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Correio Braziliense

Processo de impeachment contra Trump embaralha eleições nos EUA

Para os principais candidatos a enfrentar Donald Trump na eleição presidencial de 2020, o inquérito aberto na Câmara contra o presidente mexe com a estratégia e oferece oportunidades, mas também riscos


postado em 13/10/2019 08:00 / atualizado em 13/10/2019 18:05

O ex-vice Joe Biden, líder nas pesquisas sobre a disputa interna pela candidatura: é ele o pivô das acusações a Donald Trump(foto: Joshua Lott/Getty Images/AFP )
O ex-vice Joe Biden, líder nas pesquisas sobre a disputa interna pela candidatura: é ele o pivô das acusações a Donald Trump (foto: Joshua Lott/Getty Images/AFP )
Não é apenas na Casa Branca e no entorno imediato de Donald Trump que a temida “palavra que começa com ‘i’” tira o sono de assessores e estrategistas. Desde que a Câmara dos Deputados decidiu abrir inquérito sobre acusações que podem resultar em um pedido de impeachment do presidente, um fator inédito entrou — para ficar — no cálculo das equipes de campanha dos principais candidatos da oposição democrata à sucessão, na eleição de 2020. Nunca antes na história da democracia americana, o processo eleitoral vai deslanchar com o ocupante do cargo e candidato à reeleição sendo objeto de uma investigação que, em tese, pode lhe custar o mandato.

 

“Isso é uma bomba atômica lançada no meio da corrida, e vai mudar a dinâmica da coisa para todos”, avalia Jared Leopold, assessor do governador do estado de Washington, Jay Inslee, que acaba de desistir da disputa interna no Partido Democrata. “Ninguém pode fazer de conta que tudo segue como antes”, insiste Leopold. Os pré-candidatos “nanicos”, como Inslee, são os primeiros a se ressentir: desde logo, as audiências do inquérito no Congresso dominam a cobertura política da mídia em um momento crítico para a “peneira” que precede as primeiras eleições internas nos estados, a partir de fevereiro.

 

Mas não faltam motivos de preocupação e incerteza para os favoritos a conquistar a candidatura para enfrentar Donald Trump em novembro de 2020. A começar pelo ex-vice-presidente Joe Biden, que lidera as pesquisas nacionais entre o eleitorado democrata: é ele quem está no centro do episódio que levou a presidente da Câmara, a oposicionista Nancy Pelosi, a determinar a abertura do inquérito. Três comitês apuram a denúncia de um agente de inteligência lotado na Casa Branca de que Trump pediu ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenski, para investigar possíveis ações irregulares de Biden e do filho no país, quando o hoje presidenciável era o vice de Barack Obama.

 

“As audiências na Câmara vão estar em andamento quando começarem as primárias”, observa Matt Barreto, cofundador da empresa de pesquisas Latino Decisions. “A mídia só vai falar nisso, e ninguém vai encontrar espaço para discutir outros assuntos, como reforma da imigração, planos de saúde e revisão do código penal”, observa. Na assessoria de Biden, uma preocupação adicional é a instauração do julgamento político no Senado, em plena campanha. Até pelo teor das acusações a que o presidente responde, a expectativa é de que a defesa se concentre em explorar os negócios do filho do candidato na Ucrânia — e não se descarta a ideia de que o próprio Biden seja convocado a depor.

 

A presença de Trump no banco dos réus de um processo de impeachment no Senado pode soar como música para os pretendentes da oposição, mas nem por isso o cenário está isento de riscos para os principais rivais do ex-vice nas primárias democratas. Elizabeth Warren, Bernie Sanders e Kamala Harris, que lutam para se aproximar de Biden nas pesquisas, são todos senadores. Caso o julgamento político seja instalado, se verão na posição desconfortável de juízes do adversário contra quem voltam desde já suas campanhas.

 

Warren, que no momento parece ter consolidado o segundo lugar na disputa interna, tem a seu favor o registro de que defende o afastamento do presidente desde abril — foi a primeira entre os presidenciáveis a se colocar sobre o tema. Não por acaso, ela não perdeu tempo para elogiar a abertura do inquérito. “A hora do impeachment é agora”, discursou dias depois para simpatizantes, em New Hampshire. “Fico feliz em ver que a Câmara deu esse passo. Espero que isso seja feito, e seja feito logo.”

 

Jeff Link, veterano estrategista democrata, vê razões de sobra para o senso de urgência da senadora. As últimas pesquisas em Iowa e New Hampshire, os primeiros estados a realizarem as primárias, ela ultrapassou Biden pela primeira vez. “O impeachment é uma ótima notícia para ela: se as coisas ficarem congeladas por conta disso, ela estará na dianteira ou muito próxima do favorito.”

 

A senadora Elizabeth Warren, principal rival de Biden: momento favorável para faturar com o inquérito (foto: Scott Olson/Getty Images/AFP )
A senadora Elizabeth Warren, principal rival de Biden: momento favorável para faturar com o inquérito (foto: Scott Olson/Getty Images/AFP )

 

Os passos do processo

 

A Constituição dos Estados Unidos dá à Câmara dos Deputados a autoridade exclusiva para pedir o impeachment do presidente. A decisão deve ser tomada em plenário, por maioria simples, a partir de acusação formulada pelo Comitê de Justiça. Uma vez aprovado, o processo é remetido ao Senado, onde será feito o julgamento. Para condenar o presidente, é necessário o voto de dois terços dos senadores presentes à votação, entre os 100 integrantes da casa.

 

Na história política americana, Donald Trump é o quarto presidente a ser submetido a um inquérito de impeachment. Antes dele, dois foram levados a julgamento no Senado. John Adams, em 1868, foi condenado e afastado. Bill Clinton, em 1998, foi absolvido. Richard Nixon renunciou, em 1974, antes que a Câmara chegasse a votar.

 

Ao contrário do que aconteceu com Nixon e Clinton, no caso de Trump, a abertura do inquérito não foi votada em plenário. A decisão foi da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, que encarregou dos procedimentos seis comitês. Inicialmente, é o de Inteligência que lidera as investigações, por se tratar de uma denúncia feita por um agente do setor. O Comitê de Relações Exteriores ocupa papel de destaque pelo fato de a acusação principal ser a de uso do cargo de presidente para pressionar um governo estrangeiro a investigar um rival político.

 

Caberá ao Comitê de Justiça, por fim, formular as eventuais acusações de impeachment para que sejam examinadas e votadas pelo plenário. Dentro do painel, é necessária a maioria simples para aprovar o indiciamento, o que deixa a decisão nas mãos do Partido Democrata, que tem 24 representantes, contra 17 do Partido Republicano (governista).

 

Uma vez aprovados pelo plenário da Câmara, os artigos de impeachment imputados ao presidente são encaminhados ao Senado, onde os republicanos têm maioria. Embora houvesse dúvidas sobre a autonomia da casa para instalar ou não o julgamento, o líder governista, Mitch Mcconnell, adiantou que, caso o processo seja encaminhado, seguirá até o fim.

 

O inquisidor e o advogado

 

(foto: Ethan Miller/AFP)
(foto: Ethan Miller/AFP)

Adam Schiff

 

O deputado democrata que chefia o inquérito de impeachment contra o presidente Donald Trump não chegou por acaso ao posto de presidente do Comitê de Inteligência da Câmara. No fim dos anos 1980, na fase final da Guerra Fria, Adam Schiff processou o primeiro agente do FBI (a polícia federal dos EUA) a ser condenado por espionar para a hoje extinta União Soviética. À época, era um procurador federal recém-saído da Universidade de Harvard. Hoje, aos 59 anos, ele representa o distrito da Califórnia que inclui Hollywood.

 

Os colegas o comparam a um diretor de escola primária, que nunca altera a voz nem costuma recorrer a exageros retóricos, mas nem por isso deixa de dizer o que pensa sem rodeios. “Lógico, linear, comedido, mas contundente”, resume a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, que o colocou no centro das investigações do “caso da Ucrânia”, que pode levar Trump a julgamento político no Senado.

 

Nas suas considerações iniciais sobre o episódio dos telefonemas em que o presidente pede ao colega Volodymyr Zelinski que investigue o presidenciável democrata Joe Biden, Schiff justificou a fama. “O que vimos até aqui é condenatório. O registro (dos telefonemas) mostra o presidente dos EUA usando todo o peso de seu cargo para obrigar esse líder a produzir material comprometedor sobre seu oponente e interferir na nossa eleição”, afirmou. O inquisidor de Trump tipifica a ação como “um tipo clássico de extorsão”, e arremata: “É assim que fala um chefe mafioso”.

 

(foto: Eduardo Munoz Alvarez/AFP - 17/11/16)
(foto: Eduardo Munoz Alvarez/AFP - 17/11/16)

Rudolph Giuliani

 

É um político republicano de longo prestígio que comanda a defesa legal de Donald Trump desde abril de 2018, quando o procurador especial Robert Mueller iniciou investigações sobre a interferência da Rússia na eleição de 2016, para favorecer o então candidato e hoje presidente dos EUA. Rudolph Giuliani, 75 anos, foi procurador em Nova York e implantou a política de “tolerância zero” com o crime, que o credenciou a ser prefeito da metrópole entre 1994 e 2001 — e, nessa condição, uma das peças-chave na resposta aos atentados de 11 de setembro.

 

Rudy, como é chamado, chegou a ser cotado para disputar, ele próprio, a Presidência. Tornou-se um dos primeiros “cardeais” republicanos a cerrar fileiras com Trump e um de seus homens de confiança. Entre outros fatores, pela fama que cultivou como advogado de retórica fluente e frenética, sempre pronto a saltar de um tema a outros. Foi com essas qualidades que se defrontou com a imprensa quando emergiu o “episódio ucraniano”. No registro dos telefonemas que podem levar o presidente ao banco dos réus, Giuliani é citado como “muito capaz e respeitado”.

 

A sequência dos procedimentos na Câmara permitirá a ele demonstrar suas habilidades. Os comitês que investigam o caso preparam-se para intimar a depoimentos dois colaboradores do advogado de Trump suspeitos de participação no jogo de pressões para que o governo ucraniano levantasse informações comprometedoras sobre o ex-vice-presidente Joe Biden, possível adversário do presidente na eleição de 2020.

 

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