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Correio Braziliense

Ações militares no Estreito de Ormuz acirram tensão entre EUA e Irã

Guarda Revolucionária Iraniana anuncia captura de petroleiro com 12 tripulantes, e presidente Trump revela que navio de assalto anfíbio da Marinha americana derrubou drone de Teerã. Incidentes acirram os ânimos no estratégico Estreito de Ormuz


postado em 19/07/2019 06:00

O navio de assalto USS Boxer (E), à frente de outras embarcações dos EUA, no Mar da Arábia:
O navio de assalto USS Boxer (E), à frente de outras embarcações dos EUA, no Mar da Arábia: "medidas defensivas"D (foto: CURTIS D. SPENCER/AFP )


Dois acontecimentos recentes intensificaram a tensão no corredor de navegação entre o Golfo Pérsico e o restante do planeta, e sinalizaram para o risco de nova guerra no Oriente Médio. “Eu quero informar a todos sobre um incidente no Estreito de Ormuz, hoje (ontem), envolvendo o USS Boxer, um navio de assalto anfíbio da Marinha. O Boxer tomou medidas defensivas contra um drone (aeronave não tripulada) iraniano, que se aproximou a uma distância muito pequena, a cerca de mil jardas (914m), ignorando múltiplos avisos para que se afastasse e ameaçando a segurança do navio e da tripulação. O drone foi imediatamente destruído”, declarou o presidente norte-americano, Donald Trump. Os Estados Unidos também exigiram de Teerã a liberação do petroleiro panamenho Riah, capturado no domingo pela Guarda Revolucionária (o Exército ideológico do Irã), ao sul da Ilha de Larak. Os iranianos acusam os 12 tripulantes da embarcação de contrabandearem 1 milhão de litros de petróleo.

De acordo com Trump, a derrubada do drone é “a mais recente de muitas ações provocativas e hostis do Irã contra navios que operam em águas internacionais”. O republicano destacou que os EUA se reservam o direito de defender seus militares, suas instalações e seus interesses na região. Também conclamou a comunidade internacional a condenar as “tentativas do Irã de interromper a liberdade de navegação e o comércio global”. “Peço às outras nações que protejam seus navios, enquanto eles atravessam o Estreito (de Ormuz), e trabalhem conosco no futuro”, disse Trump. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, assegurou que “não tem informação sobre a perda de um drone”. Até o fechamento desta edição, as versões em inglês das agências de notícias oficiais iranianas Irna e Isna não faziam menção ao drone abatido. Um porta-voz do Pentágono, Jonathan Hoffman, confirmou o incidente, registrado às 10h (2h30 em Brasília).

Diretor de Estudos Marítimos da Universidade de Tufts (em Boston), Rockford Weitz classificou como “resposta previsível” a derrubada de um drone voando a cerca de 1km do USS Boxer. “Do meu ponto de vista, o fato de drones dos Estados Unidos e do Irã terem sido abatidos sobre o Estreito de Ormuz demonstra o surgimento de um novo tipo de guerra nessa região estratégica, marcada pelo uso de aparelhos não tripulados aéreos e subaquáticos em um conflito híbrido marítimo”, explicou ao Correio. “É um desdobramento preocupante, e provavelmente aumentará as tensões entre Teerã e Washington.”


Drone lançado pelo Ministério da Defesa do Irã, em 2014: avião não tripulado foi abatido a quase 1km de navio de guerra dos EUA (foto: AFP / IRANIAN DEFENCE MINISTRY / HO )
Drone lançado pelo Ministério da Defesa do Irã, em 2014: avião não tripulado foi abatido a quase 1km de navio de guerra dos EUA (foto: AFP / IRANIAN DEFENCE MINISTRY / HO )


Em 20 de junho passado, o Irã disparou no Golfo de Omã contra o drone norte-americano RQ-4A Global Hawk, avaliado em US$ 110 milhões, sob a justificativa de que o avião invadira o espaço aéreo iraniano. Uma semana antes, os petroleiros Kokuka Courageous (de propriedade japonesa) e Front Altair (da Noruega) tinham sido alvos de cinco explosões, no Mar de Omã, a 25 milhas náuticas (ou 46km) da cidade iraniana de Bandar-e-jask. Outros quatro navios comerciais (dois sauditas, um norueguês e outro dos Emirados) sofreram emboscadas na mesma região, em 12 de maio.

Weitz acredita que a atitude do Irã de desafiar a comunidade internacional, com ações polêmicas no Estreito de Ormuz, tem um objetivo econômico. “Teerã busca convencer outras nações a pressionarem o governo Trump pelo alívio das sanções unilaterais dos Estados Unidos. Isso, provavelmente, não terá êxito. O tiro sairá pela culatra, pois as forças especiais iranianas foram flagradas, no mês passado, engajadas em uma guerra naval híbrida”, comentou o especialista, ao citar as sabotagens contra navios estrangeiros, por meio de explosões de minas. “Outra explicação para essa postura do regime islâmico é que certas facções do establishment de segurança iraniano tentam provocar uma resposta militar dos EUA, o que poderia ajudá-las, em uma perspectiva política doméstica.”

Ante a espiral de tensão no Estreito de Ormuz, o Bahrein anunciou que sediará uma conferência sobre segurança marítima e aérea. Segundo a agência de notícias local BNA, a reunião, cuja data não foi informada, visa reforçar a “segurança e a estabilidade” na região e encontrar os “meios de enfrentar a ameaça iraniana”. O reino do Bahrein co-organizará o evento com os Estados Unidos e a Polônia.

Reunião

Fabian Picardo, chefe de governo de Gibraltar, afirmou que teve uma reunião “positiva” com funcionários iranianas para “reduzir a tensão”, após a detenção do petroleiro Grace 1 (do Irã), no último dia 4. O Grace 1, navio com carga para 2,1 milhões de barris de petróleo, foi interceptado pela polícia e pelos serviços aduaneiros de Gibraltar, com a ajuda de um destacamento da Marinha Real britânica. O tribunal supremo de Gibraltar autorizou a imobilização do navio por 14 dias, até 19 de julho. A autorização foi prorrogada por mais 90 dias.

Eu acho...

“O incidente envolvendo a retenção do petroleiro vai piorar as tensões no Golfo Pérsico entre o Irã e os países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), bem como entre o Irã e a comunidade internacional. Também tende a acelerar os esforços para a construção de uma coalizão multinacional para proteger os navios comerciais que transitam pelo Estreito de Ormuz, bem como as rotas marítimas perto do Iêmen.”

(foto: Arquivo Pessoal )
(foto: Arquivo Pessoal )

Rockford Weitz,  diretor de Estudos Marítimos da Universidade de Tufts, em Massachusetts (EUA)

Quatro navios retidos no Brasil

(foto: FleetMon/Divulgação )
(foto: FleetMon/Divulgação )

As sanções impostas pelos EUA ao Irã deixaram quatro graneleiros de bandeira iraniana em situação de limbo no Brasil. As embarcações MV Bavand (foto) e MV Termeh estão fundeadas a 20km do porto de Paranaguá (PR) e sem combustível para seguir viagem. Os navios Ganj e The Finder estão em Imbituba (SC). Segundo a revista Portos e Navios, a Petrobras se recusou a fornecer o bunker (combustível usado no motor) pelo fato de as quatro embarcações constarem na “lista negra” de um órgão de controle dos EUA. Agentes marítimos teriam tentado entrar em contato, sem sucesso, com as autoridades brasileiras. Cada navio possui de 20 a 30 tripulantes. O MV Bavand e o MV Termeh partiriam para o porto iraniano de Bandar Imam Khomeini com cargas avaliadas em R$ 105 milhões. 

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