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Destruição da natureza ameaça a humanidade tanto quanto a mudança climática

Cientistas e diplomatas de mais de 130 países estão reunidos em Paris para adotar a primeira avaliação mundial dos ecossistemas em 15 anos

A mensagem transmitida nesta segunda-feira (29) na abertura de uma conferência mundial sobre a biodiversidade é clara: a destruição da natureza ameaça o bem-estar do homem "ao menos tanto" quanto a mudança climática e merece, portanto, tanta atenção quanto para evitar impactos devastadores.

Cientistas e diplomatas de mais de 130 países estão reunidos até sábado em Paris para adotar a primeira avaliação mundial dos ecossistemas em 15 anos, um sombrio panorama da natureza vital para a humanidade.

"As provas são inegáveis: nossa destruição da biodiversidade e do serviços do ecossistema alcançaram níveis que ameaçam nosso bem-estar ao menos tanto quanto as mudanças climáticas induzidos pelo homem", declarou Robert Watson, o presidente da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).

O grupo de especialistas trabalhou durante três anos em um relatório de 1.800 páginas, que deve se tornar a verdadeira referência científica sobre a biodiversidade, assim como os do IPCC para o clima.

Se a palavra "biodiversidade" às vezes parece abstrata, diz respeito a todas as espécies animais ou vegetais que vivem no planeta, incluindo aquela que se coloca em perigo ao destruir a natureza: o Homem.

E o Homem não pode viver sem essa natureza que lhe presta serviços inestimáveis, desde insetos polinizadores a florestas e oceanos absorvendo CO2, passando pelos medicamentos ou a água potável.

Quanto ao clima, "este mês de abril de 2019 pode marcar o início de uma ;virada parisiense; semelhante para a biodiversidade e as contribuições da natureza para as pessoas", estimou Watson.

Muitos esperam que a avaliação sirva de prelúdio para a adoção de metas ambiciosas na reunião em 2020 na China dos Estados membros da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP15).

Quase nenhuma das 20 metas previamente estabelecidas para 2020, que visam uma vida "em harmonia com a natureza", até 2050, será alcançada, de acordo com resumo preliminar do relatório obtido pela AFP. O relatório final será discutido, alterado e adotado linha a linha pelos delegados antes de sua publicação em 6 de maio.

"O patrimônio ambiental global está sendo alterado a um nível sem precedentes", adverte este texto.

De acordo com o resumo preliminar, várias "evidências independentes apontam para uma rápida aceleração iminente da taxa de extinção de espécies mesmo se os fatores não tenham se intensificado".

Um quarto das 100 mil espécies avaliadas - uma porção mínima das 8 milhões estimadas na Terra - já estão sob ameaça de extinção, sob pressão da agricultura, da pesca, da caça, ou ainda da mudança climática.

E com a aceleração esperada da taxa de extinção, entre 500 mil e um milhão devem estar em risco, "muitas delas nas próximas décadas".

Morrendo

Projeções em consonância com o que alguns cientistas vêm descrevendo há anos: o início da sexta "extinção em massa", a primeira desde o aparecimento dos homens no planeta.

"Este relatório fundamental lembrará todos nós desta verdade: as gerações de hoje têm a responsabilidade de legar às gerações futuras um planeta que não seja irreparavelmente danificado pelas atividades humanas", disse Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco que hospeda a reunião.

"A ciência nos diz o que os nossos sábios vem reportando há décadas: a Terra está morrendo", disse José Gregorio Mirabal, presidente da COICA, uma organização que reúne organizações indígenas da bacia amazônica.

"Nós pedimos urgentemente um acordo internacional para a natureza, para restaurar metade do mundo natural o mais rápido possível", acrescentou, à medida que este relatório global leva em conta pela primeira vez os problemas e prioridades dos povos indígenas.

O texto liga claramente as duas principais ameaças que são o aquecimento global e a destruição da natureza, identificando algumas causas semelhantes, em particular práticas agrícolas e desmatamento, responsáveis por cerca de um quarto das emissões de CO2, bem como danos diretos aos ecossistemas.

Mas dada a escala das reformas a serem implementadas, que implicam uma verdadeira transformação de nossos estilos de vida em um planeta cada vez mais populoso, a resistência pode ser ainda mais forte do que a na luta contra a mudança climática.