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Correio Braziliense

No Zimbábue, crise da água põe confinamento por Covid-19 em xeque

Apesar das medidas de confinamento, sem água potável em casa, muitos habitantes da capital têm de ir buscá-la nos poços de bairro


postado em 01/04/2020 09:13 / atualizado em 01/04/2020 09:28

Devido à economia amplamente informalizada do país, alguns fornecedores também desafiaram o bloqueio e entraram na cidade para vender seus produtos.(foto: ZINYANGE AUNTONY / AFP)
Devido à economia amplamente informalizada do país, alguns fornecedores também desafiaram o bloqueio e entraram na cidade para vender seus produtos. (foto: ZINYANGE AUNTONY / AFP)
Como acontece diariamente, dezenas de pessoas, com galões e baldes, vão-se amontoando em uma longa fila diante de um poço. Assim é o dia a dia em um subúrbio da capital do Zimbábue, apesar das medidas de confinamento impostas contra o coronavírus.

"Claro que ouvi falar do respeito das distâncias", diz Maxel Chikova, de 16 anos,  naextensa fila para pegar água em um poço no bairro de Mabelreign, em Harare.

"Mas as pessoas já estavam esperando, quando eu cheguei", explica. "Espero que ninguém tenha o vírus", acrescenta.

Desde segunda-feira e durante três semanas, os 16 milhões de zimbabuanos têm a obrigação de ficar em casa para tentar conter a propagação do novo coronavírus.

O último balanço oficial era de oito pessoas contaminadas, com um óbito registrado entre elas.

Sem água potável em casa, porém, muitos habitantes da capital têm de ir buscá-la nos poços de bairro.

A crise econômica que atinge o Zimbábue há duas décadas acabou com os serviços públicos, incluindo a distribuição de água, causou a escassez de todo o tipo de produto e levou a população a viver no limite da inanição e da penúria.

Se o vírus se propagar neste país da África austral, muitos temem uma catástrofe.
 
Há anos, a prefeitura de Harare não fornece água potável para seus 4,5 milhões de habitantes: a começar pelos mais pobres, confinados em periferias, onde vivem de maneira precária e insalubre e onde as medidas de distanciamento social se mostram desconectadas da realidade.

No "township" de Mbare, a fila que vai até a fonte é ainda mais extensa do que em Mabelreign.

Ephiphania Moyo está esperando desde a madrugada.

"Você tem que levantar muito cedo para evitar esperar muito tempo. Não tem outra opção", diz esta senhora. "Todos ouvimos falar do coronavírus e tentamos lavar as mãos ao máximo, mas, às vezes, preferimos usar a água para outra coisa", relata.

"Álcool é para os ricos"

E o gel desinfectante?

"É apenas para os ricos", responde ela, taxativa. "Não é para nós que vivemos nos guetos", desabafa.

Para a população de Harare, os problemas de acesso à água remontam ao início da crise no país, há quase 20 anos. Habitantes que compõem o estrato da população em melhor condição socioeconômica conseguiram escavar poços em sua propriedade, ou se equipar com caras caixas d'água.

A maioria não tem, porém, outra alternativa a não ser ir para os pontos públicos de abastecimento, que estão sempre lotados. 
 
Os poucos que conseguem, eventualmente, abrir a torneira em casa, não se arriscam a beber essa água - ainda que a prefeitura diga que, sim, é potável.

Em 2019, um estudo da consultoria sul-africana Nanotech Water Solutions detectou toxinas na água que podem causar doenças do fígado e do sistema nervoso. 

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