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Correio Braziliense

Incêndio na catedral de Notre-Dame consome 859 anos de história em Paris

Incêndio destrói parcialmente a igreja medieval que representa um tesouro artístico e cultural e é uma das atrações turísticas mais visitadas do mundo. O presidente da França convoca "os maiores talentos" para a restauração


postado em 16/04/2019 06:31 / atualizado em 16/04/2019 06:42

(foto: Francois Guillot/AFP)
(foto: Francois Guillot/AFP)
Foi em meio à comoção mundial provocada por um incêndio devastador, que destruiu parcialmente a catedral medieval que é um dos símbolos de Paris, além de um tesouro para a história da arte, que o presidente da França, Emmanuel Macron, prometeu: “Vamos reconstruir a Notre-Dame”. Ainda enquanto os bombeiros lutavam contra as chamas, empenhados em salvar o inestimável patrimônio cultural presente no edifício, Macron admitiu que estavam pela frente “horas muito difíceis”, mas celebrou as notícias do fim da noite: a estrutura principal, parte dela datada do século 13, estava salva, assim a fachada imponente e duas das torres, embora a principal delas tenha ruído. “O pior foi evitado, mesmo se a batalha ainda não foi completamente vencida”, disse o presidente, visivelmente abalado, depois de cumprimentar os bombeiros e anunciar que “os maiores talentos” da França serão convocados para a restauração.

O fogo irrompeu por volta das 18h50 locais (15h50 em Brasília), e se espalhou rapidamente pela estrutura superior da igreja de quase mil anos de idade. O comandante da brigada de incêndio de Paris, Jean-Claude Gallet, temia pele campanário norte. “Se ele desmoronar, você pode imaginar o tamanho dos danos”, afirmou. Dos pontos mais elevados e das margens do Rio Sena, moradores e turistas assistiram às chamas devorando o teto e lançando uma espessa camada de fumaça amarelada da Île de la Cité, berço da capital francesa, por toda a região central. “Paris está desfigurada. A cidade nunca voltará a ser como antes”, lamentava Philippe, francês de 30 anos.

“É uma loucura! Não posso acreditar, vou chorar”, disse à agência de notícias France-Presse Nathalie, 50. “É inacreditável! Parte de nossa história está desaparecendo”,  desconsolava-se Benoît, 42. Uma parte da Île de la Cité foi interditada pela polícia, que pediu ao público que evitasse a região e deixasse a passagem livre para as viaturas dos bombeiros e das equipes de resgate. A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, reforçou pelo Twitter o apelo das autoridades e lamentou o “terrível incêndio”. A Unesco, agência cultural da ONU, que tem sede na capital francesa, se uniu a líderes internacionais nas manifestações de pesar e solidariedade (leia abaixo).

Turistas

A Catedral de Notre Dame, que recebe cerca de 13 milhões de visitantes por ano, é o monumento histórico mais frequentado da Europa. Pouco antes das 23h (18h em Brasília), centenas de pessoas se reuniram para rezar na ponte Pont aux Changes, em frente ao monumento ainda fumegante. “Estou muito triste”, confessou Stéphane Seigneurie, consultor de 52 anos. “Desde que moro em Paris, esse é um ponto de referência. Venho com frequência. É um lugar extraordinário, que se mistura com a história da França.”
 

Sam Ogden, 50, tinha chegado de Londres na segunda-feira com a mãe, o marido e os filhos adolescentes. A família britânica viajou a Paris especificamente para ver Notre-Dame, como parte de uma sequência de visitas a locais históricos. “Isso é realmente triste, a coisa mais triste que presenciei na minha vida”, contou Sam. Sua mãe, Mary Huxtable, 73, chorava pela oportunidade perdida: “A catedral estava na lista dos monumentos que eu queria ver”.

O sentimento era quase o mesmo com outra família londrina, que tinha planejado visitar Notre-Dame ontem, mas decidiu de última hora mudar a programação e ir à Torre Eiffel. “É devastador”, resumiu Nathalie Cadwallader, 42, que tinha chegado a Paris dois dias antes, com o marido e os dois filhos, para passar uma semana. “É horrível que isso esteja acontecendo.”    

Às margens do Sena, a multidão aglomerada assistia às cinzas caindo e fotografava as cenas com telefones celulares. Um pai mostrava a igreja medieval em chamas para a filha de cerca de 10 anos de idade. “Tem mil anos”, explicava.

“Notre-Dame de Paris, presa das chamas, dor de toda uma nação”
Emmanuel Macron, presiente da França
 
(foto: Eric Feferberg/AFP)
(foto: Eric Feferberg/AFP)
 

Comoção pela perda cultural 

 
A Organização das Nações Unidas para a Cultura (Unesco) puxou a fila das mensagens de solidariedade aos parisienses, e aos franceses em geral, pelo incêndio trágico na Catedral de Notre-Dame. Pelo Twitter, o diretor-geral da agência da ONU, Audrey Azoulay, se colocou “ao lado da França para salvaguardar e reabilitar esse patrimônio inestimável”. Listada no Patrimônio Mundial da Humanidade desde 1991, a catedral gótica construída na Ile de la Cité, no coração da capital francesa, foi devastada pelas chamas na noite de ontem.

“Um importante lugar da fé católica está ardendo em chamas”, lamentou o porta-voz da Conferência dos Bispos da França (CEF), ouvido pela agência de notícias France-Presse, Vincent Neymon. “O incêndio atingiu um símbolo vivo da fé católica”, afirmou o religioso.

A solidariedade foi transmitida de várias partes do mundo assim que as imagens da tragédia começaram a circular pela tevê e pelas redes sociais. “Londres se une à tristeza de Paris, hoje e sempre em amizade”, tuitou o prefeito da capital britânica, Sadiq Khan. “Cenas de partir o coração na Catedral de Notre-Dame em chamas”, completou, usando a hashtag #OurDame.

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, lamentou a destruição de “um símbolo da França e da cultura europeia”. Pelo Twitter, o porta-voz Steffen Seibert disse que a chefe de governo do pais vizinho sente “dor” pelas “imagens horríveis de Notre-Dame em chamas”. “Nossos pensamentos estão com os amigos franceses”, concluiu. 
 

Jóia da arquitetura e da arte medieval


Notre Dame pode até datar do século 12, mas sua origem remonta a quase 20 séculos. As arcadas góticas guardadas pelas gárgulas levaram quase 200 anos para serem construídas e seguiram o modelo da Basílica de Saint-Denis, na qual repousam hoje os restos dos reis da França. Mas o caráter mítico do lugar que abriga a Catedral de ParisNotre Dame vem da época dos celtas, mais conhecidos como parísios, que tinham a Île de la Cité como local de culto por volta do século 1. Paris começou naquele pedaço de ilha no meio do Sena, refúgio perfeito das guerras e batalhas travadas nas margens do rio. Quando os romanos chegaram, e a cidade ainda se chamava Lutécia, ergueram ali um templo em homenagem a Júpiter.

A igreja que ontem pegou fogo começou a tomar forma em 1160, quando o bispo de Paris, Maurice de Sully, deu início à construção de uma catedral portentosa o suficiente para representar a França. A arquitetura em voga era a gótica, cuja característica maior está nas abóbadas cruzadas, uma técnica que permitia sustentar a estrutura graças ao equilíbrio dos arcos, vistos também do lado de fora das construções.

São muitas as jóias que repousam na catedral mais famosa da Europa. Dentro, um órgão com mais de 8 mil tubos está localizado ao fundo da nave. Não é o original. O instrumento foi modificado ao longo dos anos e chegou à configuração atual no início do século 20. Do lado de fora, as gárgulas que misturam formas humanas e animais eram destinadas a escoar a água da chuva.

Os sinos são cinco. O maior deles, conhecido como Bourdon, pesa 13 toneladas e foi instalado há mais de 300 anos. É badalado apenas nas festas santas, como Natal e Páscoa. Na fachada, três rosáceas representam as flores do paraíso, e duas delas têm 13m de diâmetro, um desafio arquitetônico para os engenheiros da época.

A fachada oeste, aquela que se vê de frente quando se chega ao local, é a mais rica em termos de detalhes, com esculturas que representam os santos, os profetas, os reis de Israel e os antepassados de Cristo. O juízo final aparece ali esculpido, assim como os momentos finais da vida de Nossa Senhora. Conhecida como Porta da Virgem, a entrada principal traz uma representação de Maria em sono eterno, rodeada do filho e dos profetas.



Cenário clássico

(foto: AFP)
(foto: AFP)

Anthony Quinn (foto) viveu em 1956 o personagem de Quasímodo, na refilmagem de O corcunda de Notre-Dame, clássico da literatura e do cinema. Nessa versão, ele contracenava com Gina Lollobrigida no papel da cigana Esmeralda, pivô de uma trama em que o deformado sineiro da catedral surge como seu protetor e herói improvável. Em montagem de 1939, os mesmos personagens foram vividos por Charles Laughton e Maureen O’Hara.

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