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Correio Braziliense

Violência dentro da extrema direita preocupa especialistas em terrorismo

Massacres na Nova Zelândia e na escola de São Paulo expõem o lado mais obscuro de uma cultura racista, antiglobalista e misógina que germina nas redes sociais, enquanto as forças de segurança focalizam o terror jihadista


postado em 24/03/2019 08:00

Mensagens de paz exibidas na Austrália, pátria do atirador que matou fiéis em mesquitas de Christchurch: ataque à convivência multicultural (foto: Peter Parks/AFP )
Mensagens de paz exibidas na Austrália, pátria do atirador que matou fiéis em mesquitas de Christchurch: ataque à convivência multicultural (foto: Peter Parks/AFP )
Atentados mortais como os de Suzano, no Brasil, e de Christchurch, na Nova Zelândia, podem se espalhar pelo mundo, caso as autoridades continuem de olhos fechados para a ameaça representada pelo avanço dos movimentos extremistas de direita. O alerta foi dado por estudiosos do terrorismo, que apontam para a crescente organização de radicais que comungam de sentimentos como o racismo, a islamofobia, o ultranacionalismo e a misoginia. Ouvidos pelo Correio, eles explicam que esses movimentos aprimoraram os métodos de comunicação e recrutamento, enquanto muitos governos se ocupavam em priorizar a guerra ao terror islâmico, sobretudo a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001.

“Já passou muito o tempo de o mundo prestar atenção aos radicais de extrema direita e aos racistas. Eles são uma ameaça séria e, em países como os Estados Unidos, têm cometido a maioria dos ataques domésticos, nos últimos anos”, alerta Victor Asal, professor da Universidade de Albany, no estado de Nova York. “Grupos jihadistas são uma ameaça, mas não são os únicos. Em alguns países, grupos nacionalistas de extrema direita são muito mais perigosos”, acrescenta.

Asal explica que muitos nacionalistas brancos se sentem ameaçados por fatores como a diversidade e a imigração, o que os leva a considerar que seu poder está sendo retirado. “Algumas pessoas estão comprando a visão nacionalista branca do mundo, e isso está diretamente ligado a coisas como Mein Kampf, de Adolf Hitler”, diz o estudioso, ao se referir ao título do livro de dois volumes no qual o ditador da Alemanha nazista formulou seu ideário antissemita, anticomunista, racistas e nacionalista de extrema direita.

“A internet e a capacidade de conectar-se transnacionalmente com mais facilidade e de criar comunidades on-line isoladas para compartilhar esse ódio também contribuíram para esse crescimento”, observa o docente. “Alguns radicais se organizam como lobos solitários, alguns como organizações, mas não são diferentes de qualquer outro tipo de terrorismo”, acrescenta.

Ódio compartilhado


Alguns dos ingredientes citados por Asal estavam presentes na tragédia de Christchurch. Em 15 de março, o australiano Brenton Tarrant, 28 anos, abriu fogo em duas mesquitas, matou 50 pessoas e foi preso em seguida. O atirador, que transmitiu o ataque ao vivo pelo Facebook, havia escrito um manifesto de 74 páginas no qual se declara um “nacionalista branco” e cita o Brasil como “um país enfraquecido pela diversidade étnica”.

Na tragédia da cidade paulista de Suzano, ocorrida dois dias antes, dois jovens mataram oito pessoas a tiros, sete delas na Escola Estadual Raúl Brasil, e cometeram suicídio em seguida. Como o atirador de Christchurch, eles frequentavam fóruns de extrema direita abrigados na chamada deep web, o lado sombrio e irrastreável da internet. Além de obter instruções para a preparação do ataque, eles compartilharam com internautas o ódio às mulheres e a outros segmentos sociais.

“Não há dúvida de que agora existe uma nova onda de terrorismo de direita. Não é novo, em termos históricos, mas é novo nas últimas décadas e é novo na forma como envolve uma rede global de indivíduos e grupos, ligados por um conjunto comum de ideias e agendas”, analisa o professor Richard Jackson, diretor do Centro de Estudos de Paz e Conflitos da Universidade de Otago, na Nova Zelândia.

“Essa ameaça, definitivamente, tem crescido e está se tornando cada vez mais letal. Os serviços de segurança no Ocidente se concentraram quase exclusivamente na ameaça da chamada violência jihadista, desde o 11 de setembro, e agora estão lutando para alcançar a nova ameaça que evoluiu até esse ponto”, pondera o especialista. “Um grande número de novos recursos, ou recursos remanejados, será necessário para entender, monitorar e combater essa ameaça global.”

Pêndulo


A opinião é compartilhada por Gary Ackerman, professor da Universide de Albany, no estado de Nova York. “A ameaça do terrorismo da direita nunca foi embora. Ela era menos notada e noticiada, devido aos atos muito mais prolíficos de terrorismo causados por extremistas islâmicos, em muitas partes do mundo. Atualmente, tudo indica que estamos entrando em uma nova e crescente fase de violência da ala direita”, observa.

“Houve, globalmente, um balanço do pêndulo sociopolítico contra o multiculturalismo, o supranacionalismo e o liberalismo, em geral, pois muitas pessoas passaram a acreditar que a globalização e a ordem liberal pós-Segunda Guerra Mundial não cumpriram as promessas de igualdade e equidade de renda”, ressalta Ackerman. “As pessoas começaram a olhar para dentro dos valores ‘tradicionais’ e começaram a culpar os sinais mais tangíveis da globalização, ou seja, imigrantes, outras raças. Em suma, o outro.”

Três perguntas para


Richard Jackson, diretor do Centro de Estudos de Paz e Conflitos da Universidade de Otago, na Nova Zelândia

Como o senhor explica essa onda de extremismo de direita?
Nunca há explicações simples para o surgimento de ameaças terroristas, como a atual onda de violência de direita. É uma mistura complexa de fatores que, provavelmente, incluem privação social e desigualdade para certos grupos do sistema capitalista global, o surgimento do populismo e de ideologias de direita em resposta às condições sociais de privação. Há também os fenômenos Trump e Brexit, o senso de ameaça para uma população que se considera privilegiada, mas que está sofrendo o declínio do status, além dos efeitos perniciosos de 18 anos de guerra ao terror, em que os muçulmanos foram demonizados. Importante citar também o impacto da tecnologia de comunicação, a disponibilidade de armas, formas de masculinidade tóxica, racismo estrutural e muito mais.

Isso pode estimular o crescimento do terrorismo islâmico?
Há, definitivamente, um risco de que os ataques de militantes de direita contra alvos islâmicos provoquem uma resposta violenta. No entanto, é importante notar que esse ciclo de violência já dura algum tempo. É por essa razão que o mundo precisa explorar a maneira como responderá ao terrorismo de maneira mais construtiva, para evitar mais derramamento de sangue e violência, e como começará a lidar com os conflitos de maneira mais produtiva.

Como deve ser combatido o extremismo de direita?
Os radicais de extrema direita estão organizando e cometendo ataques da mesma maneira que os radicais violentos sempre fizeram. Isso não é novidade. O perigo é que outros grupos e indivíduos aprendam com os ataques recentes e planejem atentados semelhantes. É que é impossível proteger totalmente uma sociedade contra ataques como esses. Não há  recursos nem habilidade para manter todos seguros. Portanto, temos de descobrir abordagens de contraterrorismo que sejam capazes de convencer as pessoas, primeiramente, a não atacarem os semelhantes.

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