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Correio Braziliense

Reino Unido dividido entre dois nomes para substituir Theresa May

O Reino Unido dá posse na quarta-feira a um novo primeiro-ministro, que terá três meses para tentar negociar um acerto sobre o Brexit


postado em 21/07/2019 07:00

A premiê Theresa May deixa o governo do Reino Unido na terça-feira, sem ter concluído a saída do país da UE(foto: Henry Nicolas/AFP)
A premiê Theresa May deixa o governo do Reino Unido na terça-feira, sem ter concluído a saída do país da UE (foto: Henry Nicolas/AFP)
O suspense termina dentro de dois dias para os mais de 60 milhões de súditos britânicos e para o alto comando da União Europeia (UE), assim como para os demais 27 países-membros. Na terça-feira, será anunciado em Londres o nome do novo líder do Partido Conservador — e, por consequência, o novo primeiro-ministro, sucessor de Theresa May, demissionária desde maio. Caberá ao ex-chanceler Boris Johnson, adversário declarado da premiê, ou ao atual ocupante da pasta, Jeremy Hunt, assumir o leme para conduzir o país nos pouco mais de três meses que restam até 31 de outubto, a data fatal para efetivar a saída do bloco. O desfecho da novela do Brexit, iniciada com a decisão do referendo de junho de 2016, determinará o futuro imedidato e de médio prazo para ambos os lados do Canal da Mancha. E a pergunta do milhão, para governantes e observadores do cenário, é: haverá acordo, um rompimento brusco ou novo adiamento?

Boris Johnson, entusiasta da separação e um dos líderes do campo antieuropeu no partido, é o favorito para vencer a disputa interna. A última etapa se encerra amanhã, prazo final para a chegada dos votos postados no correio pelos filiados, com o resultado prometido para o dia seguinte e a posse do novo chefe de governo na quarta-feira. O ex-chanceler, que até aqui descartou a ideia de pedir mais prazo a Bruxelas, liderou todas as rodadas iniciais da disputa, nas quais a bancada conservadora na Câmara dos Comuns eliminou os demais concorrentes. Jeremy Hunt aposta em captar a preferência dos correligionários que, assim como parte respeitável do establishment político e empresarial, teme o impacto do chamado “Brexit” duro — sem qualquer acerto entre as partes sobre a transição para a nova relação de ex-parceiros.

“Não acredito que isso termine com a saída sem acordo”, disse Johnson no único debate cara a cara entre os dois finalistas, no último dia 9. “Teremos algo entre agora e 31 de outubro”, garantiu, embora tenha reafirmado que o processo não será novamente adiado. O ex-chanceler consolidou a popularidade como prefeito de Londres e deixou o gabinete de May por oposição explícita ao acordo negociado pela premiê com os negociadores da UE — proposta rejeitada três vezes pelo Parlamento. No confronto com o adversário, esgrimiu como argumento a convicção de que o país precisa de “um pouco de otimismo”: “Já demonstramos derrotismo demais”.

“Se quisermos fazer com que o Brexit seja um êxito, não se trata de demostrar otimismo cego”, contrapôs Hunt, que mencionou, sem entrar em detalhes, um plano de 10 pontos para enfrentar a hipótese de um “divórcio não amigável” na data marcada — a mesma do Halloween, uma coincidência que não escapa ao sarcástico humor dos britânicos. O chanceler desafiou o favorito a honrar a promessa de não permitir novo adiamento da separação, apoiada em 2016 por 52% dos votantes, uma maioria que parece duvidosa após três anos de idas e vindas. “Quero saber até que ponto são sólidos os seus compromissos”, provocou. “Se não nos tirar da UE em 31 de outubro, você vai se demitir?”

Tempo curto

A troca de guarda em Downing Street, a residência oficial do chefe de governo britânico, coincide com a transição em curso em Bruxelas. Em 1º de novembro, um dia depois do prazo fatal,  toma posse a nova presidente da Comissão Europeia (CE, braço executivo da UE), a ex-ministra alemã Ursula von der Leyen, à frente da equipe que terá como principal tarefa, nos próximos cinco anos, colocar em prática o Brexit. Até lá, o recado do atual chefe da CE, Jean-Claude Juncker, é o mesmo repetido com insistência para os negociadores designados por Theresa May: o acerto concluído ao fim de quase três anos de discussões não está aberto a emendas. A própria Von der Leyen, no dia em que foi ratificada pelo Parlamento Europeu, acenou apenas com a possibilidade de dar mais tempo, a pedido de Londres, “caso nos apresentem uma boa razão”.

O novo premiê terá o tempo como adversário certo: uma semana depois da posse, começa o recesso parlamentar, e será preciso esperar o retorno dos deputados para retomar a tramitação de uma nova proposta em torno do Brexit. Qualquer eventual alteração nos termos deverá ser no mínimo debatida com a nova presidente da CE e sua equipe — outro complicador potencial. Em entrevista exibida na última quinta-feira pela emissora britânica BBC, mas gravada em março, o vice-presidente da Comissão, o holandês Frans Timmermans, confessa-se “chocado” com o que vê como “total despreparo” do governo britânico para conduzir o processo. “Pensamos que fossem brilhantes, que tivessem em algum cofre um livro como os do Harry Potter, com todos os truques”, ironizou. “Mas o tempo está se esgorando e vocês não têm um plano.”
 
Boris Johnson: o favorito populista
Ele fez escola como prefeito de Londres e encarnou uma espécie de variante menos rebuscada do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, que se dizia porta-voz de uma “direita sem complexo”. Mais do que direitista confesso, Boris Johnson cultivou a imagem de um conservador desbocado, indiferente à censura das “patrulhas” da correção. Não por acaso, esse político de 55 anos tornou-se o favorito de Donald Trump, que não se furtou a manifestar-lhe apoio nas quedas de braço com a premiê Theresa May, da qual Johnson se tornou o maior desafeto no Partido Conservador. “Eu sempre gostei do Boris”, reiterou o presidente dos EUA na semana passada. “É um cara diferente. Não dizem também que eu sou diferente?”

Assim como o amigo americano, o favorito para se tornar o próximo primeiro-ministro britânico despreza os “bons costumes” políticos — e, por isso mesmo, faz sucesso com o eleitorado menos abastado e instruído. Na Europa, é visto como o que há de mais próximo, no Reino Unido, da direita populista anti-UE. Não apenas fez campanha pelo Brexit, em 2016, contrariando o então premiê (e líder do partido), David Cameron. Preterido na sucessão, aceitou integrar o governo de Theresa May como titular das Relações Exteriores, mas fez oposição aberta a ela até se retirar do gabinete, há um ano.

Com ou sem Brexit em 31 de outubro, Boris Johnson instalado em Downing Street, a residência oficial do premiê, será sinônimo de polêmica — em especial com os vizinhos. Recentemente, referiu-se aos franceses como “uns merdas”. Em termos polidos, um diplomata com longa experiência na UE confirma que o sentimento é recíproco: “Em Bruxelas, ele é visto simplesmente como um anticristo”. (SQ)

Jeremy Hunt (esq.) e Boris Johnson (dir.)(foto: Tolga Akmen/AFP)
Jeremy Hunt (esq.) e Boris Johnson (dir.) (foto: Tolga Akmen/AFP)
Jeremy Hunt: o azarão boa praça
Ao contrário do adverário na disputa pela liderança do Partido Conservador, o homem que sucedeu Boris Johnson como chanceler do Reino Unido é um exemplar clássico da elite política britânica. Filho de almirante, empresário, presidiu uma associação de estudantes conservadores da conceituada Universidade de Oxford, onde estudou filosofia, economia e ciência política. Aos 52 anos, acumula uma trajetória de 14 anos na Câmara dos Comuns. Respondeu pelo ministério da Saúde entre 2012 e 2018, nos gabinetes chefiados por David Cameron e Theresa May. Deixou a pasta há um ano, como recordista no cargo na hisória do país, para suceder Boris Johnson como chanceler.

Assim como a premiê agora demissionária, Hunt era contra o Brexit até o o referendo de 2016, em que a decisão da maioria pela saída da União Europeia levou à renúncia de Cameron. Afinado com a chefe, o chanceler assumiu como missão do governo conduzir da melhor maneira a separação, jamais sem a conclusão de um acordo com Bruxelas. Mas na disputa com Johnson pela sucessão de May, sempre na condição de azarão, ele passou dos pontos finais para as reticências. Receoso da reação dos correligionários que defendem o “tudo ou nada”, passou a se omitir sobre a hipótese de novo adiamento no “divórcio”.

A personalidade afável fez de Jeremy Hunt um político com trânsito fácil na Câmara dos Comuns, seja entre governistas ou opositores. Mas ao preço de ser tido como talvez excessivamente afável para se impor quando necessário. “As pessoas o veem como gentil demais. Está ótimo para um ministro, mas não para ser o líder de que precisamos nos tempos de hoje”, confessa um colega de bancada que lhe negou apoio na disputa sucessória. (SQ)

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