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Manifestações dificilmente abalarão governo do Irã, avaliam especialistas

Sob o comando absoluto do aiatolá Ali Khamenei, país persa luta para preservar o legado da revolução de 1979 e manter sistema político diferenciado. Especialistas avaliam o funcionamento do regime e veem quase nenhum espaço para ameaça por parte da oposição

Um sistema político único, incapaz de ser encontrado em qualquer outro lugar do mundo. O poder concentrado nas mãos de uma pessoa, o aiatolá, considerado o guia supremo da nação. Um conselho formado por seis clérigos islâmicos e seis juristas, cuja missão é preservar o legado da Revolução Iraniana de 1979. Uma Guarda Revolucionária que controla as Forças Armadas e impede qualquer possibilidade de golpe a partir da caserna. O movimento que depôs o xá Reza Pahlavi, aliado dos norte-americanos, e instituiu o islã como religião de Estado, quatro décadas atrás, foi construído para sobreviver ao tempo e às influências externas. Nos últimos anos, porém, o regime teocrático islâmico tem enfrentado provações.

As sanções financeiras impostas pelo Ocidente impactaram a economia iraniana. Parte da população acusou o “Grande Satanás”, como são chamados os EUA, de tentar implodir o regime. Outra parte, descontente com o aiatolá e com o seu séquito de mulás, tem advogado por uma mudança rumo a um governo não religioso e mais democrático.

O iraniano Saed Golkar, professor-assistente de ciência política da Universidade do Tennessee em Chattanooga e especialista em Oriente Médio, explicou ao Correio que o aiatolá também aponta metade dos integrantes do Conselho de Guardiães. “Esse organismo é responsável por avalizar todas as leis aprovadas pelo Parlamento e detém o poder de vetá-las caso as considere inconsistentes com a Constituição e com a jurisprudência islâmica. Ele também pode barrar candidatos de disputarem as eleições parlamentares e presidenciais”, acrescentou. No regime teocrático, o clérigo aiatolá Ali Khamenei tem poderes quase que ilimitados (veja arte), além de ser o comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Ex-repórter do jornal The New York Times em Teerã, a iraniana-canadense Nazila Fathi disse à reportagem que o guia supremo tem a palavra final em todos os assuntos. “O presidente (Hassan Rohani) tem de se reportar a ele, assim como todos os outros ramos do poder. A Guarda Revolucionária ainda pode ser vista como a força militar que protegerá o regime islâmico”, afirmou. Com um sistema autocrático religioso, não sobra muito espaço para adversários políticos. “A mobilização de uma oposição interna é altamente improvável. Pelo modus operandi da República Islâmica na Síria, sabemos que o regime faria qualquer coisa para se manter no poder”, explicou Fathi. Ela não descarta que, sob intensa pressão, Teerã concordaria em negociar concessões com Washington. “Qualquer tipo de reforma somente ocorreria após uma melhoria da situação econômica”, avaliou. Algo pouco provável, ante as sanções que estrangulam a economia em retaliação ao programa nuclear iraniano.

Autora de Lonely war, one woman’s account of the struggle for modern Iran (Guerra solitária, o relato de uma mulher sobre a luta pelo Irã moderno), Fathi disse que a derrubada do Boeing 737-800 ucraniano com 176 pessoas a bordo foi um ato emblemático “de quão pouco valor o regime considera pelas vidas dos próprios cidadãos”. “As sanções dos EUA contra o Irã também representam uma violação dos direitos humanos, uma vez que as pessoas comuns são esmagadas pela pressão econômica. Nós sabemos que, quando o regime sofre pressão externa, aperta os laços das liberdades civis. Os EUA e o Ocidente estão minando o movimento pró-democracia do Irã tanto quanto o regime o faz.”

Democracia

De acordo com Golkar, as queixas em massa e a insatisfação popular levaram à formação de grupos informais de oposição. “Na condição de ideocracia, a República Islâmica tem várias similaridades com um regime totalitário, em termos de supressão e de propaganda maciça. Por se tratar de regime ideológico com política expansionista, tem caráter revolucionário e busca exportar a ideologia”, comentou. Para tanto, utiliza a Força Quds, braço da Guarda Revolucionária Islâmica, cujo comandante, o general Qasem Soleimani, foi assassinado por um drone norte-americano pouco depois de desembarcar em Bagdá.

Para o libanês Ali Mourad, especialista freelancer em temas do Golfo Pérsico, o poder de Khamenei somente não é absoluto porque a Assembleia de Experts pode, em tese, removê-lo do cargo. Por seguir ordens diretas do aiatolá, e não do regime, a Guarda Revolucionária impede um golpe contra o sistema revolucionário planejado a partir das Forças Armadas. Ele explica que a Revolução Islâmica de 1979 foi a expressão de forças profundas na sociedade persa. “Por isso, cada vez que a Agência Central de Inteligência (CIA) tentou conduzir um golpe contra o regime, fracassou. Apesar das duras sanções econômicas, os iranianos parecem ter aderido à Revolução, e provam isso toda vez que os EUA tentam chacoalhar o sistema internamente. Não creio que um governo não religioso seria uma escolha popular esmagadora”, observou. Apesar de reconhecer que seguidores da monarquia buscam retomar o poder, com a ajuda dos EUA, Mourad admite que eles ainda não conseguem penetrar a sociedade ou convencer a maioria de que possam ser uma solução.

Pontos de vista


Por Nazila Fathi


Economia sob pressão

“A evolução do regime iraniano em direção a um governo não religioso é o que muitos esperam ver. Trata-se do tipo de reforma que tem galvanizado pessoas atrás de candidatos moderados, desde 1997. O regime enfrenta uma de suas piores crises desde 1979. A economia se encontra em horrível forma (por causa das sanções), a pressão internacional aumenta e a dissidência interna está no mais alto ponto. Não acho que o regime entrará em colapso ou adotará uma reforma em meio a uma crise. Ele recorrerá a qualquer medida extrema para permanecer no poder.”

Ex-repórter do jornal The New York Times em Teerã e autora de Lonely war, one woman’s account of the struggle for modern Iran (Guerra solitária, o relato de uma mulher sobre a luta pelo Irã moderno)


Por Saeid Golkar

Risco de revolução

“A República Islâmica é uma ideocracia baseada na ideologia islâmica. A Guarda Revolucionária é a força armada  mais ideológica do Irã, que apoia o aiatolá e o regime. Embora a possibilidade de golpe seja improvável, por causa do compromisso ideológico da Guarda Revolucionária e do controle do aiatolá, a possibilidade de revolução e de agitação em massa é muito grande. O Irã é uma sociedade muito revolucionária, e o regime se mostra muito impopular e ineficiente. As pessoas estão cansadas e usam qualquer oportunidade para protestar.”

Professor assistente de ciência política da Universidade do Tennessee em Chattanooga e especialista em Oriente Médio pelo The Chicago Council on Global Affairs