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Correio Braziliense

Israel terá terceira eleição em menos de um ano

Eleições ocorrem devido as dificuldades para formação de novo gabinete, com o primeiro-ministro envolvido em três casos de corrupção. Especialistas apontam falta de confiança entre políticos como uma causa para crise histórica


postado em 15/12/2019 06:00

Em primeiro plano, o campo de refugiados de Al-Shati, na Faixa de Gaza, com vista para a cidade portuária israelense de Ashkelon, ao fundo: região conturbada (foto: MOHAMMED ABED/AFP)
Em primeiro plano, o campo de refugiados de Al-Shati, na Faixa de Gaza, com vista para a cidade portuária israelense de Ashkelon, ao fundo: região conturbada (foto: MOHAMMED ABED/AFP)

O israelense Itai Beeri, cientista político da Universidade de Haifa, recorreu a um dos principais pontos turísticos de seu país para tentar explicar a crise política que se agravou na semana passada. “É tudo uma questão de confiança. No momento, o nível de confiança é menor do que o do Mar Morto”, comparou, referindo-se à depressão mais profunda do planeta. Em entrevista ao Correio, ele explicou que o atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e o opositor Benny Gantz, líderes respectivamente dos partidos Likud e Azul e Branco, não acreditam um no outro e são incapazes de confiar nas próximas manobras do adversário. “A base política de apoio de Netanyahu não lhe permitirá correr nenhum risco ou dar um passo sério rumo ao diálogo verdadeiro. No entanto, Gantz possui suporte mais amplo para negociar e procurar por soluções inovadoras prontas para o uso, e não está acorrentado a eleitores radicais da direita” observou.

Israel se lançou na terceira campanha eleitoral em um ano, depois do fracasso na formação de um governo após as eleições de abril e de setembro. Às 23h59 de quarta-feira, o prazo para a criação do novo gabinete expirou, e a Knesset (Parlamento) foi dissolvida. O próximo pleito deve ocorrer em 2 de março. “Nos empurram para novas eleições (...) e o que podemos fazer é vencê-las, obter uma grande vitória, e é o que vamos fazer”, reagiu Netanyahu.

Beeri acredita que a crise do parlamentarismo em Israel tem viés temporário. “Como não temos nenhuma outra opção, alternativa ou caminho extra, o parlamentarismo democrático continuará a ditar as regras de nossa política. A maioria dos israelenses crê não haver modo melhor”, comentou.

Acossado pela Justiça, onde responde formalmente a três casos de corrupção, Netanyahu tentou capitalizar o apoio político dos judeus ultraortodoxos e da direita mais conservadora, ao anunciar a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada. A estratégia parece não ter sido suficiente para garantir a reeleição. “Enquanto for reversível, trata-se de uma tática que também pode servir a alguns movimentos políticos. Israel já provou que pode se retirar de áreas civis e militares e de assentamentos. Se as colônias se tornarem via de mão única, marcarão o fim de qualquer acordo de paz”, advertiu o professor de Haifa. A indefinição política foi tachada de “vergonha” e de “circo” por dois dos principais jornais do país.

Para Menachem Klein, cientista político da Universidade Bar-Ilan, em Ramat Gan (Israel), a sociedade israelense está profundamente dividida entre o bloco de direita nacionalista religioso e a ala direita secular e conservadora, mas não ultraortodoxa. “Também existe uma divisão entre aqueles que respeitam a lei e as decisões da Corte, e aqueles menos comprometidos com esses valores. Além disso, há um elemento fundamental: o deficit democrático”, advertiu à reportagem. O estudioso entende que a democracia de Israel enfrenta um processo de enfraquecimento. “Não somos um Estado liberal democrático, mas etnocêntrico, que fornece a seus 50% de indivíduos judeus direitos extras e poderes, em relação à outra metade. Israel criou a realidade de um Estado entre a Jordânia e o mar Mediterrâneo”, avalia.

Klein afirma que os palestinos que também são cidadãos israelenses se veem sistematicamente discriminados apenas pelo fato de não serem judeus. “Essa parcela da população está excluída do coletivo. À medida que Israel aperta o domínio sobre a Cisjordânia, o nosso deficit democrático aumenta. É impossível expandir o Estado para áreas palestinas, firmar ainda mais suas fundações etnocêntricas e manter as instituições democráticas em bom funcionamento”, disse.

Corrupção


O inferno astral e político de Netanyahu começou depois que a Justiça o processou por três casos de corrupção. No chamado Caso 1.000, o premiê responde por fraude e quebra de confiança, após receber de amigos milionários caixas de champanhe e charutos em troca de favores oficiais. No Caso 2.000, Netanyahu é acusado de propor leis na Knesset para prejudicar o diário concorrente do Yediot Ahronoth. No processo 4.000, considerado a mais grave, ele teria cometido suborno, fraude e quebra de confiança ao promover decisões regulatórias que beneficiariam uma companhia líder nas telecomunicações. Em troca, recebia cobertura favorável de mídia em um site mantido pelo grupo. Netanyahu alega inocência e afirma ser vítima de uma “caça às bruxas” pelo Ministério Público e pela mídia.

Demissão forçada de quatro ministérios

Acusado em três casos de corrupção, Benjamin Netanyahu foi forçado, na última sexta-feira, a renunciar a quatro ministérios — Saúde, Bem-Estar Social, Agricultura e Assuntos da Diáspora Judia. Além de premiê, ele acumulava as quatro pastas. O pedido de demissão foi feito pela organização não governamental Movimento pela Qualidade do Governo ao Tribunal Supremo. A entrega dos cargos será efetivada em 1º de janeiro. Eleitores mantêm apoio a Netanyahu, após o indiciamento, e organizaram protestos em frente à sede do gabinete, em Jerusalém.


Pontos de vista


Por Menachem Klein

Risco de intifada
“Nossos parlamentares não têm uma espinha dorsal. Ele seguem seus líderes de partidos, suas legendas e seus próprios interesses. Acredito que o candidato Benny Gantz seria mais gentil em relação aos palestinos, mas não muito diferente de Benjamin Netanyahu em substância. Gantz não pode concordar com nenhum líder palestino em relação aos assuntos de status final (da questão árabe-israelense), no máximo com pequenos passos para melhorar a vida cotidiana palestina. Se o público palestino despertar e  se revoltar para alcançar a liberdade ou os direitos iguais, uma nova intifada será possível, mas não sob o governo de Mahmud Abbas. Quando ele partir, todas as opções estarão em aberto.”
Cientista político da Universidade Bar-Ilan, em Ramat Gan (Israel)

Por Itai Beeri

Construção de crédito 
“Não acredito em um acordo de paz negociado por israelenses e palestinos tão rapidamente, como em dois ou três anos. Primeiro, devemos encontrar novos pontos de convergência entre os israelenses. Devemos concordar sobre alguns pontos de interesses comuns. A confiança deveria ser construída também com nossos vizinhos, passo a passo, antes de assinarmos qualquer pacto ou acordo. Em relação a uma nova intifada, não acredito que nenhum de nós, especialistas israelenses, tenhamos as ferramentas necessárias para projetar ou prever se, quando e em qual medida os palestinos serão levados a iniciar uma outra rodada de violência.”
Professor da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Haifa, em Israel

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