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Primeira sexta-feira de oração muçulmana em Jerusalém desde 'plano Trump'

O plano dá ao Estado judeu uma ''luz verde'' para os EUA anexar partes importantes da Cisjordânia ocupada

Agência France-Presse
postado em 31/01/2020 13:17
O longo atraso do plano de paz do presidente Donald Trump no Oriente Médio ganhou apoio em Israel, mas foi amargamente rejeitado pelos palestinos que enfrentam a possível anexação israelense de partes importantes da Cisjordânia.Em meio a uma relativa calma, milhares de muçulmanos participaram nesta sexta-feira (31/1) da primeira oração semanal na Esplanada das Mesquitas de Jerusalém desde o anúncio do plano de Donald Trump para o Oriente Médio, apesar da rejeição radical pelos palestinos.

Um dos motivos de rejeição é o estatuto de Jerusalém, cuja parte palestina está ocupada e anexada por Israel, mas que Washington estima, em seu plano, como a capital "indivisível" do Estado hebreu.

Pouco antes da oração da madrugada, a polícia dispersou palestinos que gritavam palavras de ordem "nacionalistas" na Esplanada das Mesquitas, chamada de Monte do Templo pelos judeus.

A polícia levou reforços a vários setores da cidade Santa, epicentro mundial do monoteísmo, onde milhares de palestinos se reuniram na sexta-feira pela oração.

"Não queremos que a situação degenere como na Síria, ou no Iraque", declarou o grande mufti da mesquita de Al Aqsa, Muhamed Ahmad Husain, referindo-se aos conflitos que ocorrem nesses dois países.

Após a oração, não foram registrados conflitos com a polícia. Observadores acompanhavam a oração desta sexta-feira como um teste de pressão da contestação popular ao projeto de Trump.

Eventual anexação do Vale do Jordão

O projeto dos Estados Unidos também prevê a anexação das colônias israelenses e do vale do Jordão, território palestino ocupado desde 1967.

Segundo autoridades israelenses, esses projetos de anexação serão apresentados no domingo pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

A situação não parece tão clara.

Estas colônias podem ser anexadas "sem demora", afirmou o embaixador dos Estados Unidos em Jerusalém, David Friedman.

O arquiteto do projeto americano, Jared Kushner, genro e conselheiro de Trump, expressou o "desejo de que (o governo israelense) espere para depois das eleições" legislativas de 2 de março em Israel, para anexar os setores estabelecidos no plano.

As duas opções não questionam o projeto de anexação do vale do Jordão, para onde o exército israelense já enviou reforços esta semana.

A mobilização militar no Jordão corrobora a ideia de uma rápida anexação deste vale agrícola, que ocupa 30% da Cisjordânia e é delimitado pela fronteira com a Jordânia.

As fontes militares asseguram, contudo, que esta mobilização está relacionada com as manifestações palestinas.

Foguetes

Desde terça-feira, os confrontos entre manifestantes palestinos que protestam contra o plano dos Estados Unidos e as forças israelenses deixaram pelo menos 30 feridos palestinos na Cisjordânia. Os protestos têm sido limitados, porém.

Na Faixa de Gaza, geograficamente separada da Cisjordânia e controlada pelos islamistas do Hamas, milhares de palestinos se manifestaram nos últimos dias.

Em Gaza, os manifestantes levavam uma faixa com a inscrição "La lisafqat al-Qarn ("Não ao acordo do século", tradução do árabe em português)", uma alusão ao plano Trump, que prevê "desmilitarizar" Gaza e uni-la mediante um corredor com a Cisjordânia amputada.

À noite, foram disparados foguetes de Gaza para Israel, que respondeu com bombardeios contra "posições" do Hamas, segundo o Exército.

Hoje, o Exército israelense afirmou que tinha atacado alvos do Hamas em represália por três disparos de foguetes do enclave palestino contra Israel.

"Traição"

Os líderes palestinos, que não participaram da elaboração do plano Trump, condenaram o projeto de forma unânime. Segundo eles, o texto foi redigido com base nos interesses de Israel e buscaram apoios internacionais por sua causa.

Salvo Irã - grande inimigo de Israel - e Turquia, ferrenho defensor da causa palestina, as monarquias do Golfo e outros países árabes, como Egito ou Jordânia, acolheram o plano, mas sem grandes críticas.

Nesta sexta, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, acusou alguns países árabes de "traição", por ficarem "em silêncio" diante do plano americano.

"Os países árabes que apoiam um plano semelhante traem Jerusalém e seu próprio povo, e algo mais importante: toda humanidade", disse Erdogan durante um discurso para integrantes de seu partido, o AKP, em Ancara.

Neste sábado, vários ministros árabes de Relações Exteriores terão uma reunião extraordinária no Cairo. O mufti de Al Aqsa se referiu a ela nesta sexta e criticou o silêncio de "diversos países" árabes em relação à iniciativa americana.

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