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Correio Braziliense

De olho em 2020, Trump busca agradar eleitor branco e conservador

O presidente dos EUA parece intimidado com a aprovação de uma resolução condenando sua ofensiva contra quatro deputadas congressistas de ascendência estrangeira


postado em 18/07/2019 06:00

O presidente Donald Trump recebe vítimas de perseguição religiosa, no Salão Oval da Casa Branca: magnata tenta desqualificar os democratas(foto: Brendan Smialowski/AFP)
O presidente Donald Trump recebe vítimas de perseguição religiosa, no Salão Oval da Casa Branca: magnata tenta desqualificar os democratas (foto: Brendan Smialowski/AFP)
Donald Trump nada parece intimidado com a aprovação, por parte da Câmara dos Representantes, de uma resolução condenando sua ofensiva contra quatro deputadas congressistas de ascendência estrangeira. O presidente norte-americano prosseguiu com a tempestade de tuítes racistas direcionados a Alexandria Ocasio-Cortez (AOC, de Nova York), Ilhan Omar (Minnesota), Rashida Tlaib (Michigan) e Ayanna Pressley (Massachusetts). “Na América, se você odeia seu país, você é livre para partir.
 
O simples fato é que as quatro congressistas pensam que a América é malvada em suas origens, pensam que a América é ainda mais perversa agora, que somos todos racistas e maus”, escreveu, horas antes de retomar a campanha rumo à reeleição, durante discurso em Greenville, na Carolina do Norte. 

Ele acusou o quarteto de mover o Partido Democrata “substancialmente” para a esquerda e de destruí-lo. Apesar da resolução votada na véspera, a Câmara rejeitou, ontem, iniciar um processo de impeachment contra o magnata. Especialistas consultados pelo Correio admitem que os ataques de Trump são uma estratégia arriscada para conquistar votos de parte dos eleitores da oposição em 2020 e para lançar os democratas em uma armadilha política.

“Os tuítes de Trump sugerindo às quatro congressistas progressistas e de minorias que retornem para os países de onde vieram foram desenhados para mobilizar a base republicana, enquanto ele planeja a reeleição”, disse Cal Jillson, professor de ciência política da Universidade Metodista do Sul (em Dallas). Segundo ele, o apelo racista de Trump é uma faca de dois gumes: ele tanto pode contribuir para sua vitória nas urnas como pode fazer com que os eleitores fiquem enojados e rejeitem um novo mandato. “Se isso ocorrer, os republicanos sabem que todo o partido cairá”, advertiu. Ao nutrir tensões raciais e ideológicas, ele apela somente para a mobilização do eleitorado branco.

Jillson lembrou que, enquanto os republicanos seguem a direita e são esmagadoramente brancos, os democratas têm espectro da esquerda e são mais diversos. Ao comentar a resolução aprovada na noite de terça-feira pelos democratas, o estudioso defende que a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, tire o foco das ofensas de Trump — “onde o presidente prospera — e retome temas importantes, como a assistência à saúde, o qual ajudou os democratas a reconquistarem a maioria na Casa, no ano passado.

Relações

Professor de gestão política da Universidade George Washington, na capital dos EUA, Michael Cornfield explicou que Trump busca deteriorar a relação entre a ala institucional moderada e a esquerda ideológica do Partido Democrata. “Seus comentários também refletem uma estratégia eleitoral. No entanto, tal artimanha ajuda mais à figura de Trup do que aos republicanos. Isso porque os tuítes também prejudicam a interação com os supremacistas brancos representados pelo presidente, os empresários e os políticos conservadores”, comentou. “No entanto, vejo uma terceira motivação, além da busca pela reeleição: Trump pretende afastar as atenções da nuvem de escândalos que enfrenta.”

Cornfield entende a política americana como “um jogo de contrastes”. De acordo com ele, Trump se beneficia quando transmite a ideia de que a face do Partido Democrata é AOC e suas colegas. “O presidente pode ampliar as arrecadações, aumentar a própria popularidade e continuar a prosperar nas mídias sociais e na TV Fox News. No entanto, com a escolha do candidato democrata, esse benefício tende a desaparecer, e Trump começará a falar sobre temas para acentuar a divisão política”, explicou.

Por sua vez, Joshua Sandman — especialista em Presidência dos EUA pela Universidade de New Haven (em Connecticut) — aponta uma armadilha na postura de Trump. “Quando os democratas defendem o quarteto de congressistas ofendidas por Trump, são vistos abraçando a agenda progressista de esquerda, representada por elas”, disse. Para ele, os democratas têm de criticar o comportamento “não presidencial” de Trump, “que tem desonrado a si mesmo, ao gabinete, ao partido e à nação”. “Os opositores precisam utilizar isso como uma oportunidade de atingir a base eleitoral de Trump, mas têm fracassado nisso.”

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