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Correio Braziliense

Ao se lançar como vice, Kirchner força adversários a repensar estratégia

Em vídeo, Cristina Kirchner anuncia que concorrerá ao cargo de vice-presidente pela centro-esquerda nas primárias de agosto e abala o cenário político. Ex-chefe de gabinete Alberto Fernández encabeça a chapa que busca disputar eleições de 27 de outubro


postado em 19/05/2019 08:00 / atualizado em 18/05/2019 22:22

Cristina Fernández de Kirchner e o advogado Alberto Fernández (E): para analistas, manobra política força mudança de estratégia do governo Macri(foto: Juan Mabromata/AFP)
Cristina Fernández de Kirchner e o advogado Alberto Fernández (E): para analistas, manobra política força mudança de estratégia do governo Macri (foto: Juan Mabromata/AFP)
O epicentro foi um vídeo de 12 minutos publicado às 9h de ontem no Twitter e no YouTube. O terremoto político foi causado por Cristina Fernández de Kirchner (CFK). Na gravação, uma compilação de imagens dela própria e da realidade sociopolítica de uma Argentina sacudida por grave crise econômica, Cristina anunciou a decisão de não concorrer mais à cadeira principal da Casa Rosada. “Eu pedi a Alberto Fernández que encabece a chapa que integraremos juntos. Ele, como candidato a presidente, e eu, como candidata a vice, para participar nas próximas eleições primárias (em agosto), abertas, simultâneas e obrigatórias”, declarou CFK, que ocupou a Presidência da Argentina entre 2007 e 2015.

Ex-chefe de gabinete dela e de Néstor Kirchner, Alberto Fernández provém da linha moderada do peronismo. A aliança conduz a chapa Fernández-CFK da esquerda para o centro e é vista por analistas como uma jogada política com alto potencial de sucesso e voltada a desviar o foco sobre o julgamento de Cristina por corrupção em obras públicas — a primeira audiência no tribunal deve ocorrer na terça-feira. Caso seja avalizada nas primárias de 11 de agosto, a chapa chega às eleições gerais de 27 de outubro com chances reais de vitória, segundo analistas consultados pelo Correio.

O vídeo de CFK é carregado de dramaticidade. Começa com o barulho do vento e uma bandeira argentina tremulando em meio a uma paisagem bucólica composta de montanhas e lago. Cristina aproveita a mensagem para enviar aos eleitores uma advertência sobre a complexa situação vivida pelo país. “Os tempos que estamos vivendo agora para os argentinos são realmente dramáticos. Nunca tantos e tantas dormiram nas ruas, com problemas de comida e de trabalho ou desesperados, chorando diante de uma conta de luz ou gás que não têm como pagar”, disse. A ex-presidente lembrou que, como chefe de gabinete, Alberto Fernández ajudou Néstor Kirchner a governar durante “tempos muitos difíceis”. “Alberto, a quem conheço há mais de 20 anos e, é certo, com quem tivemos, também, diferenças.”

O atual presidente Mauricio Macri reagiu à decisão de CFK com tom catastrófico. “O passado somente irá nos destruir. Voltar ao passado seria nos autodestruir. O presente e o futuro mudam todos os dias”, declarou, ao participar de um ato em Buenos Aires. “Estamos no rumo correto. Vamos fazer melhor, muito melhor. Nós precisamos disso, eu preciso disso”, desabafou, diante de partidários da coalizão de centro-direita Cambiemos, fundada em 2015.

Estratégia


Para Miguel De Luca, cientista político da Universidad de Buenos Aires (UBA), o anúncio da chapa Fernández-CFK é uma “surpresa muito bem guardada”. Segundo ele, a própria escolha por Alberto Fernández ofusca a confirmação de que Cristina concorrerá como vice, pois o nome do advogado nem sequer era sondado. “O movimento de Cristina obriga a mudanças de estratégia por parte do governo Macri e também de peronistas não alinhados a ela, como o ex-ministro da Economia Roberto Lavagna; o governador da província de Córdoba, Juan Schiaretti; e o também ex-chefe de gabinete Sergio Massa”, afirmou. De Luca vê a possibilidade de a chapa de CFK conquistar a eleição ainda no primeiro turno. “Em 2015, o candidato da Frente para a Vitória, Daniel Scioli, obteve 37% dos votos no primeiro turno, enquanto Macri teve 34%. Em outubro de 2019, a chapa Fernández-CFK poderia alcançar os 40 pontos percentuais e tirar vantagem de mais de 10 pontos sobre a aliança Cambiemos, de Macri. Isso significaria uma vitória no primeiro turno”, explicou.

Diretor do Departamento de Ciência Política e de Estudos Internacionais da Universidad Torcuato Di Tella (em Buenos Aires), Enrique Peruzzotti classifica a jogada política de Cristina de “inesperada”. “Ela desconcerta tanto o governo quanto o restante da oposição. Com o anúncio, a ex-presidente toma a iniciativa e desfere um golpe quase mortal no chamado ‘panperonismo’. A impressão é a de que, depois desse movimento, as candidaturas de Massa e de Lavagna foram gravemente feridas. As perspectivas de uma candidatura do peronismo federal também se enfraquecem, devido à mudança para o centro da chapa Fernández-CFK. Resta ver se a sociedade considera tal mudança crível ou não”, disse à reportagem.

Por sua vez, Marcos Novaro, também cientista político da UBA, entende que Cristina anteviu que sua situação no âmbito judicial se complicou nas últimas horas. “Ela pretendia adiar o próprio julgamento, mas não teve êxito. O fato de ter de comparecer às audiências orais no tribunal complicaria muito a sua campanha. Ela se apresentará à Justiça como impedida de disputar a Presidência, mas não creio que darão crédito a uma estratégia de vitimização”, comentou. O especialista alerta que Alberto Fernández não conta com votos próprios, nem goza de imagem pública. “Ele passou os últimos 10 anos atacando CFK e culpando a ex-presidente por não ter se aproveitado do legado do primeiro mandato de Néstor Kirchner. O papel de Alberto de crítico arrependido é pouco convincente, inclusive para os kirchneristas.”


"O passado somente irá nos destruir. Voltar ao passado seria nos autodestruir. O presente e o futuro mudam todos os dias”
Mauricio Macri, presidente da Argentina


Pontos de vista

Por Miguel De Luca

Mais chances de sucesso
“A chapa presidencial Alberto Fernández-Cristina Fernández de Kirchner amplia as possibilidades de triunfo eleitoral. Por um lado, essa aliança mantém os apoios dos quais Cristina se beneficiava. Por outro lado, abarca dirigentes peronistas moderados, que conservam um bom diálogo com Alberto. A decisão também afasta as críticas sofridas pela própria ex-presidente. O anúncio em vídeo e o texto usado para transmitir a notícia indicam que Cristina vinha amadurecendo tal decisão havia algum tempo. No entanto, o processo judicial em curso também pode ter pesado.”
Cientista político da Universidad de Buenos Aires  (UBA)


Por Enrique Peruzzotti

Julgamento em segundo plano
“O julgamento da ex-presidente Cristina Kirchner é um incentivo para preservar privilégios e buscar uma futura impunidade, mas a campanha eleitoral poderá surgir como um ativo. O governo de Mauricio Macri apostou que Cristina se apresentaria como cabeça da chapa, pois pretendia tê-la como principal adversária. No entanto, o julgamento, assim como as questões de corrupção, ficam em segundo plano em um contexto eleitoral. Agora, o que importa é a Cristina candidata, não a Cristina processada.”
Diretor do Departamento de Ciência Política e de Estudos Internacionais da Universidad Torcuato Di Tella (em Buenos Aires)


Por Marcos Novaro

Uma cortina de fumaça
“Foi uma oportunidade criada  por Cristina para deixar o protagonismo da crise na qual se encontra, tanto no âmbito jurídico quanto na relação com os peronistas seguidores de seu falecido marido, Néstor Kircher. A princípio, não acredito que ela tenha muitas chances. Haverá muitas dificuldades em convencer os eleitores moderados. A aliança com Alberto Fernández não é uma boa estratégia eleitoral. Ninguém imagina Alberto desmentindo, em debates, as críticas despejadas sobre Cristina na última década.”
Cientista político da Universidad de Buenos Aires  (UBA)



Trechos do vídeo de CFK


“Hoje, sábado, 18, começa a Semana de Maio. No próximo dia 25, data de nossa Pátria, se completam 16 anos do dia em que Néstor assumiu como presidente de um país devastado.”

“Quero dirigir-me aos meus compatriotas para compartilhar, omo sempre, reflexões e também, claro, decisões.”

“Depois de ter sido duas vezes presidenta deste país, sua primeira mulher eleita como tal, e de ter ocupado distintos cargos legislativos, sempre pela vontade popular expressada nas urnas, sigo mais convencida do que nunca de que a expectativa ou a ambição pessoal tem de estar subordinada ao interesse geral.”

“Eu pedi a Alberto Fernández que encabece a chapa que integraremos juntos. Ele, como candidato a presidente, e eu, como candidata a vice, para participar nas próximas eleições primárias, abertas, simultâneas e obrigatórias (em 11 de agosto).”

“Alberto, a quem conheço há mais de 20 anos e, é certo, com quem tivemos, também, diferenças. Tão certo como que foi chefe de gabinete de Néstor durante toda sua presidência e o vi, junto a ele, decidir, organizar, acordar e buscar sempre a maior amplitude possível do governo.”


De aliado a crítico

Advogado, professor adjunto de direito penal, funcionário técnico durante o governo de Raúl Alfonsín, Alberto Fernández, 60 anos, é praticamente um novato nas eleições. Ele concorreu uma única vez a um cargo em 2000, quando fez parte da lista de legisladores da Alianza Encuentro por la Ciudad, encabeçada por Domingo Cavallo como candidato a presidente. Foi derrotado. Graças à mediação na crise política de 2001, foi convidado pelo presidente Néstor Kirchner à chefia de gabinete. Nessa posição, desempenhou a interlocução com empresários e com a oposição e acabou mantido no posto durante a gestão de Cristina Fernández de Kirchner (CFK).

De aliado incondicional do kirchnerismo, Alberto Fernández passou à posição de crítico voraz. Rompeu com CFK em 2008, e a acusou de perder o contato com a realidade. “Ela chegou a dizer que a Alemanha estava pior do que nós, em matéria de pobreza. Sustentou até o fim que o controle de câmbio não existia e que a inflação não importava. Isso é uma negação obstinada e, às vezes, absurda”, atacou. No entanto, quando Cristina lançou o seu livro de memórias, intitulado Sinceramente, Alberto esteve na primeira fila e a aplaudiu. O aliado que se tornou crítico agora retoma o casamento político com a “Senhora”.
 
 

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