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Poliamor está no ar: América Latina flerta com relações não monogâmicas

Embora não seja novidade, há cada vez mais pessoas que ousam viver e expor seus relacionamentos alternativos

Agência France-Presse
postado em 13/02/2020 14:57

Relação de poliamorMontevidéu, Uruguai ; Esse termo não aparece no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, e as histórias dos adeptos não são contadas nos filmes tradicionais de Dia dos Namorados. Mas o tema é assunto de livros e séries: o poliamor, juntamente com outras formas de conceber relacionamentos, entra no reinado da monogamia, tradicionalmente enraizada na América Latina.

O amor romântico de um casal deixou de ser o único vínculo legítimo para muitos e, embora não seja novidade, há cada vez mais pessoas que ousam viver e expor seus relacionamentos alternativos. O poliamor, definido como as relações sexuais e afetivas de mais de duas pessoas; a anarquia relacional, que se recusa a classificar os vínculos em categorias; e os relacionamentos abertos são algumas formas de ;amor livre;, mais honestos e consensuais, segundo seus adeptos.

;Não é uma guerra contra a monogamia, mas contra a mononorma, que é a imposição desse formato;, afirma Deb Barreiro, de 29 anos, ativista do Amor Livre Argentina. Deb tem um relacionamento com Gabriel López (39) há mais de um ano; May (36) começou a namorar Gabriel algum tempo depois e por cerca de seis meses os três formaram um ;triângulo; poliamoroso, que definem como uma relação aberta e ;dinâmica;.

Ciúmes, a outra parte

Os relacionamentos não tradicionais são desafiados a ;derrubar mandatos e construir valores que atendam a outras necessidades;, descreve Deb. Mas o sucesso implica retirar o que foi adquirido. Para Julio César Jerez, mexicano de 40 anos, atravessar a barreira do amor romântico e da monogamia implica ;deixar de lado suas características prejudiciais;.

A primeira, ele diz, é ;acreditar que somos pessoas incompletas até encontrarmos a metade da laranja;. A outra é ;identificar que a exclusividade amorosa e sexual representam o amor verdadeiro;. Deixar isso de lado ajuda a excluir emoções ;negativas;, como o ciúme, diz Jerez, que teve relações com mulheres casadas que priorizaram seus casamentos, o que é chamado de poliamor hierárquico.

May conta que ;ficava doente de ciúmes;, mas superou isso ao entrar em relacionamentos ;transparentes;. A ruptura também ocorre com preconceitos de fora, pois existem pessoas que reduzem esses vínculos ao sexual. ;Acredita-se que o poliamor é um jogo que consiste apenas em ;polissexo;;, afirmou Jerez.

O espectro de relações não monogâmicas inclui até aquelas que se constroem sem sexo. É o caso de Federico Franco, um ;anarquista relacional;, que se recusa a rotular ou enumerar seus vínculos.

Fim do amor?

Estaríamos vivenciando o fim do amor tradicional? ;Não acho que estejamos perto do fim da monogamia;, diz Tamara Tenenbaum, de 30 anos, escritora argentina e autora de ;O Fim do Amor;. ;O que estamos vendo é o fim do casal como único modo de vida;. O reflexo mais claro é, na prática, um boom de publicações, séries, filmes e livros.

Embora os transgressores hoje não tenham idade definida, os millennials, nascidos entre 1981 e 1990 e que cresceram em ambientes mais liberais e abertos, são os que demonstram mais interesse particular nas novas relações. A escritora peruana Gabriela Wiener concorda. ;Vejo muita tendência, curiosidade e tentativas, mas ainda há um abismo entre a teoria e a prática;, destaca.

Ela atribui a mudança ao movimento feminista mais recente. ;O núcleo dos casais é um dos focos da violência de gênero, por isso falamos sobre toxicidade do amor romântico e procuramos novas maneiras de amar;, analisa.

Para Tenenbaum, os relacionamentos não monogâmicos podem ser ;libertadores; para as mulheres: ;A infidelidade dos homens foi historicamente autorizada: na monogamia tradicional eles tinham uma parceira monogâmica e outros vínculos externos;.

Desafiar a realidade

Os relacionamentos poligâmicos carecem de proteção legal. Mas há aqueles que desafiam essa realidade. Em 2017, Manuel Bermúdez, Victor Prada e John Rodríguez formaram a primeira união poliamorosa na Colômbia em Medellín, ou a inédita ;constituição do regime patrimonial de trisal;.

Assim, obtiveram direitos semelhantes aos das pessoas casadas, após lutar na Justiça. Na América Latina, muitos preferem manter suas preferências íntimas ou descartam a luta legal. De uma maneira ou de outra, dizem, e em qualquer de suas formas, o amor busca que tenham sucesso.

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