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Correio Braziliense

Na Alemanha, extrema-direita cresce em antigas áreas comunistas

Passados 30 anos da queda da barreira que dividiu Berlim na Guerra Fria, a legenda anti-imigração que vem abalando o cenário político do país faz dos estados da antiga metade comunista o seu reduto eleitoral e desafia os partidos instituídos


postado em 04/11/2019 06:00

Simpatizantes da Alternativa para a Alemanha festejam o resultado nas eleições regionais na Turíngia: votação de partido grande(foto: John Macdougall/AFP)
Simpatizantes da Alternativa para a Alemanha festejam o resultado nas eleições regionais na Turíngia: votação de partido grande (foto: John Macdougall/AFP)
Na noite quase inverossímil de 9 de novembro de 1989, quando o Muro de Berlim desabou simbólica e até fisicamente, sem um só tiro ou ato de violência, ninguém imaginava que apenas um ano mais tarde a Alemanha voltaria a ser uma só. Muito menos alguém arriscaria o palpite de que justamente a antiga metade oriental, comunista, viria a se tornar a estufa e o reduto de uma extrema-direita que se firma a cada eleição e é fator de complicação para a formação de governos — tanto nos estados quanto na esfera federal.

A queda do Muro, o símbolo mais ostensivo do mundo partido que emergiu da 2ª Guerra Mundial, completa 30 anos no sábado. Duas semanas antes, no domingo 27 de outubro, um dos cinco estados que compunham a Alemanha Oriental saía das urnas com um quadro político que retrata em alta definição o terremoto em andamento no sistema político do país. A ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD), lançada em 2013, completou o ciclo eleitoral nas regiões do leste confirmando a condição de segunda força política naquele que foi um dia proclamado “o primeiro Estado operário” na terra natal de Karl Marx.

Com os 23% conquistados na Turíngia, a AfD deixou para trás a União Democrata Cristã (CDU), da chanceler (chefe do governo federal) Angela Merkel, e o Partido Social Democrata (SPD), sócio menor da coalizão federal e a mais antiga das legendas alemãs. A combinação dos resultados deixou em situação insólita o vencedor, o partido da Esquerda, formado por remanescentes do Partido Comunista alemão-oriental e dissidentes do SPD. No único estado em que detêm a chefia do governo regional, os neocomunistas chegaram a 31%, mas já não têm maioria com os atuais parceiros, o SPD e os Verdes.

Diferenças múltiplas

A disparada da AfD a leste da antiga fronteira interalemã ajuda a explicar seu forte resultado na última eleição federal, em 2017. Com 12,6% e o terceiro lugar, a formação anti-imigrantes e anti-islâmica ficou atrás apenas da CDU e do SPD, que formam o governo — e, dessa maneira, ocupa atualmente a posição de maior bancada de oposição no Bundestag. Ao mesmo tempo, o desempenho eleitoral da ultradireita ilustra uma diferença política marcante entre as duas Alemanhas do pós-guerra: se no leste o partido varia entre 20% e quase 30% dos votos, na antiga metade ocidental, fica no patamar dos 10%.

Na interpretação predominante entre estudiosos e analistas, esse descompasso político é sintoma de diferenças socioeconômicas que persistem e, mais ainda, da percepção dos “ossies” — como eram chamados os alemães-orientais — de que viajam na segunda classe da locomotiva europeia. A começar pelo salário médio: 3,3 mil euros por mês, no oeste, e 2,6 mil euros, no leste, segundo dados de 2018. Embora tenham caído as taxas de desemprego, que rondaram os 30% em algumas cidades industriais orientais, no início dos anos 2000, o índice dos cinco estados “além do muro” ainda supera o dos “primos ricos”: 6,4% contra 4,8%.

Desigualdades de renda e oportunidade ganharam o reforço, em 2015, da entrada de mais de 1 milhão de imigrantes e refugiados saídos do Oriente Médio. Angela Merkel e seu partido pagam desde então, em especial no leste do país, o preço pela política de portas abertas para os estrangeiros, que acirrou tensões latentes em antigos polos industriais da Alemanha Oriental. Não por acaso, foi em um deles, Chemnitz, que mantém diante da prefeitura uma estátua de Karl Marx, que a violência irrompeu, em agosto. Sintomaticamente, na Saxônia, o estado do qual a cidade se localiza, a AfD festejou em setembro o seu melhor resultado em eleições estaduais: 27,5% dos votos.

Advertência

Nem todos os que refletem sobre a guinada à direita na ex-Alemanha comunista, porém, se limitam a buscar nos desequilíbrios estruturais que persistem com o oeste a explicação para o fenômeno. O jornalista e escritor Ingo Schulze nasceu em Dresden, a capital da Saxônia, pouco mais de um ano depois da construção do Muro de Berlim (agosto de 1961). Em artigo que escreveu para o Berliner Zeitung, ele relembra que, já em 1990/91, ainda no interior da Alemanha Oriental, compartilhava com colegas de redação os receios diante de skinheads e neofascistas que promoviam a violência contra estrangeiros e intimidavam os autores de artigos que os desagradassem. “Aqueles jovens não eram capazes de me convencer de que os vietnamitas eram os culpados pelo fato de nem eles nem os pais conseguirem emprego”, raciocina Schulze. “Mas eu tampouco convenci algum deles do contrário”, admite.

Autor, entre outros, do romance Vidas novas (2005), no qual retrata os desafios existenciais dos ossies na Alemanha reunificada, Schulze chama a atenção para o “pensamento único” adotado pelos grandes partidos, afinado “com o mercado”. “As coalizões (entre CDU e SPD) criaram um vácuo político que está sendo preenchido”, analisa o escritor. “Quando as promessas de justiça social começam a vir da direita, que elege como ‘inimigo’ os mais fracos entre os mais fracos na sociedades, não fica difícil adivinhar o que vem pela frente”, provoca. “Os problemas que ficam à vista no leste são os mesmos que estão presentes no país inteiro. Apenas, aqui eles aparecem antes e com mais clareza.”

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