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Correio Braziliense

Após Paraguai considerar Hezbollah terrorista, Brasil pode fazer o mesmo

Paraguai define como terrorista o movimento xiita libanês Hezbollah, ligado ao Irã, e aumenta a pressão sobre o Brasil para acompanhar a inflexão, que já foi tomada também pela Argentina e é vista com simpatia pelo governo Bolsonaro


postado em 20/08/2019 06:00

O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, aliado de Washington: ofensiva diplomática coordenada com Buenos Aires(foto: AFP / NORBERTO DUARTE)
O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, aliado de Washington: ofensiva diplomática coordenada com Buenos Aires (foto: AFP / NORBERTO DUARTE)
Uma inflexão de política externa assumida nesta segunda-feira (19/8) pelo governo do Paraguai pode ajudar o governo Jair Bolsonaro a colocar também o Brasil na linha de frente do confronto a um dos adversários centrais dos Estados Unidos no Oriente Médio. O presidente Mario Abdo Benítez classificou nesta segunda-feira (19/8) oficialmente como terrorista, por decreto, o movimento xiita libanês Hezbollah (Partido de Deus, pró-Irã).  Há mais de uma década, o governo norte-americano aponta a presença do grupo, que mantém um braço armado em nome de combater uma alegada ocupação de Israel em seu território, na região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.

“Esse decreto exige a implantação de um protocolo na área de segurança, principalmente na questão do financiamento das atividades dessas organizações e de seus braços, para levar adiante a luta contra o terrorismo internacional”, anunciou o ministro paraguaio do Interior, Juan Ernesto Villamayor. O texto formaliza também a classificação do Estado Islâmico e da rede Al-Qaeda como “organizações terroristas globais”.

O governo brasileiro, que acompanha as Nações Unidas na definição das duas últimas organizações como terroristas, não mantém, por tradição, uma listagem própria — mas estuda mudar o tratamento em relação ao Hezbollah, de acordo com fontes citadas pela agência de notícias Bloomberg. O movimento xiita libanês, que participa do governo e representa a maior comunidade religiosa do país, é considerado por Israel “uma ameaça existencial”. Nos últimos oito anos, milicianos do Hezbollah atuaram na guerra civil da Síria, ao lado das forças leais ao presidente Bashar al-Assad e de uma força de elite iraniana.

Desde a guerra civil libanesa (1975-1990), a região brasileira de Foz do Iguaçu recebeu um importante influxo de imigrantes libaneses, em especial xiitas que viviam no Vale do Bekaaa — a região do Líbano onde surgiu o movimento pró-iraniano, em 1982. A comunidade, que tem igualmente um forte contingente palestino, mantém presença igualmente do lado paraguaio da fronteira, apontada há décadas como foco de contrabando de armas, drogas, cigarros, equipamento eletrônico e outras mercadorias. O Hezbollah é citado por Israel como instrumental nos atentados de 1984 contra sua embaixada em Buenos Aires e contra uma associação judaica, com  85 mortos.

Brasil

A alegada presença do movimento libanês na região de Foz do Iguaçu motivou não apenas pressões diplomáticas, mas também incursões sigilosas de agentes da inteligência israelenses. A mudança política em Brasília, com a ascensão de um governo afinado externamente com Israel e os EUA, coloca o Brasil sob pressão para se juntar à Argentina, que  declarou o Hezbollah uma organização terrorista, em julho. O tema frequentou a agenda das conversações do presidente Jair Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo com alguns dos formuladores da política externa no governo Donald Trump, como o secretário de Estado, Mike Pompeo, e o conselheiro da Casa Branca para assuntos de Segurança Nacional, John Bolton.

Aceito pelos EUA como “aliado preferencial extra-Otan”, um status que favorece a cooperação militar, incluindo a aquisição de material bélico, o governo Bolsonaro reforça os sinais de que pode acompanhar o vizinho no cerco aos xiitas pró-iranianos. “Essa questão do Hezbollah envergonha o Brasil no exterior”, tuitou o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente e indicado por ele para ocupar a embaixada em Washington. “Temos que mudar essa realidade o quanto antes”, insistiu. O país, porém, não tem uma legislação que defina o crime de terrorismo internacional e sirva de suporte à elaboração de uma lista de organizações com esse perfil.

Para saber mais

O braço dos xiitas

O Partido de Deus, designado em árabe como Hezbollah, surgiu em um momento crítico da guerra civil que dilacerou o Líbano entre 1975 e 1990. O conflito, inicialmente centrado na disputa de poder entre cristãos maronitas e muçulmanos — os últimos, inconformados com o papel secundário que lhes reservava um pacto firmado ainda sob protetorado francês —, mudava de feição sob o impacto da invasão do país por tropas de Israel, em 1982.

Nessa altura, não apenas os muçulmanos como um todo representavam a maioria da população. Dentro da comunidade, eram os adeptos da facção xiita, minoritária no mundo islâmico, mas predominante em países como Irã e Iraque, que compunham a maior porção. Até então, porém, eram ofuscados pela elite econômica e política sunita. Pelo acordo nacional questionado na guerra civil, cabia aos maronitas a presidência do país; aos sunitas, o cargo de primeiro-ministro; os xiitas tinham de contentar-se com o comando do parlamento.

Concentrados historicamente no Vale do Bekaa, entre o leste e o sul do país, os xiitas eram por origem agricultores pobres. Nos anos 1960, começaram a migrar para os subúrbios ao sul da capital, Beirute. Nos primeiros anos da guerra civil, ressentiram-se da presença de combatentes palestinos, que foram o alvo principal da invasão israelense.

A Revolução Islâmica de 1979, no Irã, alimentou um sentido de orgulho que se espraiou entre os xiitas. No Líbano, o descontentamento com a liderança tradicional da comunidade ofereceu terreno fértil para os assessores militares enviados de Teerã. Quando a guerra civil terminou, em 1990, o Hezbollah tinha se transformado na principal referência para os xiitas, a ponto de manter o status de organização armada para combater a presença militar israelense no sul do país, encerrada formalmente em 1999.

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