intermediários do Exército, entre policiais municipais, nos colectivos (organizações populares bolivarianas treinadas para guerrilha) e na inteligência.

O aparelhamento venezuelano com oficiais de inteligência de Cuba elevou consideravelmente o poder desse órgão e garante um monitoramento efetivo interno de movimentações de membros da oposição. Conforme as rachaduras na lealdade militar começam a aparecer nos níveis intermediários, Cuba percebe que pode perder influência não só como um todo, mas também na disputa por espaço com a Rússia.

À medida que a Rússia, via oficiais mais graduados, viabilizou empréstimos, financiamentos e doações de equipamentos, sua influência começou a conquistar patentes mais baixas que, historicamente, estavam sob a esfera cubana. Sem o mesmo poder econômico ou bélico, Cuba se baseou nas linhas dogmáticas, ideológicas, e no poder que seu serviço de inteligência possui na região. Nos últimos dias, centenas de “assessores” cubanos se juntaram a determinados grupos militares com o intuito de manter a unidade e evitar uma onda de adesão aos oposicionistas democráticos. A influência chinesa, por outro lado, segue ligada a temas econômicos. Por mais que exista um ministro da Economia, o senhor Luis Salas, ninguém no país presta atenção nele. Nem mesmo Maduro.

Diosdado Cabello, ex-presidente da Câmara, mantém importantes laços com Cuba e com a China. Ele liderava o controlado projeto de “autogolpe”, com a ideia de que a culpa do fracasso econômico do país poderia ser alocado em Maduro, salvando o chavismo de qualquer responsabilidade. No caso de uma retirada pacífica, cogitou-se enviar Maduro para ser embaixador em Havana ou Moscou. Esse projeto, no entanto, foi suspenso quando o risco de desmoronamento de todo o chavismo se mostrou real. Nicolás Maduro luta para manter o apoio dos irmãos Rodriguez (Delcy Rodriguez, vice-presidente, e de Jorge Rodriguez, ex-vice-presidente), pois esses possuem influência na linha chavista “pura” do Partido Bolivariano.

A “Frente Miranda”, fundada em 2003 por Fidel Castro e Hugo Chavez, é uma organização social de intervenção em nome da “Revolução” em empresas públicas e outras “lutas” do Estado contra tudo o que consideram inimigo. Maduro vê grande importância nesse movimento, pois o volume de integrantes civis lhe confere influência em suas comunidades e alta capacidade de mobilização. Em caso de uma eventual guerra civil, a “Frente Miranda” e os colectivos poderiam dar uma vantagem aos chavistas, se a adesão de militares aos oposicionistas democráticos se demonstrasse desarticulada.

Há ainda a possibilidade de termos uma concordância dos chavistas “puros” e dos maduristas na realização de novas eleições. Isso traria a oportunidade para alguns chavistas se livrarem de Maduro e manterem o controle no país. O risco, claramente, seria o de uma derrota. Outro cenário é a rejeição de uma eleição. Nesse caso, Maduro entregaria ainda mais a Padrino Lopéz a responsabilidade da unidade das Forças Armadas. A Rússia aportaria mais armamentos ao país e o número de “assessores” cubanos também aumentaria. A oposição teria de manter o volume de protestos populares e oferecer anistia aos militares e policiais que ficassem ao seu lado.

No caso de uma intervenção dos EUA, não creio que soldados seriam enviados. O primeiro passo seria sempre o de fornecer armamento e apoio tático/estratégico a organizações oposicionistas. O risco desse cenário seria uma repetição do que houve na Síria. Não existe saída fácil nesse complicado jogo de xadrez. A oposição ainda segue desorganizada e o poder militar do chavismo é mais forte do que se imagina.



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