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Correio Braziliense

Tensão e temor de fraude marcam eleições presidenciais na Bolívia

O presidente Evo Morales tenta o quarto mandato e, segundo últimos dados, tem chances de alcançar a vitória no primeiro turno


postado em 21/10/2019 18:21

(foto: AFP)
(foto: AFP)
Uma crescente suspeita de fraude nos resultados eleitorais a favor do presidente Evo Morales tomou conta de muitos bolivianos nesta segunda-feira (21), que participaram de vigílias em torno de algumas sedes regionais dos tribunais eleitorais, que até a última atualização desta matéria não haviam confirmado se haverá um segundo turno.

Sem os dados dos votos das áreas rurais e do exterior, com os quais Morales conta para vencer no primeiro turno, o Órgão Eleitoral Plurinacional (OEP) não havia atualizado os resultados preliminares, produto de uma apuração rápida.

Até o momento da interrupção da apresentação dos dados, no domingo à noite, Morales, que busca o quarto mandato consecutivo, tinha 45,28% contra 38,16% de Carlos Mesa, com 84% dos votos apurados, indicando assim tendência de um segundo turno em 15 de dezembro.

Candidato presidencial da oposição, Mesa denunciou nesta segunda a suposta intenção de Morales de "manipular", através do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) o resultado das eleições e evitar o segundo turno.

"Quero, através dos meios de comunicação, denunciar sem nenhum tipo de matiz que o governo está tentando, através do Tribunal Supremo Eleitoral, eliminar o caminho para o segundo turno", afirmou Carlos Mesa em coletiva de imprensa.
Waldo Albarracín, líder do Conade, uma organização civil, alertou que o governo está gerando um clima de instabilidade e disse que "se uma guerra civil ocorrer neste país, é de responsabilidade do governo". 

"Nenhum de nós está interessado em inflamar o ambiente", declarou o ministro da Comunicação, Manuel Canelas.

Preocupada com a interrupção na divulgação dos dados, a missão de observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) pediu no Twitter ao TSE que explique por que motivo interrompeu a transmissão dos resultados preliminares e que o processo de publicação dos dados da apuração aconteça de maneira fluida.

Logo após o pedido, o chanceler boliviano, Diego Pary, e os observadores da OEA "acordaram estabelecer uma equipe de acompanhamento permanente do processo de contagem oficial de votos" das eleições, respondeu o ministério boliviano das Relações Exteriores na mesma rede social.

Diante do cenário de dúvidas, o governo dos Estados Unidos se somou nesta segunda aos pedidos para que a Bolívia restabeleça a "credibilidade e a transparência" do processo eleitoral.

"Os Estados Unidos observam de perto o primeiro turno das eleições na Bolívia, especialmente a repentina interrupção da contagem eletrônica dos votos. Autoridades eleitorais devem restaurar a credibilidade e transparência do processo já, para que seja respeitada a vontade do povo", escreveu no Twitter o subsecretário interino de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Michael Kozak.

Para impedir uma escalada no clima de desconfiança, o chanceler fez um convite público aos embaixadores da Argentina e do Brasil e ao gerente de negócios dos Estados Unidos, além de organizações internacionais, "para continuar o acompanhamento da contagem de votos".

Os primeiros movimentos de protesto contra o tribunal eleitoral ocorreram na cidade de Potosí (sudoeste), onde organizações não governamentais questionam a transparência do pleito. Manifestações ocorreram também em La Paz (oeste) e Santa Cruz (leste).

Possibilidade de segundo turno

Morales, de 59 anos, que conta com os votos das zonas rurais e do exterior para vencer e tomar posse para mais um mandato em 22 de janeiro de 2020, cantou vitória na noite de domingo, sem fazer referência a um eventual segundo turno.

"O povo boliviano decidiu continuar com o processo de mudança (política oficial)", afirmou num pronunciamento na sede do governo em La Paz. Mas para ganhar no primeiro turno, Morales precisa de 40% dos votos válidos e ter uma vantagem de pelo menos 10 pontos sobre Mesa.

O analista Iván Arias considerou garantido o segundo turno, o que seria algo inédito na Bolívia. O analista político Carlos Borth seguiu a mesma linha e disse que com 84% da urnas "abriria o segundo turno, mas recordou que será importante contar os votos nas províncias mais remotas e no exterior, "onde vai ter um peso muito grande os resultados da Argentina".

Um referendo

Em um cenário de polarização, o segundo turno se transformaria em uma espécie de referendo para Morales sobre seus quase 14 anos de governo, afirmou Mesa, durante a coletiva de imprensa onde classificou de "triunfo inquestionável" sua participação no segundo turno.

"Se houver um segundo turno, isso se transforma em referendo", disse à AFP Gaspard Estrada, especialista em América Latina da universidade de Ciências Políticas de Paris.
Nesse caso, "a Bolívia terá que escolher entre duas opções" e "o país sabe perfeitamente qual é o caminho da construção democrática", afirmou Mesa.

"Essa será uma eleição na qual está em jogo o destino da Bolivia", disse o ex-presidente, de 66 anos, que esteve À frente do país de 2003 a 2005.

A sombra da rebelião

Caso ocorra uma vitória de Morales em primeiro turno, em meio a um clima de suspeita de fraude eleitoral, alguns setores da oposição, como o Conade, pretendem convocar uma "rebelião".

A decisão de Morales de disputar um novo mandato é mal vista por um segmento da população e muito criticada pela oposição, que considera que uma vitória do presidente colocaria a Bolívia no caminho da autocracia.

Morales foi beneficiado por uma decisão do Tribunal Constitucional de 2017 que o habilitou a disputar a reeleição de modo indefinido, alegando que este é um direito humano, apenas um ano depois da derrota do presidente em um referendo que consultou a população sobre o tema.

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