Publicidade

Correio Braziliense

Ex-membros da CIA alertam para conflito entre Trump e serviços secretos

Uma semana depois de Trump classificar de ingênuos seus serviços de Inteligência por ter questionado suas opiniões sobre Irã e Coreia do Norte, esses ex-espiões opinaram que o conflito entre ambas as partes estava se tornando muito perigos


postado em 07/02/2019 11:23

(foto: Arquivos / AFP)
(foto: Arquivos / AFP)

 A relação entre o presidente americano, Donald Trump, e seus serviços secretos está irremediavelmente rompida, o que põe os Estados Unidos em risco em caso de crise - disseram ex-oficiais da CIA na quarta-feira (6/2).

 

Uma semana depois de Trump classificar de ingênuos seus serviços de Inteligência por ter questionado suas opiniões sobre Irã e Coreia do Norte, esses ex-espiões opinaram que o conflito entre ambas as partes estava se tornando muito perigoso. "Uma guerra aberta como essa pode afetar as decisões dos serviços de Inteligência e também as decisões políticas", opinou o ex-diretor de análises sobre Rússia na CIA George Beebe.

 

Segundo ele, a partir de agora, quando os serviços secretos tiverem de alertar o presidente sobre uma crise iminente, o primeiro pensamento de Trump será: "Estão tentando me confundir para me causar algum problema". "Se os serviços de Inteligência alertam sobre algo, mas quem tem de ouvir esse aviso não faz isso (...), o resultado não é diferente de se não tivesse tido qualquer tipo de aviso", disse Beebe.

 

Disputa sobre ameaças globais 

Beebe e outros ex-membros da CIA participaram de um debate organizado pelo "think tank" Center for the National Interest, em Washington, após o último confronto público entre Trump e seus serviços secretos.

 

Na semana passada, na apresentação de sua avaliação anual sobre as ameaças globais, os serviços de Inteligência contradisseram no Congresso várias afirmações de Trump.

 

Segundo eles, diferentemente do que foi anunciado pelo presidente, o grupo extremista Estado Islâmico ainda não foi derrotado, é pouco provável que a Coreia do Norte renuncie às suas armas nucleares, e Teerã está cumprindo o acordo sobre armamento atômico, do qual os Estados Unidos se retiraram por decisão de Trump.

 

O presidente republicano respondeu que os serviços secretos estão enganados e convocou o diretor de Inteligência, Dan Coats, e a diretora da CIA, Gina Haspel, para tratarem do tema. "O pessoal de Inteligência parece ser extremamente passivo e ingênuo quando se trata dos perigos do Irã. Estão errados!", tuitou Trump. "Talvez a Inteligência devesse voltar para a escola!", insistiu.

 

O presidente mantém relações ruins com seus serviços secretos desde que revelaram, após sua vitória eleitoral de novembro de 2016, que a Rússia interferiu nas eleições para ajudá-lo a derrotar a então candidata democrata, Hillary Clinton.

 

Trump chamou o informe de "politizado" e de "fake news", antes de aceitar a versão do presidente russo, Vladimir Putin, segundo a qual não houve nenhuma intervenção russa nas eleições americanas. "Muitos presidentes perderam o amor por nós com o passar do tempo", disse o ex-diretor assistente de análises na CIA Mark Lowenthal.

 

"Mas a relação com Trump é diferente. Nunca tivemos um presidente que se unisse a um líder estrangeiro, e muito menos um líder russo, e dissesse: acredito nele, não acredito nos serviços de Inteligência americanos", acrescentou.

 

Para Lowenthal, a desconfiança de Trump enfraqueceu os analistas de Inteligência ao afetar, potencialmente, seu julgamento.


A resistência do presidente 

Professor da Universidade de Georgetown que passou 28 anos na CIA, Paul Pillar lembrou que o presidente americano é responsável por estabelecer as diretrizes políticas do país. Para isso, completou Pillar, Trump precisa das contribuições da Inteligência.

 

"A maior preocupação parece ser a resistência total de Trump na hora de assimilar nova informação, seja na forma escrita, ou por sessões informativas, o que dificulta, para ele, superar sua ignorância sobre muitos acontecimentos mundiais", afirmou Pillar. "Ainda não enfrentou nenhuma verdadeira crise internacional", acrescentou.

 

E, neste caso, "tem outra coisa com que se preocupar: que duvide das contribuições dos serviços de Inteligência, que estes sejam vistos com receio, o que impediria uma resposta segura e eficaz diante de qualquer crise".

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade