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Correio Braziliense

''Marchas pela Liberdade'' provocam uma convulsão social em Barcelona

Mais de 520 mil pessoas de cinco cidades da região autônoma da Espanha se reúnem em Barcelona e atendem à greve geral. Na noite mais violenta da semana, confrontos deixam 77 feridos. Madri promete aplicar a lei aos radicais com contundência


postado em 19/10/2019 07:00

Cartazes com os retratos de líderes separatistas condenados pelo Tribunal Supremo de Madri são exibidos pela multidão, além da bandeira
Cartazes com os retratos de líderes separatistas condenados pelo Tribunal Supremo de Madri são exibidos pela multidão, além da bandeira "estelada"D, símbolo da luta pela independência (foto: AFP / LLUIS GENE)
Na quinta noite consecutiva de protestos na Catalunha, a mais violenta, o centro de Barcelona se transformou em campo de batalha. Do alto de prédios ao redor da Plaza de Urquinaona, policiais lançaram granadas de gás lacrimogêneo contra um grupo de radicais que arrebentou parte da calçada e arremessou blocos de concreto contra as forças de segurança. Pela primeira vez, a Mossos d’Esquadra — a polícia da Catalunha — utilizou um caminhão com jato d’água para abrir caminho entre as barricadas e tentar dispersar os manifestantes. Até o fechamento desta edição, as autoridades contabilizavam 77 feridos, 55 deles em Barcelona, incluindo um agente, que foi hospitalizado em estado grave. Mais cedo, as ruas de cinco cidades da Catalunha e as rodovias que as ligam a Barcelona foram tomadas por um tsunami humano. As chamadas “Marchas pela Liberdade” reuniram 525 mil pessoas, que  atenderam em peso a uma greve geral convocada pelas autoridades catalãs em repúdio à condenação de seus líderes secessionistas pelo Tribunal Supremo de Madri.

“A liberdade em marcha. Demonstração colossal da força cívica dos catalães. Esse é o caminho negado pelo Estado e por seus aliados, e, portanto, o qual não devemos abandonar”, escreveu no Twitter o ex-presidente da Catalunha Carles Puigdemont, refugiado na Bélgica. A violência provocou o adiamento do clássico entre Barcelona e Real Madrid pela 10ª rodada do Campeonato Espanhol de futebol, marcado anteriormente para 26 de outubro. Uma nova data será anunciada na próxima segunda-feira. A Basílica da Sagrada Família, o local turístico mais visitado de Barcelona, fechou suas portas, e a Òpera do Liceu cancelou a programação. O mercado Boqueria, também famoso entre os turistas, não funcionou nesta sexta-feira (18/10). Além de bloqueios em várias estradas da Catalunha, o Aeroporto Josep Tarradellas Barcelona-El Prat registrou o cancelamento de 57 voos.

Antes dos conflitos, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, assegurou nesta sexta-feira (18/10) que o Estado possui todos os mecanismos para garantir a legalidade democrática e a convivência na Catalunha. “Não haverá impunidade ante os atos violentos. Garantiremos e protegeremos o exercício do direito à manifestação, expressão da fortaleza de nossa democracia”, declarou. Horas mais tarde, Fernando Grande-Marlaska, ministro do Interior espanhol em exercício, lembrou que os cidadãos puderam exercer o direito à greve e à manifestação “em plena liberdade”. “Aqueles que vulneram as liberdades democráticas se encontraram, e se encontrarão, com o exercício proporcional, porém contundente, da lei e expressado por meio das forças de segurança do Estado”, advertiu. “Vamos aplicar ao independentismo violento o Código Penal com toda a contundência.” Desde o início da semana, 110 pessoas foram presas e 200 policiais ficaram feridos.

Secessionismo

Cesáreo Rodríguez-Aguilera, cientista político da Universidade de Barcelona, afirmou ao Correio acreditar que a Catalunha assiste ao fim do secessionismo unilateral. “Teremos de ver como se resolve a disputaentre Puigdemont e o atual vice-presidente catalão, Oriol Junqueras, nas próximas eleições (gerais em novembro e catalãs em 2020). O independentismo tem de assumir que, à margem da lei, não há a menor possibilidade de sucesso”, disse. Ele defende que, a longo prazo, haja uma costura de novo acordo que amplie o autogoverno territorial. “Isso não poderá ser feito sem absoluta lealdade de todas as lideranças. As grandes mobilizações desta semana se devem à emoção por conta dos presos e à ira pela sentença.” Apesar de reconhecer o risco de radicalização, Cesáreo explica que tal possibilidade conta com o rechaço da imensa maioria dos catalães. “O que sinto falta é de uma força mais contundente do independentismo pacífico capaz de desmarcar desses setores fanatizados minoritários.”

Autor de O movimento nacional escocês e Curdistão, o povo do sol, o escritor catalão Jordi Vàzquez disse à reportagem que a Espanha não demonstra intenção de negociar. “Se não quer dialogar com alguém que tenha muito apoio popular, o que você faz? Usa a violência para esmagar os protestos”, comentou, em alusão a Madri. “Qualquer diferença política não pode ser resolvida com violência. A Espanha somente respondeu com ódio contra a minoria catalã. A Catalunha leva 12 anos reagindo a esse ódio com sorrisos e pedido de diálogo”, acrescentou o morador de Barcelona, para quem a solução seria novo referendo sobre a autodeterminação catalã.

A crise separatista em datas

A cronologia dos principais acontecimentos relacionados à luta pela independência na região a partir de setembro de 2017.

Tentativa de secessão

6 de setembro de 2017
Os deputados separatistas votam no Parlamento regional uma lei para organizar um referendo de autodeterminação em 1º de outubro, apesar dos protestos da oposição, que os acusa de violar a Constituição espanhola e o Estatuto da Catalunha.

1º de outubro de 2017
Forças de segurança de Madri intervêm para apreender as urnas do referendo, proibido pela Justiça. O governo separatista anuncia a vitória do “sim” com 90% dos votos e 43% de participação, embora os dados não sejam verificáveis.

3 de outubro de 2017

O rei Felipe VI pede o restabelecimento da ordem constitucional após greve geral na Catalunha acompanhada de várias manifestações 
contra a violência policial.

27 de outubro de 2017

Os deputados separatistas aprovam declaração unilateral de independência. Madri suspende a autonomia regional, destitui o governo dirigido por Carles Puigdemont, dissolve o Parlamento e convoca novas eleições.

Diálogo fracassado


21 de dezembro de 2017
Os partidos que defendem a independência, com candidatos presos ou exilados, novamente conquistam a maioria absoluta, com 70 deputados em 135.

 

2 de junho de 2018
Um novo governo catalão, liderado pelo separatista Quim Torra, toma posse e a Catalunha recupera a autonomia. No mesmo dia, o socialista Pedro Sánchez assume como premiê espanhol, excluindo um referendo de autodeterminação.

9 de julho de 2018
Pedro Sánchez inicia diálogo com Torra em Madri.

9 de outubro de 2018
Os separatistas perdem a maioria no Parlamento catalão depois de Puigdemont e seus seguidores recusarem substituir quatro deputados suspensos pela Justiça.

12 de fevereiro de 2019

No Supremo Tribunal começa o julgamento de 12 líderes separatistas, incluindo o ex-número dois de Puigdemont, Oriol Junqueras, pela tentativa de secessão. 


Condenação e tensão


14 de outubro de 2019
O Supremo condena nove dos 12 líderes separatistas a penas de 9 a 13 anos de prisão. Sánchez pede a abertura de novo capítulo sobre o assunto tendo como base o diálogo, mas a sentença atiça os que desejam independência na região, que vão às ruas para protestar. Manifestantes bloqueiam o aeroporto de Barcelona.

15 de outubro de 2019 e dias seguintes
Cenas de guerrilha urbana, com barricadas em chamas e confrontos entre manifestantes com o rosto escondido e os agentes de segurança são registradas em Barcelona e outras cidades da Catalunha.

 

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