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Correio Braziliense

'Piñera é sociopata', diz chileno que perdeu olho em protesto; veja relatos

Dois dos quase 300 chilenos que perderam o olho devido à repressão policial aos protestos contra o presidente Sebastián Piñera explicam por que têm ido às ruas


postado em 30/11/2019 15:59 / atualizado em 30/11/2019 16:01

Ronald e Nicolas: alvos de carabineiros, os dois precisam se adaptar à vida sem um dos olhos(foto: Arquivo pessoal)
Ronald e Nicolas: alvos de carabineiros, os dois precisam se adaptar à vida sem um dos olhos (foto: Arquivo pessoal)
A convulsão social que assola Santiago do Chile e várias cidades acaba de entrar na sexta semana e começa a impactar a economia do país, encurralando o presidente Sebastián Piñera. Sem rosto, o movimento mantém o fôlego e prevê mais manifestações. 


Além da economia, porém, as marcas da repressão do Estado estão nos olhos de vários chilenos — pelo menos 285 sofreram traumas oculares graves, inclusive com a perda de visão, atingidos pelo disparo de balas de borracha e granadas de gás lacrimogêneo.

É o caso do mecânico Nicolas Alejandro Moreno Sandoval, 24 anos, ferido em 21 de outubro passado durante um protesto em Temuco, a 680km ao sul de Santiago.

"O carabineiro apontou uma escopeta contra meu rosto e disparou balas de borracha. Perdi a visão do olho direito. Hoje, tenho de usar uma prótese de vidro para simular o globo ocular. Foi algo muito impactante para mim. Isso mudou a minha vida, pois não posso trabalhar, nem brincar com o meu filho", desabafa ao Correio um dos primeiros manifestantes a ficar cego.

"O objetivo de nossa luta é melhorar a Constituição, modificá-la e retirar o presidente, que não tem mais lugar no Chile. Piñera não dá o braço a torcer e complica muito mais as coisas. As autoridades chilenas acabam de aprovar a lei de impunidade aos militares, para que não tenham de pagar por assassinatos e agressões", completa.

“Eu me sinto mal pelo fato de o meu Chile sofrer um abuso excessivo dos carabineiros. Espero que o futuro do país seja uma vida de igualdade, sem discriminação política. Saibam que o Chile está muito mal. A saída para a crise envolve retirar Piñera, oferecer melhor salário ao povo e eliminar os fundos de aposentadoria", finaliza.

 

"Abuso e opressão"

Desde 11 de novembro, Ronald Nicolás Barrales, 36, também precisa se adaptar à visão parcial. "O povo chileno está pedindo mudanças para fazer um país mais justo, mas lamentavelmente governantes e parlamentares não querem realizar nenhum tipo de ajuste. Eles buscam apenas seus próprios benefícios econômicos e não lhes interessa melhorar o transporte público e reduzir a tarifa do metrô", afirma.

"Não me parece lógico que os valores sejam tão elevados e mais altos que em países desenvolvidos. Não é possível que um presidente não conheça a realidade de seu povo e que siga abusando de seu poder oprimindo as pessoas com a polícia e os militares. Isso faz de Sebastián Piñera um sociopata", completa. 

"A única coisa que o governo busca é criminalizar qualquer tipo de insatisfação popular. O meu sentimento é de muita pena por meu país, que vive sob abuso do poder desde o governo militar. Tudo o que os gestores fazem é se enriquecer às custas da terra e do povo", finaliza.

Manifestante usando a máscara de Guy Fawkes dança diante de barricada em chamas, durante marcha em Santiago do Chile(foto: Johan Ordonez/AFP)
Manifestante usando a máscara de Guy Fawkes dança diante de barricada em chamas, durante marcha em Santiago do Chile (foto: Johan Ordonez/AFP)

Subestação elétrica atacada

O 42º dia de levante, a sexta-feira (29/11), começou com um protesto contra o aumento da tarifa de metrô e ganhou ares de revolta contra o governo de direita. Foram registrados um ataque a uma subestação elétrica no norte e novos saques.

Apesar do incêndio em veículos da central Emelat de Copiapó, o abastecimento de energia não foi interrompido. Quatro delegacias de Santiago e uma de Antofagasta (norte) também foram depredadas. Somente na sexta-feira, 31 pessoas ficaram feridas.

O reflexo da crise atingiu o dólar, forçando o Banco Central a intervir em metade de suas reservas internacionais (US$ 20 bilhões) para sustentar o peso. Ontem, a moeda nacional recuperou 2,3 pontos percentuais e fechou em 809,46 unidades por dólar.

Fenômeno de massas

Marcelo Mella Polanco, cientista político e professor da Universidade de Santiago do Chile, explica ao Correio que a explosão iniciada em 18 de outubro é um fenômeno coletivo de massas, caracterizado por múltiplas demandas e interesses.

"Com o passar do tempo, os erros do governo e o surgimento de estruturas que buscam liderar e conduzir os protestos deram força para sustentar os atos em diferentes lugares do país praticamente todos os dias. Existe uma disputa para gestionar institucionalmente o conflito utilizando-se três agendas: a mudança constitucional, reformas do modelo econômico e a questão da segurança pública", afirmou. "Uma parte do movimento segue como expressão de anomalia social e não se comporta de acordo com padrões tradicionais."

O estudioso admite que o impacto econômico da convulsão social é uma péssima notícia para os consumidores do Chile. “Isso explica a intervenção do Banco Central, na quinta-feira. A volatilidade do dólar seguirá, na medida em que a incerteza política institucional continuar alta. As pequenas e médias empresas serão castigadas.

O setor turístico, por sua vez, registra alto cancelamento de reservas para o verão. Em todo caso, o fator deste problema é político. Se a sensação de incerteza que assola o país for controlada, é provável que a tendência de alta do dólar se detenha”, acrescentou Mella. Além dos 7 mil eventos violentos relatados em todo o país, desde 18 de outubro, 17.834 pessoas foram detidas.

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