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Correio Braziliense

Descoberta aponta quais são as proteínas que viabilizam a audição

Activina A e folistatina controlam o nascimento das células ciliadas, que convertem ondas sonoras em impulsos elétricos enviados ao cérebro. Descoberta feita por estadunidenses pode ajudar na criação de estratégias contra a surdez e melhora da audição


postado em 14/09/2019 07:00

Pesquisa sobre a audição(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
Pesquisa sobre a audição (foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
Barulho intenso, envelhecimento, doenças que comprometem a circulação sanguínea e infecções estão entre as causas da perda de audição. Mas os mecanismos que levam à perda auditiva ainda não são completamente conhecidos. Na tentativa de melhor entendê-los, cientistas norte-americanos se voltaram para a formação das células responsáveis pela captação do som em mamíferos: as ciliadas.

 

Em um estudo com ratos, pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins identificaram duas proteínas — a activina A e a folistatina — que controlam o nascimento dessas células estratégicas. Estima-se que 90% da perda auditiva é causada por problemas nas células ciliadas ou por danos nos nervos auditivos que as conectam ao cérebro. Ao contrário de mamíferos e aves, as células ciliadas humanas não podem se regenerar. Por isso, uma vez que são danificadas, a surdez é provavelmente permanente.

 

“Essas células são importantes na perda de audição. Saber mais sobre como elas se desenvolvem nos ajudará a descobrir maneiras de substituir as que estão danificadas”, aposta Angelika Doetzlhofer, professora-associada de neurociência na Escola de Medicina da universidade estadunidense e principal autora do estudo, divulgado na revista eLife.

 

Para que mamíferos possam ouvir, as vibrações sonoras viajam por meio de uma estrutura oca e em espiral, a c, que se localiza dentro da orelha. As células ciliadas, que convertem ondas sonoras nos impulsos elétricos que são enviados ao cérebro, nascem na parte mais externa da cóclea. Lá, estruturas precursoras começam a se transformar em ciliadas, e essa mudança só termina quando elas chegam à parte mais interna.

 

Sabendo desse processo, Doetzlhofer e a equipe foram em busca de pistas moleculares ao longo dessa espiral na orelha. Analisando proteínas, identificaram que o padrão da activina A e da folistatina se destacava. Ao longo da cóclea, os níveis de activina A aumentam onde as células precursoras começam a se transformar em células ciliadas. Ao contrário, os níveis de folistatina diminuem na parte mais externa e aumentam na mais interna, onde as células precursoras ainda não iniciaram a conversão.

 

Os cientistas concluíram que a activina A parece se mover em uma onda para dentro da cóclea, enquanto a folistatina se move para fora. “Parece que as duas proteínas realizam um ato de equilíbrio para controlar a formação ordenada de células ciliadas ao longo da espiral coclear”, resume Doetzlhofer.

Sintonia

Para descobrir como a activina A e a folistatina coordenam o desenvolvimento das células ciliadas, os pesquisadores estudaram os efeitos de cada uma delas separadamente. Primeiro, aumentaram os níveis de activina A nas cócleas de ratos normais. Como efeito, as células precursoras se transformaram em ciliadas precocemente.

 

Depois, a equipe manipulou ratos para que pudessem superproduzir a folistatina e inibir a produção da activina A. Nesse caso, as células ciliadas demoraram para se formar e chegaram atrasadas ao fim da espiral coclear. Além disso, pareciam desorganizadas, pois se espalhavam em várias fileiras dentro da cóclea.

 

Com base nessas análises, os pesquisadores concluíram que altos níveis de folistatina fazem com que as células precursoras se dividam com mais frequência e, consequentemente, se convertam em células ciliadas internas de maneira aleatória.

 

“A ação dessas proteínas é cronometrada tão precisamente que qualquer distúrbio pode afetar negativamente a organização da cóclea e, consequentemente, a audição. A descoberta mais importante do nosso estudo é que as células ciliadas têm que ser produzidas no momento certo. Caso contrário, seu arranjo dentro da cóclea da orelha interna fica desorganizado. É como construir uma casa. Se a fundação é colocada incorretamente, qualquer coisa construída sobre ela é afetada”, ilustra a principal autora do estudo.

Sem regeneração

Cláudio Ikino, professor-associado de otorrinolaringologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explica que, em humanos, as células ciliadas se formam durante a gestação. Cada indivíduo nasce com uma quantidade, que vai diminuindo ao longo da vida em função de doenças, contato com produtos químicos e o próprio envelhecimento.

 

“Uma vez mortas, as células ciliadas não se regeneram. Temos métodos que recuperam ou compensam a perda, como os aparelhos auditivos e o implante coclear, mas nenhum recupera o funcionamento totalmente normal, apesar dos resultados serem bastante satisfatórios”, contextualiza.

 

O especialista acredita que o conhecimento acerca do processo de formação da cóclea e das células ciliadas proporciona oportunidades de desenvolvimento de um tratamento que recupere o funcionamento adequado do órgão. “A descoberta dessas proteínas pode vir a proporcionar o desenvolvimento de alguma medicação que faça nascer novas células ciliadas a partir de outras células que temos na cóclea, ou fazer com que se desenvolvam a partir de células-tronco, possibilitando a recuperação da perda auditiva causada pela morte das células ciliadas”, aposta Cláudio Ikino.

 

Segundo Larissa Vilela, otorrinolaringologista do Hospital Anchieta e professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB), o estudo norte-americano pode ser o começo para um melhor entendimento das doenças auditivas que causam a surdez permanente, permitindo, inclusive, o diagnóstico adequado para complicações pouco conhecidas. “Achei a pesquisa de excelente qualidade técnica e científica trazendo descobertas importantíssimas. Esse estudo abrirá caminhos para um melhor entendimento da formação das células sensoriais auditivas”, diz.


* Estagiária sob supervisão de Carmen Souza

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