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Ele já admite o impeachment

Trump reconhece que os democratas da Câmara possuem votos suficientes para submetê-lo a julgamento no Senado. Opositores ordenam que a Casa Branca entregue documentos sobre suposta tentativa de pressionar Kiev a investigar Joe Biden


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sentiu a intensa pressão dos democratas que gozam de maioria na Câmara de Representantes e admitiu, pela primeira vez, a possibilidade de impeachment. ;Os republicanos têm estado muito unidos. Essa é a maior caça às bruxas na história de nosso país;, afirmou. ;Então, os democratas, infelizmente, têm os votos. Eles podem votar muito facilmente, embora a maioria deles, muitos deles, não creio que deveriam fazê-lo. Eu acredito (;) que eles vão pagar um preço tremendo nas pesquisas;, acrescentou o magnata, pouco antes de embarcar no helicóptero Marine One rumo à visita anual ao Centro Médico Militar Nacional Walter Reed, em Bethesda (Maryland).

Em claro sinal de fechamento de cerco a Trump, os democratas do Comitê de Supervisão e Reforma da Câmara intimaram a Casa Branca e exigiram a entrega de documentos sobre os esforços do republicano em pressionar a Ucrânia a produzir informações que pudessem prejudicar o democrata Joe Biden. Os congressistas deram um prazo até 18 de outubro. Eles também solicitaram dossiês ao vice-presidente, Mike Pence, sobre o seu possível papel no escândalo. Biden é o potencial adversário de Trump nas eleições de 2020.

Trump é acusado de usar o cargo para exigir que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, investigasse Biden e o filho, Hunter, por suspeitas de corrupção. ;Recentemente, informações públicas questionam o papel que o senhor teria na transmissão ou reforço da mensagem cabal do presidente ao presidente ucraniano;, escreveram três democratas que lideram a investigação para o eventual impeachment de Trump em carta dirigida a Pence. ;De acordo com a investigação da Câmara de Representantes, solicitamos que o senhor apresente os documentos estabelecidos até o dia 15 de outubro de 2019.;

Na noite de quinta-feira, os democratas divulgaram várias mensagens de texto mostrando que Trump condicionou um encontro com Zelenski na Casa Branca à investigação sobre os Biden (veja quadro). ;Vejo isso como uma clara tentativa de violação da lei de financiamento de campanha e uma razão perfeitamente boa para o impeachment do presidente;, afirmou ao Correio Roland Riopelle, ex-procurador federal para o Distrito Sul.

De acordo com ele, parece haver muitas evidências de que Trump pressionou a Ucrânia a abrir uma investigação sobre os Biden, e mais indícios surgem a cada hora ; por exemplo, as mensagens de texto tornadas públicas pelo Congresso;, acrescentou. Riopelle acredita, no entato, que não há provas de que Kiev sucumbuiu à pressão de Washington. ;De fato, o ex-presidente da Ucrânia Petro Poroshenko anunciou que um inquérito sobre a companhia de energia para a qual Hunter Biden trabalhava (Burisma) não mostrou qualquer irregularidade. E isso parece minar a posição de Trump.;


Revisão
Segundo a agência France-Presse, o procurador-geral da Ucrânia, Ruslan Riaboshapka, anunciou uma revisão de casos ligados à Burisma. ;Estamos fazendo uma auditoria dos casos que foram supervisionados anteriormente pelo escritório da Procuradoria Geral. Estamos revisando todos os casos que foram arquivados para decidir se isto foi ilegal;, comentou. Riaboshapka assegurou, entretanto, que os 15 casos revisados ;não envolvem a princípio; Hunter Biden. ;Nenhum político estrangeiro ou ucraniano me ligou ou tentou influenciar minhas decisões;, declarou.

Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Michigan e ex-procuradora federal chefe para o Distrito Leste de Michigan, Barbara McQuase disse ao Correio que considera preocupante que a Ucrânia esteja respondendo ao pedido de Trump. ;Kiev está chamando a investigação de ;auditoria;. Mas, independentemente de como a classificam, é problemático se o fazem para beneficiar os interesses políticos de Trump em resposta à sua demanda como contrapartida para uma ajuda militar.;

A investigação para impeachment corre à solta no Congresso. Ontem, o inspetor geral de inteligência, Michael Atkinson, uma espécie de auditor do governo federal, testemunhou a portas fechadas. Foi Atkinson quem recebeu a denúncia de um informante de inteligência sobre o conteúdo do telefonema entre Trump e Zelenski, ocorrida em 25 de julho.


Pontos de vista

Por Barbara McQuade


Legislação
violada


;A lei proíbe solicitar algo de valor a um estrangeiro em conexão com uma eleição. Pedir a qualquer nação que investigue um adversário político parece ser coberto por esta lei. É surpreendente que o presidente viole a legislação à vista de todos. A Câmara dos Representantes está tomando medidas imediatas para investigar as alegações do informante de inteligência sobre as negociações de Trump com a Ucrânia. Se elas forem verdadeiras, a conduta é potencialmente criminosa e digna de impeachment.;
Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Michigan e
ex-procuradora federal chefe para o Distrito Leste de Michigan



Por Roland Riopelle


Mudança
de postura


;A pressão está aumentando sobre Donald Trump o tempo todo agora. O problema são os republicanos no Congresso e o Senado. Eles têm pavor dos simpatizantes de Trump e estão indispostos a abandonar o presidente. Isso pode mudar se as pesquisas continuarem a mostrar a opinião pública se movendo em apoio ao impeachment e à remoção.;
Ex-procurador federal para o Distrito Sul de Nova York


;Trocas de mensagens explosivas // O ex-enviado especial da Casa Branca à Ucrânia, Kurt Volker, enviou recados a autoridades de Washington e de Kiev. Veja as transcrições divulgadas pelo site The Hill


Ajuda na investigação
Em texto enviado a Rudy Giuliani, advogado pessoal de Donald Trump, Volker (foto) o agradece pelo café da manhã naquele 19 de julho e promete conectá-lo com Andrey Yermak, conselheiro do presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski. Volker sugere uma teleconferência entre os três, 72 horas depois. Horas depois, Volker conversa com o embaixador dos EUA na União Europeia, Gordon Sondland, e com William Taylor, embaixador interino em Kiev. Ele admite que estava Yermak ;deve ter ajudado;. ;Mais importante é que Zelenski diga que ele ajudará na investigação ; e resolverá questões pessoais específicas, se houver algum;, disse Volker.

Preocupação de Kiev
Dois dias depois, Taylor alertou que ;Zelenski é sensível ao fato de a Ucrânia ser levada a sério, não apenas como instrumento na política doméstica de reeleição de Washington;. Sondland defende a necessidade de se iniciar a conversa e construir o relacionamento, ;independentemente do pretexto;.

Conselho a Yermak
Depois da ligação entre Giuliani e Yermak, em 22 de julho, Volker revelou aos colegas diplomatas que Giuliani estava ;defendendo; um telefonema entre Trump e Zelenski. E disse que Giuliani e o líder ucraniano planejavam se reunir em Madri, dentro de duas semanas. Na manhã de 25 de julho, Volker ofereceu conselho a Yermak antes da conversa entre Trump e Zelenski no mesmo dia. ;Ouvido da Casa Branca ; supondo que o presidente Z convença Trump que investigará/entenderá o que aconteceu em 2016, definiremos a data da vista a Washington;, escreveu Volker.

Orientação de Giuliani
Em 9 de agosto, Volker e Sondland debateram o agendamento de um encontro na Casa Branca, depois que o presidente ucraniano emitiu um comunicado anunciando a investigação. ;Acho que (Trump) realmente deseja a entrega;, escreveu Sondland. Volker buscou a orientação de Giuliani sobre a declaração proposta dos ucranianos. ;Olá, senhor prefeito! Tive uma boa conversa com Yermak na noite passada. Ele ficou satisfeito com seu telefonema. Mencionou sobre Z fazer uma declaração. Todos nós podemos entrar na ligação para ter certeza de que eu aconselhei Z corretamente sobre o que ele deveria estar dizendo? Quero ter a certeza de que isso seja feito corretamente;, pediu Volker. No dia seguinte, Yermak insistiu na confirmação de uma data para a visita à Casa Branca antes de anunciar a investigação.

Destaque ao inquérito
Em 13 de agosto, Volker escreveu que ;especial atenção deveria ser dada ao problema de interferência nos processos políticos nos EUA, especialmente com o suposto envolvimento de alguns políticos ucranianos;. ;Quero declarar que isso é inaceitável. Pretendemos iniciar e completar uma investigação transparente e imparcial de todos os fatos e episódios disponíveis, incluindo aqueles envolvendo Burisma e as eleições de 2016; ; uma referência à empresa ucraniana de exploração energética ligada a Hunter, filho de Joe Biden. Em 17 de agosto, Sondland perguntou: ;Ainda queremos que Ze (Zelenski) nos dê um rascunho inequívoco com 2016 e Burisma?;. ;Essa é a mensagem clara até agora;, respondeu Volker.

Ameaça de abandono das discussões
Em 1; de setembro, William Taylor perguntou a Sondland sobre os pré-requisitos para uma visita à Casa Branca. ;Nós estamos agora dizendo que a assistência de segurança e o encontro na Casa Branca estão condicionados às investigações?;, questionou. ;Me ligue;, respondeu Sondland. Uma semana depois, Sondland informou a Volker e a Taylor sobre ;várias conversas com Ze (Zelenski) com Potus (Trump);. ;O pesadelo é que eles deem entrevista e não recebam a ajuda de segurança. Os russos amam isso. (E eu desisto);, escreveu Taylor.

;Loucura;
Em uma das mensagens mais comprometedoras, em 9 de setembro, Taylor advertiu que ;a mensagem aos ucranianos (e aos russos) que enviamos com a decisão sobre a assistência de segurança é a chave;. ;Como eu disse ao telefone, acho uma loucura reter assistência de segurança em troca de ajuda em uma campanha política;, acrescentou Taylor.