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Correio Braziliense

Tropas turcas avançam e combate com forças sírias se torna iminente

Forças do regime de Damasco se aliam à minoria curda e avançam para o norte, ao encontro das tropas turcas que invadiram o país na última quarta-feira. Choque direto entre os dois exércitos pode abrir nova fase na guerra civil


postado em 15/10/2019 06:00 / atualizado em 15/10/2019 00:38

Militares sírios ocupam posições na região de Raqqa, antigo reduto jihadista que estava sob controle das milícias curdas: aliança contra a Turquia(foto: AFP PHOTO / HO / SANA)
Militares sírios ocupam posições na região de Raqqa, antigo reduto jihadista que estava sob controle das milícias curdas: aliança contra a Turquia (foto: AFP PHOTO / HO / SANA)
A apreensão por um confronto direto entre tropas da Síria e da Turquia tomou corpo nesta segunda-feira (14/10) na cidade fronteiriça de Manbij, com a entrada de forças leais ao presidente Bashar al-Assad. O regime de Damasco determinou o deslocamento do Exército para o nordeste do país em resposta à ofensiva lançada na última quarta-feira pelo governo de Ancara. Forças turcas e milícias sírias aliadas avançaram por uma faixa do território sírio, como parte de uma operação determinada pelo presidente Recep Tayyip Erdogan para empurrar em direção ao sul os combatentes da minoria étnica curda, classificados como “terroristas”. A retirada completa dos mil soldados americanos presentes na região, ordenada pelo presidente Donald Trump, pôs fim à aliança de Washington com os curdos, que pediram a Assad o envio do Exército, com  apoio aéreo da Rússia.


Em resposta à chegada das forças de Damasco, tropas turcas e seus aliados sírios ocuparam posições nas imediações de Manbij, depois de terem assumido o controle de uma faixa de fronteira com extensão de 120km, na direção leste-oeste, entre as cidades de Tal Abyad e Ras al-Ain. Nesta última, prosseguiam nesta segunda-feira (14/10) combates intensos com as Unidades de Proteção do Povo (YPG), uma das principais milícias curdas que compõem as Forças Democráticas Sírias (FDS). “Há uma ampla rede de túneis em Ras al-Ain”, admitiu para agência de notícias France-Presse Abu Bassam, um dos comandantes das forças sírias pró-turcas. “As forças das FDS se movimentam com muita rapidez pelo subterrâneo.”

Os tanques do Exército sírio foram recebidos com festa pelos moradores de Tal Tamr, ao sul de Ras al-Ain, cerca de 6km  ao sul da fronteira turca. Foi a primeira vez que as forças do regime de Assad se deslocaram para a região desde 2012, nos primeiros meses da guerra civil iniciada no ano anterior. A aliança entre o governo de Damasco e os curdos, que até então tinham lutado ao lados das forças americanas para desmanchar o “califado” proclamado na região pelo grupo jihadista Estado Islâmico (EI), marca uma reviravolta no conflito e pode significar o início de uma nova etapa.

“Entre firmar compromissos (com Assad) e permitir o genocídio do nosso povo, escolheremos a vida”, afirmou o principal comandante das FDS, Mazloum Abdi, ao explicar para a imprensa o entendimento firmado com Damasco. Segundo o acordo, o Exército sírio deve assumir o controle de Manbij e Kobane, cidades até segunda-feira (14/10)  sob controle curdo. Com a ordem para a retirada das tropas americanas que apoiavam os curdos na região, permanecerão na Síria apenas 150 efetivos dos EUA estacionados em Al-Tanaf, no sul do país.

Pelo Twitter, como de costume, o presidente Donald Trump confirmou a determinação de desengajar suas forças, como prometido na campanha eleitoral vitoriosa de 2016. “Não vamos travar outra guerra entre gente que se enfrenta há 200 anos”, escreveu, para em seguida lembrar que Washington e Ancara pertencem à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). “Alguém acredita realmente que vamos entrar em uma guerra com a Turquia, que é membro da Otan?”, perguntou. “As guerras sem fim vão terminar.”

 

Deslocamento

Desde o início da ofensiva turca, ao menos 160 mil civis deixaram a região dos combates, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), organização sediada em Londres que monitora o conflito por meio de colaboradores no terreno. A ONG contabiliza a morte de 69 civis e 128 combatentes curdos, embora a Turquia fale em mais de 400, além de 94 milicianos sírios pró-turcos. O governo de Ancara reconhece a perda de quatro soldados e atribui a morte de 18 civis ao disparo de foguetes por parte das milícias curdas.

 

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