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Correio Braziliense

Greenpeace pede em Davos ações concretas contra a crise climática

Em entrevista, Jennifer Morgan, diretora do Greenpeace, condena empresas que dizem ter boas intenções mas não agem na prática


postado em 22/01/2020 12:04

Jennifer Morgan alega que desde o acordo de Paris (sobre o clima em 2015), 24 dos grandes bancos que chegaram a Davos continuam a investir seu dinheiro na direção errada, em combustíveis fósseis.(foto: Fabrice COFFRINI / AFP)
Jennifer Morgan alega que desde o acordo de Paris (sobre o clima em 2015), 24 dos grandes bancos que chegaram a Davos continuam a investir seu dinheiro na direção errada, em combustíveis fósseis. (foto: Fabrice COFFRINI / AFP)
O 50º Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos é um dos "cenários do crime das mudanças climáticas", diz Jennifer Morgan, diretora executiva do Greenpeace, para quem as boas intenções das empresas, principalmente financeiras, não se traduzem em fatos. 

Pergunta: É um sinal encorajador que a emergência climática seja uma prioridade este ano em Davos

Resposta: É essencial focar a atenção no clima (...), mas não acho que os atos estejam no momento à altura dos discursos. Fala-se muito sobre o clima, os jovens (ativistas) são convidados para os painéis, mas os compromissos necessários ainda não são vistos. 

Por exemplo, que os bancos efetivamente excluam os combustíveis fósseis de seus financiamentos e que outros grupos ajam para descarbonizar rapidamente suas cadeias produtivas. 

(Quanto ao discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na terça-feira, vangloriando-se de seus resultados econômicos sem mencionar o clima) "é óbvio que ele não tem conhecimento ou não aceita o conhecimento científico, porque o mundo que ele descreve não existe e não se ganha dinheiro em um planeta morto". 

P.:  O gestor de ativos BlackRock anunciou que deixará de investir em empresas que obtêm 25% de sua receita do carvão. Existe uma maior mobilização do setor financeiro? 

R.: Vou encarar isso com um pouco de reserva. O Greenpeace publicou (terça-feira) um relatório sobre o setor financeiro, que mostra que, desde o acordo de Paris (sobre o clima em 2015), 24 dos grandes bancos que chegaram a Davos investiram um total de US$ 1,4 trilhão em combustíveis fósseis. Eles alegam que respeitam o acordo de Paris, mas continuam a investir seu dinheiro na direção errada. Novamente, muitos discursos, mas ainda são aguardadas propostas para regular o setor financeiro. (...) Até eu ver o conteúdo dos compromissos (desses bancos), não os levarei a sério. Isso se aplica até ao BlackRock. Eles anunciam que vão parar de financiar o carvão. Mas eles não dizem quando (a exclusão será total) e não excluíram outros combustíveis fósseis. É verdade que são pequenos passos, mas a próxima década será absolutamente crucial e esses bancos deverão contribuir para a solução. No momento, eles são tão responsáveis (pelo aquecimento global) quanto o setor de indústrias fósseis.

P.: Não é uma contradição que o WEF evoque o "apocalipse climático" e, ao mesmo, tempo use jatos particulares? Qual o interesse de ONGs como o Greenpeace em vir a Davos? 

R.:  É certamente contraditório quando as pessoas usam jato particular, é claramente um grande problema. Mas o Fórum tem preocupações de credibilidade muito mais sérias do que as emissões de CO2 que gera. Ou o WEF se esforça para promover mudanças reais (...) atacando seriamente a questão do clima, ou sobrevive como uma relíquia do passado. O Greenpeace Internacional decidiu vir a Davos e, em todas as conversas que tenho aqui, tento destacar as verdades (sobre o clima) diante dos poderosos, para confrontar os fatos com pessoas que não estão acostumadas com isso no dia a dia. É incômodo. É como uma zona de guerra ambiental ou uma cena de crime em que todos os criminosos estão a sua frente. Mas eles são precisamente o objetivo. São as pessoas que precisam mudar. A maioria (dos militantes) deve manter a pressão externa, mas confrontar pessoas pessoalmente pode fazer a diferença.

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