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Correio Braziliense

''Não houve um golpe de Estado'', afirma líder da oposição na Bolívia

Acusado por Evo Morales de conspiração e racismo, Carlos Mesa garante que o primeiro presidente indígena da Bolívia perdeu a base de sustentação e o apoio popular. Adversário ataca cocaleiro, defende saída constitucional e se nega a falar sobre aspirações políticas


postado em 12/11/2019 04:15 / atualizado em 12/11/2019 10:01

(foto: Aizar Raldes/AFP)
(foto: Aizar Raldes/AFP)

Ao renunciar, o presidente Evo Morales acusou o senhor e Luis Fernando Camacho de perseguirem os simpatizantes do Movimento ao Socialismo (MAS)
e de incendiar as residências de familiares dele. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Em primeiro lugar, devo dizer que Evo Morales mente de maneira muito clara. Não houve um golpe de Estado. Eu não sou uma pessoa que esteja vinculada a nenhuma ação de violência. Não tenho nenhum poder objetivo de nenhuma natureza. Sigo candidato em uma eleição. Sou um cidadão comum, e, obviamente, tenho defendido uma linha de paz, de democracia e de pacificação do país. Não há uma só comunicação nem ação minha, direta ou indireta, no sentido da violência. Não quero e nem posso exercê-la, pois não tenho nenhum poder, de nenhuma natureza. Em segundo lugar, quero lhe dizer que a violência que vivemos ontem (domingo), na cidade de La Paz, foi brutal, com militantes do MAS incendiando a casa do senhor Waldo Albarracín, reitor da Universidad Mayor de San Andrés, opositor a Evo Morales. Também atearam fogo à residência da jornalista Casemira Lema, da Televisión Universitária, que foi quem denunciou a fraude.

Como vê a decisão de Morales de abandonar o poder?
A renúncia de Evo Morales é produto da pressão pacífica e democrática exercida pelo povo boliviano durante 21 dias. Mais de 1 milhão de pessoas mobilizadas em diferentes cidades do país, sistemática e permanentemente, contra uma fraude monumental montada por Evo Morales. É preciso reconhecermos algo muito importante: o Tribunal Supremo Eleitoral não é o autor da fraude; é o autor material de uma decisão tomada por Evo Morales, que controlou, do começo ao fim, a instituição. A fraude não é uma visão subjetiva, é a comprovação de dois informes da OEA (Organização dos Estados Americanos), da missão que esteve na Bolívia. O relatório de ontem (domingo) é muito mais demolidor, todavia, em relação a esse tema.

Antes de renunciar, Morales chegou a aceitar novas eleições. Por qual razão o senhor pensa que ele perdeu apoio das Forças Armadas e entregou o cargo?
O presidente  perdeu o apoio do país a partir de 2016, no momento em que o referendo de 21 de fevereiro daquele ano disse ‘não’ às eleições indefinidas. Morales zombou da população, inventando um argumento jurídico absolutamente inconsistente. Ele repetiu essa provocação ao povo e voltou a dar as costas ao voto popular em 20 de outubro, instrumentando uma gigantesca fraude que nos roubou a eleição; particularmente a mim, como candidato, que estava na oposição com a maior quantidade de votos. Essas duas decisões se concretizaram em algo muito importante. Você pode fazer muitas coisas contra o povo, mas, talvez, a pior seja retirar-lhe o direito sagrado ao voto e não reconhecer o direito sagrado ao voto. Isso provocou um grande mal-estar no país e, durante 21 dias, se produziu uma resistência democrática pacífica, e foi ela que debilitou Morales, que tinha perdido a sustentação de sua base popular.

Cuba e Venezuela denunciaram um golpe militar na Bolívia. O que acha disso?
Muito simples. Você viu alguma fotografia de algum militar a 10m, 20m, cinco quadras, 10km do palácio de governo? Houve alguma ação militar de alguma natureza? A única coisa que as Forças Armadas da Bolívia disseram ao presidente, a poucas horas de sua renúncia, foi que não sairiam às ruas para reprimir o povo boliviano e não cobrariam vidas de compatriotas. Em consequência, sua posição era a de não respaldar a ação irresponsável do presidente Morales. Em nenhum caso, as Forças Armadas atuaram ou fizeram nenhum tipo de declaração que pudesse ser interpretada como um golpe de Estado.

Hoje, a Bolívia não tem presidente, nem vice, e os líderes das duas câmaras do Congresso renunciaram. Como recompor a estabilidade política e institucional da Bolívia?
O único caminho possível é a via constitucional, pela sucessão constitucional. Como você sabe, renunciaram o presidente, o vice, e os presidentes da Câmara e do Senado. Esses são os quatro cargos na sucessão constitucional. O que corresponde é que se reúna a Assembleia Legislativa Plurinacional para receber a carta do presidente Morales e de seus colaboradores, os três membros que acabo de mencionar, aceitar a renúncia e nomear um novo presidente do Senado, para que essa pessoa ocupe interinamente o governo para convocar um novo processo eleitoral. Esta é a minha opinião. É um processo muito difícil e complexo, porque o MAS tem dois terços nas duas Câmaras e, provavelmente, Morales está em Chapare, a zona de produção de coca que produz a maior quantidade de cocaína que vai, sobretudo, para o Brasil. Creio que ele esteja trabalhando para evitar que se crie um quórum necessário. Nós cremos que os parlamentares da oposição têm buscado articular com alguns parlamentares do MAS para construir o quórum, e, tomara, que possamos reconstituir essa sucessão presidencial. Não há outro caminho que não seja a Constituição e o seguimento do processo do que diz a lei.

O senhor aceitaria assumir o posto de presidente novamente? Quais suas aspirações neste momento?
Este não é um momento que me permita dar uma resposta nessa direção. Creio que a situação do país é muito complexa. Primeiro, temos que conseguir, antes de falar de aspirações pessoais, construir a sucessão constitucional adequada, de acordo com a lei. Uma vez que que se restabeleça esta linha de mando constitucional e que tenhamos um presidente que leve adiante o processo de transição, poderemos, nos próximos dias, pensar no tema. Agora, temos que pensar na pacificação, na construção de um governo democrático adequado à lei.

Morales qualificou o senhor e Camacho de “racistas e golpistas” e lhes instou a “assumirem a responsabilidade de pacificar a Bolívia”. Se estivesse frente a frente com Evo, o que lhe diria?
Eu diria que Evo Morales sabe perfeitamente minha história democrática, minha história de respeito aos direitos humanos. Como presidente, dei à vida um valor sagrado. Tenho sido um promotor da inclusão e do respeito ao mundo indígena. Eu celebrei o fato de termos um presidente indígena. Eu celebrei que os indígenas da Bolívia, depois de um longo processo, no qual houve a revolução de 1952 e a democracia em 1982. Também a primeira parte do governo Evo Morales, em que conseguiram a inclusão. Evo Morales sabe que mente de maneira descarada. Ele conhece minha trajetória e sabe que sou un militante dos direitos humanos e respeito os meus compatriotas indígenas.

E como o senhor vê essas ofensas?
Eu simplesmente tomo suas palavras como as de uma pessoa desesperada, que busca transferir sua responsabilidade. Quem construiu uma ação de racismo e de discriminação, nos últimos dias de governo, foi Morales, que promoveu a ideia totalmente falsa de que havia uma divisão entre o mundo urbano e o mundo rural, entre o mundo indígena e o mundo não indígena. Foi uma invenção do senhor Morales para tratar de salvar-se porque não tinha respaldo da maioria da população. Parece-me penoso que um homem que originalmente chegou ao governo para defender a inclusão tenha terminado com essas grosseiras acusações.

O governo de Jair Bolsonaro se limitou a afirmar que esta é uma oportunidade para defender o voto impresso, depois das supostas fraudes nas eleições da Bolívia. O que o senhor espera do Brasil nesse momento?
Eu espero do Brasil o mesmo que espero do conjunto da comunidade internacional democrática. Que estabeleça o que ocorreu com clareza. E o que ocorreu foi que o presidente Morales renunciou porque não tem capacidade de governar, porque perdeu o respaldo do povo boliviano e, portanto, que se reconheça o governo constitucional quando este se posicionar, de acordo com a linha estabelecida pela lei. Estamos absolutamente seguros de que, tanto o Brasil, como o resto da comunidade internacional, assumem e devem assumir que não houve aqui nenhum golpe de Estado e que a renúncia do presidente foi pela evidência de que ele não poderia seguir governando por ter perdido respaldo popular. A assembleia de direitos humanos e o conjunto da oposição pediu sua renúncia, porque ele é autor de uma fraude monumental, porque ele deu as costas por duas vezes ao povo boliviano e porque controlava os poderes do Estado de maneira autoritária e, muitas vezes, inconstitucional.



“ Você pode fazer muitas coisas contra o povo, mas, talvez, a pior seja retirar-lhe o direito sagrado ao voto e não reconhecer  direito sagrado ao voto”


“O único caminho possível é a via constitucional, pela sucessão constitucional”

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