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Correio Braziliense

Revolução Sandinista: três ex-comandantes da guerrilha falam ao Correio

Quatro décadas depois da insurreição popular, eles acusam o presidente Daniel Ortega, antigo companheiro de armas, de liquidar os ideais e de instituir nova ditadura no país


postado em 14/07/2019 14:14 / atualizado em 14/07/2019 14:27

Dora María Téllez, uma das comandantes da guerrilha sandinista na Nicarágua(foto: Arquivo pessoal)
Dora María Téllez, uma das comandantes da guerrilha sandinista na Nicarágua (foto: Arquivo pessoal)
Às vésperas do 40º aniversário da Revolução Sandinista, na sexta-feira, a Nicarágua vê os ideais do movimento serem destruídos por um de seus líderes guerrilheiros. Em entrevista exclusiva ao Correio, três dos comandantes que ajudaram Daniel Ortega a pôr fim a 45 anos de ditadura da família Somoza acusam o presidente de impor uma tirania  sangrenta, a qual custou 325 mortos, 2 mil feridos e 35 mil exilados, desde o início dos protestos contra a reforma da previdência social, em abril de 2018. 

Ortega, Monica Baltodano, Dora María Téllez e Luis Carrión Cruz se inspiraram no revolucionário Augusto César Sandino (1895-1934) para libertar o país do jugo de Anastasio Somoza Debayle, um direitista apoiado pelos EUA. A insurreição liderada pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) levou não apenas à queda dos Somoza, com combates e bombardeios aéreos, mas também a uma profunda reestruturação das instituições e do tecido social da Nicarágua. 

Os três ex-líderes sandinistas relataram os momentos mais tensos da revolução, discorreram sobre a campanha e não pouparam críticas ao ex-companheiro de armas Daniel Ortega. Em 19 de julho de 1979, o trio e outros combatentes entraram ovacionados em Manágua, como se anunciassem novos tempos. Quatro décadas depois, a decepção e a nostalgia são inevitáveis. “Um dos grandes problemas da ditadura de Ortega-Murillo foi a destruição de parte do legado da Revolução Sandinista”, disse Dora María Téllez, ao citar o presidente e a vice (também primeira-dama), Rosario Murillo.

Eles fizeram parte da história 

> Monica Baltodano, 64 anos, ex-comandante guerrilheira na ofensiva final contra a ditadura Somoza, entre 1978 e 1979

“Na minha luta contra a ditadura, estive por cinco anos como clandestina, um ano como prisioneira e, no fim, fui uma das três integrantes do Estado-Maior de Manágua, cuja força protagonizou, depois da ‘Retirada’, a tomada de Jinotepe e de Granada. Por isso, fui uma das três mulheres reconhecidas com o grau de ‘comandante guerrilheira’. Quando a revolução triunfou, eu tinha 24 anos. Minhas primeiras tarefas foram na Secretaria de Massas, que impulsionou a organização popular. Depois, fui ministra para Assuntos Regionais e ajudei a fortalecer a presença do Estado nos territórios. Meu papel foi importante na promoção da democracia local. 

Um dos momentos mais difíceis da revolução foi em 1984, com a invasão norte-americana à Ilha de Granada. Todo o país se preparou para a segunda invasão estrangeira ao nosso território. Eu fui escolhida para ser secretária do Conselho Supremo de Defesa da Pátria. Fomos às montanhas da Nicarágua para ver os locais onde se estabeleceria a resistência. Foi muito duro. A sensação era de que a guerra viria. Além disso, eu estava gestante e isso me afetou. Outro momento muito duro foi quando caiu um helicóptero repleto de crianças, os ‘mártires de Ayapal’. Foi duríssimo.

A Nicarágua de 1979 causou assombro e admiração. A Nicarágua da atual crise, dirigida por Daniel Ortega, é o cenário da mais brutal e covarde repressão do poder sobre um povo desarmado. É o de um país convertido em prisão, sem lei nem direitos. Uma nação ocupada pelo terror orteguista. Daniel Ortega é culpado de crimes de lesa-humanidade e das mais graves violações aos direitos humanos. Durante a sublevação cívica, não armada, de abril do ano passado, as multidões gritavam em todo o país: ‘Qual o caminho? Que se vá esse filho da p...’. Ortega é o responsável pela crise atual, pelos crimes, torturas e violações. Pela corrupção estatal, pela destruição da democracia e da economia do país.

A revolução instituiu a direção coletiva do processo. Tínhamos uma direção de nove membros. Ortega liquidou essa direção coletiva e se autonomeou dirigente único. Ele liquidou a direção e fez desaparecer a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), convertendo-a em entidade dotada de nova organização vertical e caudilhista, que obedece apenas a Ortega e à sua mulher. Foi a responsável pelas fraudes eleitorais municipais e presidenciais de 2008, 2011, 2016 e 2017.

A revolução proclamou a economia mista com seu projeto econômico. Ortega fez desaparecer as empresas públicas. Não há riqueza pública. Tudo pertence ao setor privado. Os princípios e a ética da revolução não permitiam aos dirigentes o acúmulo de riqueza privada. Ortega é, hoje, um dos homens mais ricos do país. A revolução nacionalizou e protegeu os recursos naturais estratégicos do país, florestas, águas, minérios etc. Ortega os entregou, na forma de concessões, ao capital estrangeiro. A revolução derrotou a guarda pretoriana dos Somoza. Iniciou-se um processo que se aprofundou, na década de 1990, para ter um exército e uma polícia não beligerantes. Ortega converteu a Polícia Nacional em um monstruoso aparato de repressão. O sandinismo estabeleceu as bases ideológicas progressistas como mote. Ortega ideologicamente nos remeteu 
à Idade Média e à era do absolutismo.

> Dora María Téllez, 63 anos, historiadora, ex-guerrilheira e uma das líderes da Revolução Sandinista, a Comandante 2

“Fui comandante guerrilheira da Frente Ocidental Rigoberto López Pérez, durante os anos da Revolução Sandinista. Fiz o trabalho de organização política e, depois, no Ministério da Saúde. Foi uma circunstância histórica excepcional. No Ministério da Saúde, creio que foi possível contribuir em algo com a condição dos nicaraguenses naquele momento. Todo o processo prévio de derrocada da ditadura foi muito complexo. Nós optamos pela luta armada por não existir nenhuma outra alternativa a 40 anos de ditadura. O que fazemos agora é tratar de desalojar essa nova ditadura por meio da luta cívica.

O momento mais difícil para mim, no processo revolucionário, foi quando mataram companheiros em León, em abril de 1979. Eles eram a cabeça desse departamento (estado) e todos os seis foram assassinados em uma operação do Exército. Nossa abordagem sobre a ditadura de Ortega-Murillo reclama o sacrifício de todos os jovens que lutaram contra a ditadura de Somoza, justamente para que não houvesse outra tirania na Nicarágua. 

Ante as condições atuais da Nicarágua, o balanço sobre a Revolução Sandinista se mostra complexo. Um dos grandes problemas da ditadura da família Ortega-Murillo foi a destruição de parte do legado da Revolução Sandinista. Em material institucional, tal legado incluiria a possibilidade de evolução de um Exército Nacional e de uma Polícia Nacional profissionais. A ditadura de Ortega-Murillo alinhou essas instituições ao regime e as converteu em instrumento de repressão. No caso do Exército, ele permitiu que forças paramilitares do orteguismo atuassem impunemente, assassinando e perseguindo nicaraguenses. 

Ficou uma parte importante da reforma agrária, no que diz respeito à distribuição de terras para camponeses individuais. A distribuição de terras melhorou muito, assim como a estrutura da posse agrária. Na política social, dois aspectos essenciais tiveram importante evolução entre 1979 e 2007: a saúde e a educação. Em matéria de educação, houve uma cobertura quase universal do ensino primário e um avanço importante nos ensinos secundário e universitário. No caso da saúde, destaco as políticas preventivas. Essas políticas sociais foram desmanteladas pela ditadura de Ortega.

A Nicarágua enfrenta uma ditadura dinástica, em regra e forma, que usa o poder das armas para se sustentar. Ortega se converteu em um tirano exatamente igual ao da ditadura dos Somoza. Ele destruiu a Frente Sandinista e a converteu em instrumento de poder político. Ortega traiu a revolução e, por isso, cairá por seu próprio peso. Nos anos 1970, o sandinismo não tinha como compromisso primário a democracia, mas a justiça social. Passaram-se 40 anos, houve um processo de democratização e institucionalização, totalmentre revertido pela ditadura de Ortega-Murillo. O dilema do sandinismo é se diferenciar do orteguismo.”

> Luis Carrión Cruz, 66 anos, um dos nove comandantes do governo da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) 

“Eu fui membro da Direção Nacional da FSLN, corpo formado por nove pessoas que tomava todas as decisões importantes na Nicarágua — políticas, econômicas, organizacionais, diplomáticas e estratégicas. Sou corresponsável pelos acertos e erros desse organismo. Também tive a incumbência de manter o diálogo com os Misquitos, o principal povo indígena na Nicarágua. Fui determinante no reconhecimento de seus direitos e, também, no projeto do regime de autonomia aprovado pela legislatura eleita em 1984. Fui vice-ministro do Interior e, como tal, participei da construção e do desenvolvimento da polícia e da luta contra sabotagens promovidas pelos EUA e pelos contra. Depois, ocupei o cargo de ministro da Economia, em um momento de redução da intervenção do Estado.

O legado da Revolução Sandinista é contraditório. Ele tem luzes e sombras. Do lado dos resultados positivos, cito, em primeiro lugar, o fim da ditadura dos Somoza, uma dinastia sanguinária que governou a Nicarágua por 45 anos. Em segundo lugar, a revolução abriu as portas para a democracia social. As organizações populares se multiplicaram enormemente e se ativaram na vida social do país. O povo se empoderou e se sentiu dono de direitos. Também participou em diferentes tarefas da revolução, como na área de saúde e em campanhas de alfabetização, inclusive na defesa armada. A educação e a saúde deixaram de ser privilégio de poucos. Isso foi uma mudança radical. Também se produziu uma importante redistribuição de terras em benefício de pequenos agricultores, que, pela primeira vez em vários anos, ascenderam à condição de proprietários. 

No entanto, também houve sombras. Por um lado, cito a guerra promovida pelos EUA em todas as dimensões — política, militar, operacional etc. — contra o governo sandinista. Essa guerra foi alimentada por erros, por políticas equivocadas e por ações de restrição das liberdades públicas, que incentivaram muitas pessoas a se incorporarem às fileiras dos contra. Essa guerra deixou sequela incalculável de destruição e de mortes. Órgãos criados pela revolução, como a polícia, não assumiram plenamente seu caráter de instituições nacionais a serviço da sociedade. A polícia se reverteu em uma organização partidarista, que não respeita as leis.

A FSLN, sob a direção de Ortega, se transformou em instrumento mantido por uma família para se aferrar ao poder, como modelo de corrupção e um estilo estéril de governo. A destruição da FSLN deixou um dano imenso ao país. A revolução teve a possibilidade de mudar a história e de romper o ciclo de ditadura que caracterizou o passado da Nicarágua. O legado foi um sólido sistema democrático e institucional com justiça social, com direitos iguais para ricos e pobres, com ampla participação popular. Esse legado foi liquidado e sepultado por Ortega. É uma enorme traição histórica. Os momentos mais dolorosos e democráticos dos 10 anos de revolução foram aqueles em que tivemos de entregar aos familiares os corpos de filhos, irmãos e pais mortos ao combaterem os contra. Dificilmente há algo mais doloroso do que isso.”

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