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Correio Braziliense

Tensão diplomática eleva o risco de guerra entre Estados Unidos e Irã

Ao ser acusado de "retardo mental" pelo Irã, presidente Donald Trump sobe o tom e adverte que responderá a novo ataque com "força esmagadora". Líder iraniano condena a imposição de sanções ao aiatolá e assegura não ter medo dos EUA


postado em 26/06/2019 06:00

Moradora de Teerã caminha diante de grafite com referência à Estátua da Liberdade, em muro da Embaixada dos Estados Unidos: tensão crescente(foto: Atta Kenre/AFP)
Moradora de Teerã caminha diante de grafite com referência à Estátua da Liberdade, em muro da Embaixada dos Estados Unidos: tensão crescente (foto: Atta Kenre/AFP)
O presidente do Irã, Hassan Rouhani, deixou a diplomacia de lado e sugeriu que o norte-americano Donald Trump sofre de “retardo mental”, ao comentar a nova rodada de sanções anunciada nesta segunda-feira (24/6) pelos Estados Unidos. “Como uma pessoa pode perder tanto a cabeça e fazer algo tão ultrajante e idiota, ao sancionar o líder de um país? Eles estão sofrendo de retardo mental. A Casa Branca é atingida por retardo mental e não sabe o que fazer”, declarou Rouhani. O magnata republicano não reagiu bem à retórica de Teerã, qualificou de “muito ignorante” e “insultuosa” a declaração e renovou as ameaças de um conflito militar. “Isso apenas mostra que eles (iranianos) não entendem a realidade. Qualquer ataque do Irã a qualquer coisa americana será respondido com força esmagadora. Em algumas áreas, esmagadora significará a obliteração”, advertiu Trump. 

A linguagem belicosa não parece ter incomodado o chefe de Estado do Irã. “Nós dizemos que temos uma paciência estratégica; nossa paciência é estratégica; a paciência é diferente do medo. Não temos medo dos Estados Unidos”, retrucou Rouhani. De acordo com a agência de notícias estatal iraniana Isna, Rouhani assegurou que, caso os americanos violem o espaço aéreo e as águas territoriais do Irã, as suas forças armadas darão uma resposta decisiva. “O Irã não tem interesse em aumentar a tensão na região e nunca busca guerra com nenhum país, incluindo os Estados Unidos. Nós sempre fomos comprometidos com a paz regional e a estabilidade e faremos esforços nesse sentido”, afirmou o iraniano, durante conversa telefônica, nesta terça-feira (25/6), com o colega francês, Emmanuel Macron. 

De fato, a tensão no Estreito de Ormuz se intensificou na última quinta-feira, quando o sistema de defesa antiaéreo do Irã derrubou um avião espião norte-americano avaliado em US$ 110 milhões (cerca de R$ 422 milhões).

Rouhani colocou em xeque a disposição da Casa Branca de abrir um canal diplomático direto com Teerã. “Você diz que realmente deseja conversar conosco, mas, ao mesmo tempo, está dizendo que quer boicotar e sancionar nosso ministro das Relações Exteriores. Então, está mentindo”, disse. 

Em uma série de tuítes, Trump comentou que a liderança iraniana “não compreende as palavras ‘legal’ ou ‘compaixão’”. “Eles nunca tiveram (isso). Infelizmente, a coisa que eles entendem é força e poder. Os Estados Unidos são, de longe, a mais poderosa força militar no mundo, com US$ 1,5 trilhão investidos nos últimos dois anos”, escreveu. “O maravilhoso povo iraniano está sofrendo, e não há razão para isso. Sua liderança gasta todo o dinheiro no terror e pouco em quaisquer outras coisas. Os EUA não se esqueceram dos IEDs e dos EFPs (bombas) que mataram 2 mil americanos e feriram muitos .”

Direitos humanos

Por meio do Twitter, o Ministério das Relações Exteriores do Irã atacou a decisão de Trump de punir o regime teocrático islâmico. “Impor sanções ao mais alto líder espiritual, político, social e religioso de um país é um ato ridículo. O que os Estados Unidos estão fazendo é um gesto contra os direitos humanos. Não acreditamos que os Estados Unidos estejam buscando negociações genuínas com o Irã, pois negociações genuínas nunca viriam de uma pessoa como Trump. A sinceridade é algo muito raro entre autoridades norte-americanas”, afirmou a chancelaria.

Especialista em Irã pelo International Crisis Group (ICG, em Bruxelas), Naysan Rafati explicou ao Correio que a guerra de palavras entre Teerã e Washington é reflexo da tensão mais ampla entre os dois lados, a qual tem aumentado significativamente ao longo das últimas semanas. “Os Estados Unidos adotaram uma política de ‘pressão máxima’ contra o Irã. No entanto, em vez de produzir concessões iranianas, isso parece estar levando a uma tensão maior nas frentes nuclear e regional. O risco é o de que ambos continuem a intensificar a retórica, em vez de tentar encontrar maneiras de neutralizar a situação.”

Palavra de especialista

Punição à economia

“As sanções têm sido o principal elemento da estratégia dos EUA, e elas se mostram capazes de infligir danos significativos à economia iraniana. A venda de petróleo despencou. Para Washington, as sanções ao aiatolá Ali Khamenei e aos comandantes da Guarda Revolucionária têm dois tipos de impacto: enviam uma mensagem à liderança do Irã e tornam possível atingir aliados de Teerã. Sob a perspectiva iraniana, elas representam outra provocação, que faz com que  os convites dos EUA à diplomacia pareçam ocos.
Os iranianos se frustraram com o que creem ser um acordo nuclear que pede muito deles, por limitar o programa atômico. Então, começaram a reduzir a conformidade com o pacto, na esperança de que outras partes intensifiquem os esforços para fornecer alívio econômico a Teerã.”, Naysan Rafati, especialista do International Crisis Group (ICG).

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