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Correio Braziliense

PF da Alemanha estuda criar unidade especializada contra extrema direita

A estimativa é que existam cerca de 24 mil extremistas de direita no país. Desse total, 12 mil são vistos como militantes, os quais já usaram de violência ou têm propensão a usá-la


postado em 02/09/2019 06:00

Simpatizantes do partido de extrema direita
Simpatizantes do partido de extrema direita "Alternativa para a Alemanha" participam de passeata com bandeiras do país, em Rostock, no nordeste: legenda tem representatividade no Parlamento e nos 16 estados (foto: Ralf Hirschberger/AFP - 22/9/18)
Oito décadas depois do início da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha é atormentada por um fantasma que insiste em não ser exorcizado, mesmo depois do suicídio de Adolf Hitler. Para confrontá-lo, a polícia federal alemã estuda a criação de uma unidade especializada em combater facções violentas da extrema direita.
 
De acordo com o jornal Süddeutsche Zeitung, o novo “escritório central para combater crimes de ódio” deverá ter cerca de 440 funcionários. Especialista em extrema direita da Johannes Gutenberg-Universität Mainz (centro-oeste da Alemanha), Tanjev Schultz admitiu ao Correio que a unidade especializada pode agilizar inquéritos e processo por crimes de ódio e retórica xenofóbica. “Tão importante quanto o fortalecimento de forças policiais contra crimes cibernéticos são a capacitação de outras agências policiais e a formação de unidades especializadas de promotores”, disse.

De acordo com Schultz, existem cerca de 24 mil extremistas de direita no país. Desse total, 12 mil são vistos como militantes, os quais já usaram de violência ou têm propensão a usá-la. “Em um país de 80 milhões de habitantes, 24 mil não parece um número tão expressivo. No entanto, essa estatística reflete somente os ativistas. Não fazem parte dessa conta os simpatizantes e os seguidores silenciosos”, explicou.

O estudioso lembra que é exatamente essa parcela do extremismo de direita que costuma se radicalizar repentinamente e comete crimes. “Há poucas semanas, um político de Kassel, cidade no centro-norte da Alemanha, foi assassinado por um extremista de direita que parecia inconspícuo durante os últimos anos. Apesar de não existir uma preocupação sobre a tomada de poder, esses extremistas representam grave ameaça à sociedade alemã”, observou. Na última década, um grupo chamado Underground Nacional Socialista (NSU) assassinou 10 pessoas e cometeu crimes com explosivos. Por um longo período, sua existência foi ignorada pelas próprias autoridades.

Schultz ressalta que os partidos de extrema direita sempre existiram no país, mas não gozavam de muita influência e jamais tinham chegado ao Legislativo. “Isso mudou. Temos, agora, um novo partido influente chamado Alternative für Deutschland (Alternativa pela Alemanha, AfD), representado no Bundestag (Parlamento) e nos 16 estados. Alguns membros e lideranças dessa legenda têm dito coisas que são exemplos do extremismo de direita”, afirmou. “O AfD é contrário à imigração e se tornou muito forte em 2015, quando a chamada ‘crise dos refugiados’ sacudiu a Europa e a Alemanha”.

Resposta

Hajo Funke, especialista em extrema direita pela Universidade Livre de Berlim e autor de Der Kampf um die Erinnerung (“A luta pela memória”), acredita que a criação de unidades separadas da Polícia Criminal Federal para lidar com crimes de ódio é “uma resposta necessária, boa e atrasada ante o aumento perigoso no número de delitos da extrema direita”. Segundo ele, 80 anos depois da deflagração da Segunda Guerra Mundial, os grupos neonazistas abarcam um segmento estreito da população. “Para eles, a ideologia racista e antissemita de Hitler e do nacional-socialismo permanece atraente”, comentou. No entanto, Funke não vê o neonazismo como um risco à democracia, mas para aqueles ameaçados diretamente pela extrema direita, como os imigrantes, os refugiados e as minorias étnicas, religiosas e sexuais.

Professor da Universidade de Dortmund, Dierk Borstel disse à reportagem que, recentemente, a polícia tinha dificuldades em investigar a violência cometida pela extrema direita, principalmente pelo grupo NSU. “Por isso, eu saúdo essa iniciativa, mas vejo a necessidade de correções técnicas. Ao mesmo tempo, alerto que o extremismo de direita não pode ser combatido apenas com ações policiais. Aqueles que desejam elimintar esse fenômeno devem desenvolver a democracia e o Estado de direito, investir em escolas e em educação, além de promover a inclusão social”, afirmou. Ele revela que o AfD se coloca como ameaça ao governo na parte oriental da Alemanha, chegando a dificultar a cultura da democracia nos estados. “Temos visto cada vez mais racismo, antissemitismo, radicalização da retórica e intensa pressão sobre a sociedade civil democrática e a imprensa.”


Três perguntas para


(foto: Arquivo Pessoal )
(foto: Arquivo Pessoal )
Efraim Zuroff, chefe dos caçadores de nazistas do Centro Simon Wiesenthal, em Jerusalém

Como o senhor  vê a criação de uma unidade especializada para combater grupos violentos da extrema direita?

Isso poderia ser um passo muito positivo, mas depende de vários fatores diferentes. Entre eles, o tamanho da unidade, a qualidade e a experiência do contingente, e os recusos à sua disposição. Também é preciso ter em mente que existe antissemitismo na Alemanha na esquerda e entre os muçulmanos.

O neonazismo está bastante enraizado na sociedade alemã?

Neste momento, o neonazismo existe na sociedade alemã, mas não se trata de um movimento dominante ou generalizado. O fato é que, até agora, nenhum partido neonazista foi capaz de eleger representantes para o Bundestag (Parlamento). Parte da razão para isso é a existência de partidos como “Alternativa para a Alemanha”, muito à direita dos democratas-cristãos (partido de Angela Merkel), os quais costumavam representar os elementos mais nacionalistas da sociedade alemã.


Quais as principais características do neonazismo na Alemanha?

Não tenho dados, mas, geralmente falando, esses grupos são nacionalistas ao extremo. Em muitos casos, negam o Holocausto ou pensam que ele ele foi algo positivo, pelo qual deveriam ser gratos a Adolf Hitler. Eles rejeitam a cultura de assumir a responsabilidade pelos crimes dos nazistas. Também fechariam com prazer todos os memoriais do Holocausto e proibiriam o ensino do Holocausto nas escolas. Não há dúvida de que, após a Alemanha aceitar refugiados do Oriente Médio e do norte da África, o apoio ao novo partido de direita “Alternativa para a Alemanha” aumentou significativamente. (RC)

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