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Correio Braziliense

Mesmo com recuo em aumento de passagem, situação no Chile segue instável

Depois de três dias de confrontos entre manifestantes e policiais na capital chilena, que resultaram em 11 mortes e 1,4 mil pessoas detidas, algumas linhas de transporte público voltaram a operar nesta segunda-feira


postado em 21/10/2019 12:34 / atualizado em 21/10/2019 12:37

(foto: Javier Torres/AFP)
(foto: Javier Torres/AFP)
Pucón, Chile — O anúncio do presidente do Chile, Sebastián Piñera, de que as tarifas do metrô de Santiago serão mantidas em até 800 pesos (R$ 4,57, pela cotação de hoje), sem aumentos, ainda não surtiu o efeito desejado. Depois de três dias de confrontos entre manifestantes e policiais na capital chilena, que resultaram em 11 mortes e 1,4 mil pessoas detidas, algumas linhas de transporte público voltaram a operar nesta segunda-feira (21/10), mas a situação continua instável.

 

Apesar de o governo ter decretado estado de emergência e instituído um toque de recolher das 19h de domingo (20/10) às 6h da manhã de segunda, o trânsito segue prejudicado, as famílias continuam sitiadas em casa e centenas de voos que passam pelo aeroporto de Santiago foram cancelados. Insatisfeitos com a atuação do presidente, que classificou o estado atual como "uma guerra", os estudantes que iniciaram a manifestação marcam novos protestos para esta tarde. 

 

Como as demandas sociais são difusas, o recuo de Piñera em aumentar as tarifas não fez muita diferença na mobilização do grupo que defende que os protestos sejam mantidos. A professora de inglês Paulina Pérez, de 31 anos, afirma que "a luta vai além do transporte público". "Espero que a mobilização continue até que o governo preste atenção no que tem sido pedido. Não importa se a tarifa vai ser congelada, isso foi apenas a gota d'água", diz. Para os estudantes, inclusive, a passagem de metrô é mais barata. Eles pagam 230 pesos, mais ou menos R$ 1,31. 

 

A filha de Paulina, Isidora, de 13 anos, mora com os avós e o tio em um apartamento no centro de Santiago, perto da estação de metrô Las Rejas. A família tem lidado com aulas canceladas, trânsito caótico e lojas fechadas, principalmente grandes redes de supermercado, mas considera a manifestação justa e mais importante do que os problemas gerados por ela nos últimos dias. 

 

"Não me preocupo. Sei que minha filha está segura em casa", afirma a professora, que trabalha como guia turística em Pucón, a 785 km da capital chilena. "Há coisas mais importantes, como o custo de vida cada vez mais alto e os péssimos serviços públicos", explica a professora. Além do congelamento no preço do transporte, a população pede melhoras nas áreas de saúde e educação. 

 

Pautas difusas

No dia anterior ao início dos protestos, na quinta-feira (19/10), já se falava sobre a insatisfação dos estudantes com o aumento de 30 pesos na tarifa do metrô de Santiago — o equivalente a R$ 0,17, pela cotação atual. A passagem passaria a custar até 830 pesos chilenos, ou R$ 4,73. Turistas brasileiros faziam as contas: é mais do que o valor cobrado em São Paulo (R$ 4,30) ou no Rio de Janeiro (R$ 4,60), por exemplo. 

 

Mesmo com o assunto em alta, era difícil prever a dimensão que ele tomaria em poucas horas. No centro de Santiago, o único protesto que se viu na quinta-feira de manhã foi de um pequeno grupo de professoras, na Plaza de la Constitución, em frente ao Palácio de La Moneda, sede da Presidência da República chilena. Sem nenhum indício de violência, 10 ou 15 mulheres cantavam e carregavam faixas cobrando o pagamento de uma dívida histórica do governo com a categoria.

 

Outra pauta recorrente nas manifestações do mesmo grupo, mobilizado pelo Colegio de Profesores de Chile, é a Previdência e o baixo valor de aposentadorias desde que o sistema do país foi capitalizado. "Há uma demanda muito grande para que o governo comece a contribuir, porque hoje está tudo nas mãos dos bancos. Se eles perdem, o cidadão perde. Mas, se ganham, eles embolsam o lucro sozinhos", resumiu uma guia turística. 

 

Embora a mobilização das professoras não tenha, diretamente, nada a ver com o protesto dos estudantes, as demandas acabaram interligadas. Como em 2013, no Brasil, quando as manifestações "não foram só por 20 centavos" a mais na tarifa do metrô de São Paulo, o movimento dos estudantes chilenos também tem raízes mais profundas.

 

*A repórter viajou ao Chile a convite da Latam Airlines

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