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Massacre da Praça da Paz Celestial: veja o relato de sobreviventes

[FOTO1394950]Na madrugada de 4 de junho de 1989, milhares de soldados e tanques de guerra invadiram a Praça Tiananmen (também conhecida como Praça da Paz Celestial) por todos os cantos. Enquanto os militares disparavam a esmo, os blindados de combate atropelavam estudantes desarmados, que ocupavam o coração de Pequim para exigir democracia e abertura política.

[SAIBAMAIS]As informações sobre os números de mortos são desencontradas. Enquanto a China admitiu "quase 300 mortos", o Embaixador do Reino Unido em Pequim, na época, citou cerca de 10 mil, enquanto a Cruz Vermelha Chinesa falou em 2.700.

No 30; aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, o Correio entrevista quatro sobreviventes do episódio. Leia a seguir seus relatos:

Wuer Kaixi, 51 anos, dissidente chinês, hoje vive exilado em Taipei (Taiwan)

"Na noite de 3 de junho de 1989, o regime chinês deu ordens ao Exército para limpar as ruas e a Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial) a todo custo. Eles usaram munições reais, e tanques passaram por cima de pessoas. Foi um dos períodos mais sangrentos da história moderna. O massacre de Tiananmen colocou a China de volta à direção oposta da abertura e da reforma, para além da democracia e da liberdade civil. Também estabeleceu o medo na China. É isso o que o regime chinês tem usado para comandar o país nos últimos 30 anos: medo e mentira.
A razão pela qual o regime decidiu levar adiante o massacre foi porque viram o risco de perderem o controle do poder. O verdadeiro caráter do Partido Comunista da China é apenas um grupo de bandidos que roubou a posição para governar um dos maiores países do mundo, para saqueá-lo. Sabendo disso, a decisão deles não surpreenderá ninguém. Infelizmente, o mundo ainda falha em vê-los assim. O regime governa a China com mentiras. Qualquer informação sobre Tiananmen vai penetrar essa fina mentira."

Fang Zheng, 53 anos, vive em São Francisco. É motorista de Uber e trabalha com a Airbnb. Perdeu as duas pernas no massacre, ao ser atropelado por um tanque de guerra.

"Era apenas um participante comum do Movimento Tiananmen. Eu era estudante na Universidade de Esportes de Pequim. Não fui um líder nem tive muito impacto. No começo, atuei como observador e, gradualmente, me tornei um participante ativo, assim como muitos se envolveram em responder à forma como o governo chinês lidava com as demandas estudantis. Comecei a me envolver mais depois que os estudantes começaram a greve de fome, ainda que eu não tenha participado dela. EU bloquei caminhões militares e protestei depois da declaração da Lei Marcial. E me tornei um dos membros determinados a ocupar a Praça Tiananmen até o massacre.
Depois de ficar dois dias na universidade, retornei a Tiananmen na manhã de 3 de junho, depois que um grupo de quatro pessoas começou nova greve de fome na véspera. Uma delas era Liu Xiaobo, que ganhou o Nobel da Paz em 2010. Na tarde de 3 de junho, a atmosfera na praça era bizarra. Senti algo anormal, quando nós bloqueamos cerca de 500 soldados que vinham de uma saída secreta do subsolo, no lado oeste do Grande Salão do Povo. As tropas não carregavam armas. Os soldados e os civis lançaram pedras uns contra os outros. Houve feridos de ambos os lados. Eu era membro da linha de piquetes dos estudantes e tentava acalmá-los. À noite, as transmissões na CCTV soaram sinistras, como se os assassinatos fossem iminentes. Imaginamos que aquele seria um momento crucial, queríamos testemunhar a história e estávamos determinados a permanecer na praça, que se tornara nossa base e símbolo do movimento estudantil.

Ficamos na praça, enquanto as tropas nos cercavam. Uma jovem estudante de nossa universidade veio até mim e parecia assustada. Pedi a ela que ficasse do meu lado. Mais tarde, as tropas e os tanques entraram em Tiananmen de todas as direções e nos cercaram. Estávamos sentados ao norte do Monumento aos Heróis do Povo. Às 4h30, fomos expulsos. Então, caminhamos para a Avenida Chang;an (Avenida da Paz Eterna) rumo a oeste, onde ficava a nossa universidade. Éramos cerca de 2 mil estudantes. Às 6h, chegamos à avenida. Em uma área chamada de Liubukou, fomos emboscados e perseguidos por tanques. Não previmos o ataque, pois tudo estavam bem calmo, apesar de escombros e de manchas de sangue pelas ruas, além de caminhões militares em chamas. Não havia confronto entre civis e tropas.

Então, bombas de gás venenoso explodiram, lançadas pelos tanques. Estávamos na ciclovia no lado sul da Avenida Chang;an. Havia muita fumaça e eu não podia ver muito. Comecei a sufocar pelo gás. A estudante que estava comigo entrou em pânico e desmaiou. Eu a levantei até a calçada e ajudei-a a apoiar-se na cerca, entre a ciclovia e a calçada. Foi um gesto muito rápido. Eu estava atrás dela. Então, caí quando o tanque se aproximou de nós. Não havia como escapar. Não pude vê-lo na fumaça. Eu me virei e vislumbrei o soldado apontado o canhão do tanque para mim. O tanque passou por sobre minhas pernas. Não senti qualquer dor na hora. Apenas que minhas pernas estavam sendo espremidas. Minha mente estava clara. Minhas roupas e calças estavam misturadas aos trilhos do tanque, enquanto ele me arrastava para a frente, até que tombei. Eu me encostei na cerca e desmaiei. Quando acordei, estava no hospital.

Dois estudantes de nosso grupo foram atingidos por um tanque por atrás. A colega que estava comigo ficou esmagada e se transformou um monte de carne. Outro cara teve os quadris esmagados e ficou hospitalizado por um ano. Acredito que, à medida que o Partido Comunista da China enfraquecer, as pessoas vão superar seus medos e falar sobre o que aconteceu em Tiananmen. O 30; aniversário é uma oportunidade para elas se manifestarem."

Fengsuo Zhuo, 51 anos, vive hoje em Newark (Nova Jersey, EUA). Cofundador e presidente do Humanitarian China e líder estudantil durante os protestos em Tiananmen. Foi estudante de física na Universidade Tsinghua. Era o número 5 na lista dos mais procurados após o massacre. Ficou um ano na prisão e comandou uma ação civil contra o ex-premiê Li Peng, em 2000

"O governo chinês cometeu crimes hediondos no massacre de Tiananmen. As autoridades são caçadas pelo fantasma de Tiananmen. Não importa o quão poderoso o Partido Comunista da China pareça, ele perdeu a legitimidade por completo. Por isso, teme lembrar Tiananmen. A repressão mostra que o povo chinês se recorda do que ocorreu 30 anos atrás.

Eu passei a noite de 3 de junho de 1989 perto do Monumento aos Heróis do Povo, no centro da Praça Tiananmen. Pude sentir o odor do gás lacrimogêneo assim que me aproximei pela primeira vez de Tiananmen, no dia 3. Na madrugada, ouvi tiros disparados de todos os cantos da praça, além de helicópteros sobrevoando a região. Era como uma zona de guerra, exceto o fato de que éramos apenas estudantes e não havia armas. Vi tropas e tanques de guerra, além de blindados com metralhadoras. Por volta das 5h de 4 de junho, fomos expulsos de Tiananmen. Os tanques estavam a apenas 3m de mim. Fui espancado com bastões e com coronhadas. No caminho de volta para a Universidade Tsinghua, vi 40 corpos colocados no chão perto de um hospital. Provavelmente, o hospital estava tão lotado que tiveram de colocar os cadáveres do lado de fora.

Dez dias depois do massacre,vi o meu nome na lista dos mais procurados. Eu era o número 5 de 21 líderes estudantis caçados pelo governo. Fiquei chocado e profundamente orgulhoso de mim mesmo, pois eu acreditava que era um grande movimento.

O governo comunista escolheu um caminho errado ao assassinar manifestantes pacíficos. Por isso, bloqueou para sempre o rumo para uma transformação de poder pacífica. Hoje, temos campos de concentração e advogados são presos. Isso tem raízes em 1989. As demandas de três décadas atrás ainda são muito importantes para a China de hoje.

O massacre foi planejado em abril de 1989. Den Xiaoping somente falou sobre matar estudantes apenas 10 dias depois de começarmos os protestos. Mais de 300 mil soldados foram usados no cerco a Pequim. Eles planejaram a invasão de sua própria capital. Parece que tudo foi planejado por Deng Xiaoping e por uma minoria dentro do Partido Comunista.

Eles ficaram com medo dos manifestantes, pois o que queríamos, a democracia, colocaria fim ao monopólio do poder e à sua capacidade de corrupção. A democracia estava tão próxima, estávamos perto de alcançá-la. Sofri pequenas lesões no braço e nas costas. Nunca saberemos o número exato de mortos. Algumas famílias simplesmente desapareceram nos últimos 30 anos. O massacre é um estigma para muitas famílias de sobreviventes. O massacre de Tiananmen colocou a causa da China comunista na repressão brutal a todas as frentes dos direitos humanos. A liberdade de expressão foi sistematicamente privada."

Chan Ching Wa Jonathan, 54 anos, assistente social. Era um dos delegados da Federação de Estudantes de Hong Kong. Viajou a Pequim em 26 de maio para oferecer apoio ao movimento

"Eu estive em Tiananmen das 21h de 3 de junho às 4h30 de 4 de junho. Às 21h, nós partimos para o Museu Nacional da China, no lado oriental da praça. De braços dados, nos juntamos a cerca de outros 50 estudantes e trabalhadores, esperando nervosamente enquanto os soldados se aglomeravam nos degraus do prédio.

Cantamos A Internacional, um hino dos partidos socialistas e de esquerda, bem como do Partido Comunista da China. Era quase uma cena surreal, especialmente a visão de um jovem garoto lendo um livro à luz dos semáforos. ;Não se preocupem, eles não nos machucarão. Nós temos de permanecer calmos e pacíficos. Quem na Terra atiraram em nós?;, disse o jovem. Então, ouvimos disparos e a voz trêmula de um homem no alto falante: ;Eu estou segurando a camisa manchada com o sangue de meu colega. Eles estão começando a nos matar. O que vamos fazer agora?;.

Os feridos e mortos apareciam com frequência maior, eram carregados até um posto de atendimento improvisado pelo Hospital da Faculdade de Medicina da Universidade de Pequim. Por volta das 23h30, escutamos um grito. Um jovem corria atrás de uma ambulância. ;Meu irmão, meu irmão!”, clamava. ;Eles mataram o meu irmão!”, disse, desmaiando nos braços de minha colega Liane Lee. Pouco depois, ele despertou e tornou a perseguir a ambulância. Lee desmaiou. Ao recobrar a consciência, vimos o menino novamente. Estava sendo carregado para a praça, sem vida.

Eu me juntei a outros estudantes de Pequim para erguer uma barricada de tanques improvisada, usando peças de metal que dividem as avenidas. Fui tolo o bastante para tentar documentar o que estava ocorrendo. Ao caminhar de modo proposital a uma linha de soldados, fui rapidamente cerca por seis ou sete militares que me golpearam com bastões. Para colegas, a câmera salvou minha vida. Eles pensavam que eu fosse jornalista.

Às 4h15, uma ambulância se aproximou de nós e uma médica nos empurrou para dentro, dizendo: ;Por favor, entre. Você precisa deixar a praça em segurança, voltar a Hong Kong e revelar ao mundo o que aconteceu esta noite, o que o governo fez conosco;. Chegamos a um hospital na Rua Chongwenmennei. Testemunhamos um fluxo interminável de estudantes e civis feridos à bala, muitos já mortos. Era uma cena do inferno. Ficamos no hospital e distribuímos dinheiro para os menos feridos, para que pudessem ter uma chance de tentar escapar de Pequim, antes que as prisões em massa começassem. Deixamos o local às 17h e presenciamos a carnificina nas ruas de Pequim, mais parecida com uma zona de guerra.

O massacre serviu como um severo aviso a todos aqueles que aspiravam por mudanças democráticas ou mesmo reformas na estrutura política e na governança do país: o Partido Comunista da China está disposto a matar, matará e assassinou, aprisionou e silenciou todos aqueles tiveram a menor dúvida sobre o poder absoluto e a autoridade dele. Trata-se de uma clara e flagrante inversão da relativa abertura que a autoridade expressou nos anos anteriores a 1989. Nos tempos áureos, entre 1984 e 1988, discussões abertas sobre a democracia não somente foram permitidas como encorajadas, como ficou evidente no documentário Rio de tristeza, transmitido pela emissora estatal CCTV em junho de 1988. No último episódio, ele pedia um abraço da democracia e da liberdade do ;oceano; (metáfora da democracia de estilo ocidental), enquanto abandonava o autocrático e autoritário Rio Amarelo (uma metáfora antiga para a cultura chinesa).

O massacre foi premeditado desde o começo. A ordem precisa para a entrada do Exército Popular de Libertação para limpar a praça à força foi evidente na primeira tentativa frustrada, três semanas antes de 4 de junho (de 19 a 21 de maio). Eles falharam a primeira vez devido a uma combinação de reações rebeldes de chefes do Exército, à falta de coordenação nas operações e um briefing ineficaz. A prova final de que não foi uma ação mal calculada estava no discurso de Deng Xiaoping. Em 9 de junho, ele visitou os chefes do Exército envolvidos mo massacre e transmitiu a seguinte mensagem: ;Esse evento é antecipado e não seria descarrilado por nossa própria vontade. É melhor que venha agora e não depois. Eles (estudantes) desejam um fim para este país e para este partido. Eles querem democracia, uma república de democracia ao estilo ocidental;. A mensagem de Deng Xiaoping era clara para todos aqueles que se importavam em ouvir: os estudantes aspiram pela democracia; o Partido os esmagou, fim da história.

O Partido Comunista é mais eficiente em silenciar todas as discussões sobre o 4 de junho na internet. Eles construíram o Grande Firewall da China para proteger sua própria versão da internet de influências externas. Com o advento de celulares chineses, como Huawei e Xiaomi, todos os usuários de internet na China têm monitorados, em tempo real, o movimento e a fala. Todos os vestígios do evento de 4 de junho e da subsequente repressão sangrenta estão efetivamente apagados da versão chinesa na internet."