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Exame pode melhorar a detecção de melanoma

Análise de sangue avançada combina a identificação de genes relacionados ao câncer de pele e de células doentes espalhadas pela corrente sanguínea de pacientes. Para os criadores, a biópsia líquida também ajudará a monitorar o tumor ao longo do tratamento

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 28/02/2020 04:16
Um exame de sangue poderá ajudar a aumentar as chances de cura do melanoma e também ser usado como ferramenta de monitoramento da doença. O método desenvolvido por cientistas internacionais detecta o tumor de pele de forma precoce unindo duas estratégias: a identificação de células tumorais circulantes (CTCs), presentes no sistema sanguíneo do paciente, e de genes relacionados à doença. Em testes, a tática rendeu resultados promissores, aumentando as taxas de detecção do melanoma para mais de 70%.

O estudo, divulgado recentemente na revista especializada British Journal of Cancer, foi feito em parceria com cientistas do Grupo de Pesquisa Melanoma da Universidade Edith Cowan, na Austrália, e da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Em trabalhos anteriores, o grupo havia identificado a dificuldade de descobrir as CTCs em pacientes com melanoma ; a taxa de detecção varia de 40% a 87%.

Eles também perceberam que isso ocorre porque as CTCs estão entre milhares de outras células do paciente e em menor quantidade. Dentro de um mililitro de sangue, por exemplo, há, geralmente, menos de 10 células cancerígenas no meio de 1 bilhão de glóbulos vermelhos e 1 milhão de glóbulos brancos.

;É como encontrar uma agulha no palheiro;, destaca, em comunicado, Elin Gray, um das autoras do estudo e pesquisadora da universidade australiana. ;Agora, entendemos que a detecção de CTC não pode ser resolvida com uma abordagem única. Há uma enorme variedade de formas e bioatividade dessas células tumorais, todas elas parecem diferentes e respondem de maneira distinta aos testes;, complementa.

Para identificar as CTCs, Gray e sua equipe criaram um método mais amplo de análise, focado na identificação das CTCs e de 24 genes relacionados ao tumor. Ao analisar 43 amostras de sangue de pacientes com melanoma metastático, os resultados foram positivos. ;Ao combinar três ensaios, aumentamos as taxas de detecção para 72%, o que foi um resultado significativa e consistentemente mais alto do que o uso de um teste com foco apenas nas CTCs;, compara Gray.

Metástase

Os investigadores acreditam que os dados poderão ajudar na criação de um método de detecção do melanoma mais eficaz, além de contribuir para o monitoramento da doença durante o tratamento. ;O câncer se espalha pelo corpo quando as CTCs se desprendem do tumor primário e viajam pelo sangue para formar tumores secundários (metástases) em outros órgãos (;) Se pudermos encontrar uma maneira confiável de detectar essas células, teremos a chance de interromper o melanoma em suas trilhas usando uma poderosa ferramenta de diagnóstico;, explica a cientista.

O grupo trabalha, agora, com especialistas em inteligência artificial para acelerar a identificação de CTCs e dos genes relacionados ao melanoma. ;Estamos confiantes de que essa abordagem é um passo em direção à detecção confiável de CTCs, mas precisamos ajustar o ensaio para incluir uma melhor combinação para capturar a maior variedade de células tumorais circulantes;, diz Gray.

Tecnologia promissora

Allan Pereira, oncologista do Hospital Sírio-Libanês em Brasília e chefe da Oncologia do Hospital de Base de Brasília, acredita que o estudo mostra uma maneira de detecção do melanoma promissora, apesar de ser ainda experimental. ;Essa tecnologia de identificar o câncer por meio das CTCs e dos genes relacionados tem sido usada em outros tipos de tumores. Em alguns casos, isso está bastante avançado, como no câncer de pulmão;, relata. ;Isso é muito positivo, pois o método de biópsia líquida, que é como o chamamos, é menos invasivo e mais exato do que os usados anteriormente, como a biópsia normal.;

O médico acredita que o uso de tecnologia para o monitoramento do tratamento também é algo extremamente positivo. ;Com esse tipo de análise, podemos mostrar se o tratamento para o melanoma está tendo os resultados esperados. Isso nos ajuda a saber se precisamos mudar a abordagem e, dessa forma, poupa o paciente;, explica. ;Mas é claro que o estudo precisa ser aprofundado, até porque a tendência é fazer com que esses exames fiquem cada vez mais refinados, ou seja, os cientistas sempre buscam maneiras de fazer com que a tecnologia seja mais avançada.;


"Se pudermos encontrar uma maneira confiável de detectar essas células, teremos
a chance de interromper o melanoma em suas trilhas usando uma poderosa ferramenta de diagnóstico;
Elin Gray,
pesquisadora da Universidade Edith Cowan e uma das autoras do estudo

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