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Correio Braziliense

Bolívia: Debandada de autoridades cria incógnita sobre quem assumirá o país

Pressionado por opositores, policiais e militares, Evo Morales deixa a Presidência após quase 14 anos no poder. Saída em cadeia das autoridades que formavam a linha de sucessão constitucional cria incógnita sobre quem assumirá o governo


postado em 11/11/2019 06:00 / atualizado em 11/11/2019 07:02

O primeiro presidente indígena anunciou a renúncia pela televisão: três semanas de intensos protestos(foto: ENZO DE LUCA/AFP)
O primeiro presidente indígena anunciou a renúncia pela televisão: três semanas de intensos protestos (foto: ENZO DE LUCA/AFP)
Do seu berço político, a região central de Cochabamba, Evo Morales renunciou à Presidência da Bolívia após quase 14 anos no poder. Sob a pressão de opositores, policiais e as Forças Armadas, o primeiro líder indígena a chegar ao comando do governo alegou, em discurso televisionado, que tomou a medida para acabar com a perseguição a líderes sociais. Logo em seguida, um clima de instabilidade tomou o país. Em sua conta no Twitter, Morales escreveu que havia um mandado de prisão ilegal contra ele e que teve a sua casa invadida e assaltada.  Yuri  Calderón, comandante nacional da Polícia, negou o pedido. Até o fechamento desta edição, o paradeiro de Morales não havia sido divulgado.

Junto com Morales, o vice-presidente, Álvaro García Linera, e outros dois nomes na linha de sucessão — Adriana Salvatierra,  presidente do Senado, e Víctor Borda, presidente da Câmara de deputados — renunciaram aos cargos, criando uma incógnita quanto a como se dará o governo transitório. Decisões quanto às próximas eleições também estão no ar, já que  dependem do Tribunal Supremo Eleitoral, cuja presidente, María Eugenia Choque, foi presa por ordem do Ministério Público, que investiga as irregularidades no pleito de 20 de outubro. O vice-presidente do TSE, encarregado pelo sistema de informática e que renunciou dois dias após as questionadas eleições de outubro, também foi detido ontem.

A sessão para escolher novos chefes do Legislativo será convocada por uma das duas casas do Congresso — até então, o partido de Morales controla ambas as casas. Marcelo Arequipa, professor de ciência política na Universidad Católica Boliviana, em La Paz, acredita que o cenário atual do país latino é extremamente complexo. “Existem alternativas possíveis para o problema boliviano? A velocidade com que os eventos na Bolívia está acontecendo nos obriga a pensar mais do que saídas legais, saídas políticas”, diz ao Correio. O professor explica que, como o movimento político acabou exigindo a renúncia de absolutamente todas as autoridades, é necessária a convocação de eleições dentro de um período máximo de 90 dias. “Nesse caso, a urgência justifica um acordo político expresso para que possamos ter eleições em 15 de dezembro.”

A decisão de Morales foi tomada após um domingo tenso. Pela manhã, a Organização dos Estados Americanos (OEA) recomendou a realização de novo pleito após, em auditoria, ter detectado fraudes nas eleições do mês passado. O presidente anunciou nova sondagem popular, sem estipular data e esclarecer se seria candidato. Logo em seguida, as Forças Armadas pediram a renúncia dele, “permitindo a pacificação e a manutenção da estabilidade”, segundo o general Williams Kaliman Williams. Pressionado, Morales renunciou ao cargo alegando ser vítima de um “golpe de Estado civil e policial”.

A população foi às ruas para comemorar a saía do presidente, depois de três semanas de confronto com a polícia. Apoiadores de Morales também saíram de casa para protestar contra a renúncia forçada. Na capital, houve confrontos entre os grupos divergentes. O candidato opositor e ex-presidente Carlos Mesa declarou que os bolivianos “deram uma lição ao mundo”. “Amanhã, a Bolívia será um país novo”, disse, na Praça Murillo, em frente à sede do governo.

Conquistas
Horas depois da renúncia, em sua conta no Twitter, Morales relembrou as conquistas que obteve durante sua trajetória no governo. “Somos acusados de ditadura daqueles que nos perderam em tantas eleições. Hoje, a Bolívia é uma pátria livre, uma Bolívia com inclusão, dignidade, soberania e força econômica”, escreveu. “Quero que o povo boliviano saiba, não preciso fugir, para provar se estou roubando alguma coisa. Se você diz que não trabalhamos, veja os milhares de obras construídas graças ao crescimento econômico. Os humildes, os pobres que amam o país continuarão essa luta”, completou.

O governo mexicano ofereceu asilo político a Morales logo depois de a embaixada do país na Bolívia dar abrigo a funcionários e parlamentares alinhados ao governo. “O México, conforme sua tradição de asilo e não intervenção, recebeu 20 personalidades do Executivo e do Legislativo da Bolívia na residência oficial em La Paz, de modo que ofereceríamos asilo também a Evo Morales”, escreveu o chanceler mexicano, Marcelo Ebrar, em sua conta no Twitter.

Podendo deixar a Presidência com alto índice de popularidade, Morales preferiu se empenhar para permanecer no poder, mesmo depois de a população se manifestar de forma contrária em um referendo em 2016 (veja quadro). Ainda assim, o progresso econômico e social é reconhecido por boa parte da população. “Estamos deixando a Bolívia com muitas conquistas sociais”, disse Morales, em seu discurso de renúncia.






A carta e a Bíblia

Na frente da sede de governo, Luis Fernando Camacho, líder do Comitê Cívico Pro Santa Cruz (leste), que faz parte da oposição boliviana, entregou uma carta de renúncia para que Evo Morales a assinasse, além de uma Bíblia. Ainda presidente, Morales não estava no prédio. Os opositores entraram e se ajoelharam diante de um imenso escudo boliviano, no meio de um corredor, onde depositaram a carta e a Bíblia. Segundo Camacho, Deus deveria “voltar à sede do governo”, pois havia “sido retirado pelo presidente de esquerda”.



Palavra de especialista

Desgastes em cascata

“Foi o fim de um ciclo político do movimento socialista do governo de Evo Morales que durou quase 14 anos. Terminou graças a um conjunto de desgastes, a partir de questionamentos sobre corrupção, narcotráfico, contrabando, má gestão, má imagem, sobretudo nesses últimos tempos de desgaste político. O que realmente veio a destruir esse ciclo foi a auditoria da OEA indicando irregularidades nas eleições. Isso mostrou à população em geral, e aos atores políticos em particular, que eles queriam se perpetuar no poder. Agora, o que se espera e que possam respeitar a ordem constitucional. A Assembleia Legislativa pode convocar uma assembleia extraordinária para eleger novos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, já que ambos renunciaram aos cargos. Uma vez eleito esses presidentes, apenas um terá o comando do governo e a tarefa e a determinação de convocar as eleições em um prazo de 90 dias, concluindo, assim, a transição para um novo governo constitucional”

Jorge Dulon, professor e  consultor político pela Universidade do Chile



Pontos-chave da crise

21 de fevereiro de 2016
Em um referendo, a população rejeitou a proposta de o presidente da República disputar a quarta reeleição. Evo Morales, porém, recorreu ao Tribunal Constitucional alegando que os opositores usaram uma história falsa sobre um filho não reconhecido para prejudicá-lo. No fim de 2017, o tribunal autorizou a sua candidatura.

4 de dezembro de 2018 
O Tribunal Eleitoral Boliviano autorizou Evo Morales a concorrer ao quarto mandato de cinco anos. Caravanas avançaram rumo à capital para protestar contra a candidatura. Pesquisas apontaram que o principal 
adversário de Morales, o ex-presidente Carlos Mesa, liderava a intenção de votos.

20 de outubro de 2019
Evo foi reeleito em primeiro turno depois de uma apuração polêmica. As contagens foram suspensas quando a contagem indicava a realização de um segundo turno. Dois dias depois, Morales foi anunciado vencedor com 10% de votos a mais que Carlos Mesa. Manifestações contrárias ao pleito tomaram as ruas antes mesmo do fim da contagem.

8 de novembro de 2019 
As manifestações estavam cada mais intensas. Os departamentos de polícia das regiões de Cochabamba, Sucre e Santa Cruz decidiram não mais reprimir os protestos e se amotinaram. No dia seguinte, policiais de La Paz aderiram ao movimento.

10 de novembro de 2019
A Organização dos Estados Americanos (OEA) publicou conclusões preliminares de uma auditoria indicando a ocorrência de fraude nas eleições e a necessidade de convocação de um novo pleito. Logo em seguida, Evo Morales anunciou a dissolução do Tribunal Superior Eleitoral e convocou as eleições. Ainda assim, chefes das Forças Armadas e da Polícia pediram que o presidente deixasse o cargo para “pacificar” o país. Morales renunciou em seu berço político, a região central de Cochabamba.





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